O agravamento das tensões no Oriente Médio gerou, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a maior disrupção da história na oferta de energia (petróleo bruto, derivados e gás natural). O fechamento do estreito de Hormuz, por onde transitam 20 milhões de barris por dia de hidrocarbonetos (20% da demanda global), é o principal responsável por isso.
Mas há fatores que preocupam ainda mais, por terem consequências mais duradouras. A guerra está destruindo várias infraestruturas de produção e transporte naquela região, que podem levar bastante tempo para serem recuperadas. E quanto mais tempo durar o conflito maiores serão os potenciais prejuízos causados a toda essa infraestrutura.
Refletindo isso, observou-se uma alta expressiva da cotação do preço do petróleo, de cerca de US$ 70 no final de fevereiro para algo em torno de US$ 100/barril nos últimos dias, considerando o tipo Brent. E a elevação percentual nos preços dos derivados, sobretudo o diesel e o gás natural liquefeito (GNL), tem sido ainda maior, justamente pelo fato de a região onde ocorre o conflito concentrar parte relevante da extração e do refino mundial.
Como isso impacta a economia brasileira? É difícil apontar se o saldo líquido é favorável ou desfavorável, em termos agregados. Por um lado, o impacto tende a ser claramente negativo: os preços dos combustíveis deverão sofrer reajuste expressivo em breve, uma vez que a defasagem ante a cotação internacional é elevada e a Petrobras, principal player nesse mercado, não tem capacidade de suportar esse descompasso por muito tempo. Como o Brasil ainda tem uma dependência muito elevada do modal rodoviário (cerca de 60%), os efeitos indiretos desse reajuste serão sentidos em praticamente todos os demais bens e serviços, o que pode levar a uma taxa Selic mais elevada.
Ademais, preços de derivados no mercado interno muito abaixo dos internacionais inviabilizam a importação —e o Brasil tem uma elevada dependência de diesel importado, comprando lá fora quase 30% do diesel consumido internamente. Portanto, caso a Petrobras não reajuste os preços, aproximando-os das referências internacionais, corre-se o risco de déficit de suprimento —o que pode ser ainda pior do que uma elevação dos preços.
Por outro lado, ao longo dos últimos dez anos ocorreu uma transformação muito expressiva: o Brasil, que historicamente foi importador líquido de energia (petróleo bruto, derivados e eletricidade de Itaipu, referente à parcela paraguaia), se tornou um grande exportador líquido, basicamente por conta do desenvolvimento da exploração de petróleo e gás natural no pré-sal. Em 2025, o Brasil produziu cerca de 4,9 milhões de barris por dia de petróleo e gás natural, ao passo que o consumo aparente doméstico foi de 2,4 milhões (49% da produção).
O saldo comercial em petróleo e derivados foi superavitário em quase US$ 30 bilhões no ano passado (em 2014 tivemos um déficit de US$ 17 bilhões). Embora tenhamos um superávit, boa parte dele está associado ao petróleo bruto, uma vez que a capacidade de refino brasileira, sobretudo para produzir diesel, é insuficiente para atender a demanda doméstica (algo que vem sendo amenizado pelo aumento da incorporação do biodiesel e pelo uso de biometano).
Assim, uma alta dos preços do petróleo pode ter impacto positivo sobre o PIB brasileiro via comércio exterior, além de gerar uma melhora dos resultados fiscais brasileiros (em 2022 houve um acréscimo de 0,6% do PIB das receitas fiscais refletindo apenas o efeito direto do repique observado naquele ano).
É nesse contexto que é difícil apontar qual o impacto líquido desse choque. Provavelmente ele tende a ser favorável em termos agregados (mais PIB, resultado fiscal melhor), mas bastante desfavorável para boa parte da população.
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