sexta-feira, 6 de março de 2026

Quando a corrupção é mais cara que competir no mercado, Deborah Bizarria - FSP

 O material divulgado nas investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master revela um volume surpreendente de mensagens entre advogados, consultores, operadores políticos e interlocutores institucionais. Um sistema que parece funcionar por meio de pagamentos e da mobilização contínua de recursos. O que me chama a atenção é quanto custa sustentar essa arquitetura de influência.

Contratos públicos conduzidos com maior discricionariedade administrativa apresentam preços mais altos, atraem menos concorrentes e selecionam fornecedores menos produtivos. Ferenc Szucs documentou esse padrão na Hungria após uma reforma que autorizou procedimentos mais discricionários para contratos abaixo de determinado valor, permitindo às autoridades evitar leilões abertos e convidar diretamente um pequeno número de empresas. A ampliação dessa discricionariedade reduziu a produtividade média dos contratados em cerca de 6% em relação ao nível considerado eficiente. As empresas vencedoras são mensuravelmente piores no que fazem, mas politicamente conectadas.

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco e nome em letras metálicas fixadas na parede externa.
Logo do Master na fachada da sede do banco, em São Paulo - Rafaela Araújo - 29.dez.25/Folhapress

Empresas brasileiras expostas a auditorias aleatórias da Controladoria-Geral da União perderam acesso a contratos públicos, mas passaram a crescer mais rapidamente em termos de emprego nos anos seguintes. Emanuele Colonnelli e colegas mostram que a probabilidade de estas firmas obterem contratos federais cai substancialmente após a auditoria e o valor desses contratos diminui. Mesmo assim, muitas ampliam seu quadro de funcionários e investem mais.

A interpretação dos autores é de que parte dessas empresas estava presa a um modelo de negócios baseado em conexões políticas. Quando esse canal foi interrompido, as companhias precisaram se reorganizar e competir no mercado privado. Recursos que poderiam ir para expansão, treinamento ou tecnologia acabavam sendo direcionados à construção de relações políticas.

Apoiar o partido vencedor em eleições municipais aumenta em 10,5 pontos percentuais a probabilidade de conseguir emprego público, quase metade a mais do que a dos apoiadores do partido derrotado. Colonnelli, Prem e Teso documentaram esse resultado ao combinar dados administrativos de emprego público no Brasil com informações sobre doadores de campanha, explorando eleições decididas por margens extremamente estreitas. Os contratados por conexão política são, em média, menos qualificados quanto à educação formal e ao histórico salarial no setor privado.

Quando esses mecanismos operam juntos, emerge um sistema que consome recursos na própria manutenção. Intermediários precisam ser remunerados, redes de proteção mantidas e reputação pública gerenciada. Podemos, inclusive, chamar esse processo de rent seeking: recursos gastos não para produzir riqueza, mas para disputar um acesso privilegiado a ela.

Quanto mais complexa a rede de influência, mais cara ela se torna. Surge, então, um paradoxo: em alguns contextos, operar nesse arranjo pode se tornar mais caro e menos eficiente do que competir em um mercado aberto. As empresas brasileiras expostas pelas auditorias da CGU cresceram justamente depois de perder acesso aos contratos públicos, quando foram forçadas a adotar um modelo menos custoso.

Há situações em que o próprio sistema corrupto se torna tão ineficiente que destrói os ganhos que prometia gerar. Empresas, políticos e intermediários investem enormes recursos num arranjo que pode estar deixando todos pior do que estariam numa economia mais competitiva e menos corrupta.


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