quinta-feira, 5 de março de 2026

Graziano Messana - Apagar a luz para trocar a lâmpada? FSP

  

Graziano Messana

Presidente da Câmara Italiana de Comércio de São Paulo (Italcam)

Há momentos em que a política prefere o barulho da marreta ao trabalho paciente do engenheiro.

Falar em cassar a concessão da Enel na cidade de São Paulo pode soar como gesto de autoridade. Mas, na prática, é como decidir desmontar o motor de um avião em pleno voo porque houve turbulência.

Energia elétrica não é um serviço que se troca como quem troca o plano de internet. Não é cancelar um contrato e apertar um botão. Estamos falando da maior cidade do país, com uma das redes de distribuição mais complexas da América Latina.

Técnico com equipamento de proteção individual, incluindo capacete e máscara, opera em altura para ajustar componente da rede elétrica aérea. Estrutura de madeira e transformador são visíveis contra céu azul.
Funcionário da Enel religa energia em prédio na Mooca, na zona leste da capital, que ficou seis dias sem luz em dezembro de 2025 - Danilo Verpa- 15.dez.2025/Folhapress

Um interventor não chega com manual mágico de instruções. Ele herda um sistema vivo, interligado, cheio de histórico técnico e decisões acumuladas ao longo de anos. Conhecimento operacional não se transfere por decreto. Ou seja, se chega uma chuva violenta e com um interventor pilotando, arriscamos de ficar sem luz um mês inteiro ai o tiro sairia pela culatra.

E há outro ponto que precisa ser dito com clareza: a italiana Enel não entrou no Brasil para brincar. Trata-se de um dos maiores grupos globais do setor elétrico. Em São Paulo, está uma das centrais tecnológicas mais modernas do mundo para gestão de rede. Houve investimento pesado —inclusive bem superior ao originalmente previsto no contrato de concessão. Isso não é opinião; são dados.

Houve falhas? Sim. Eventos climáticos extremos expuseram vulnerabilidades. Mas transformar um problema estrutural em justificativa para ruptura abrupta é como trocar o pneu furado incendiando o carro inteiro.

Também não podemos ignorar o elefante na sala: o manejo arbóreo da cidade é um problema antigo. Árvores mal podadas, conflitos históricos entre fiação aérea e urbanismo desordenado. A rede elétrica convive com decisões municipais acumuladas ao longo de décadas. Não se resolve isso apontando um único culpado.

Em ano eleitoral, a busca por um bode expiatório é quase um ritual. É mais fácil escolher um vilão do que assumir responsabilidades compartilhadas. Pena que não seja possível cassar alguém pelo trânsito crônico da cidade —talvez essa fosse outra manchete conveniente.

Cassar a concessão pode parecer firme, mas envolve anos de disputa jurídica, possível indenização bilionária, retração de investimentos e insegurança regulatória. O custo não fica na manchete —fica na conta de luz e na estabilidade do sistema.

O caminho sério é outro. Trabalho a quatro mãos. Município, regulador e concessionária sentados à mesma mesa, com metas objetivas e cronograma claro. Resolver gradualmente o que é estrutural.

Apagar a luz para trocar a lâmpada nunca foi uma boa estratégia. Construir é mais difícil do que acusar; mas é o único caminho que realmente mantém a cidade iluminada.

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