terça-feira, 10 de março de 2026

Não há como ter paz o cientista que vê ataque onde há questionamentos, Guilherme Henrique Porceban- FSP

 Foi com incredulidade que li nesta Folha o artigo "Deixem a Tatiana trabalhar em paz" (5/3), no qual a colunista Suzana Herculano-Houzel tenta blindar a colega bióloga Tatiana Sampaio do escrutínio inerente à pesquisa médica. Não funcionou; muito pelo contrário.

Ao transformar o rigor metodológico em mera "maledicência" de "cientistas de poltrona", a autora recorre a falácias cognitivamente pobres ao classificar o uso de placebos como injetar "aguinha na medula" para criar uma falsa dicotomia entre abandonar a ciência e torturar o paciente.

Mulher de cabelos castanhos claros e lisos, olhando para a esquerda, com expressão neutra. Fundo preto uniforme destaca seu rosto iluminado de perfil.
A pesquisadora Tatiana Sampaio - Zanone Fraissat - 9.set.2025/Folhapress

A realidade, no entanto, é que oferecer intervenções experimentais a pessoas em estado agudo e altamente vulneráveis exige um rigor que não pode ser relativizado ou tratado como sadismo burocrático. Trata-se de um imperativo ético, determinado pelas declarações de Helsinque e Tratados de Nuremberg, que determinam que grupos vulneráveis devem receber proteção específica por estarem mais sujeitos a injustiças e danos sob o perigoso precedente de "tentar ajudar".

O desespero da ausência de tratamento não autoriza o "vale tudo", tampouco permite que a análise de dados robustos seja substituída pelo sensacionalismo emocional para reforçar a precoce e falsa solução para a cura de lesões medulares. Na realidade, deveria evocar um cuidado adicional aos pesquisadores.

Metodologicamente, a exigência de um grupo controle serve justamente para separar o efeito real da droga da história natural da doença e de vieses observacionais. A conclusão precoce de que a polilaminina recuperou movimentos desconsidera flagrantemente que a intervenção ocorreu de maneira simultânea ao tratamento padrão-ouro em condições ideais, que são a cirurgia de descompressão e reabilitação intensiva. Isso, por si só, já consagra um potencial de recuperação de até 65% (Kirshblum et al., 2021).

Soma-se a isso a gravidade da omissão sobre o "choque medular", fenômeno fisiológico que invalida a certeza clínica de que as lesões eram, de fato, completas no momento da aplicação. Justificar a ausência de controle usando todos os casos históricos anteriores é insustentável e ingênuo, pois lesões medulares traumáticas apresentam características altamente heterogêneas, desde diagnóstico até tratamento, distorcendo qualquer comparação confiável em relação a um padrão único de tratamento.

Por fim, celebrar um sucesso de 100% ignora um problema central de ética na pesquisa: a estatística principal excluiu os participantes que morreram. Em uma amostra de apenas oito pacientes, três óbitos representam uma taxa alta demais para ser descartada, tornando impossível afastar a hipótese de influência da substância nesses desfechos fatais. Ainda mais quando consideramos que os casos mais graves não foram incluídos no estudo.

À colunista, serei categórico: quem sofreu uma lesão medular precisa de esperança, mas também de honestidade. Seu artigo oferece apenas esperança superficial ao tratar o método científico como obstáculo moral. Não é. O método é justamente o que impede que o desespero vire mercado, que a compaixão vire improviso e que promessas se transformem em fraude.

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