É difícil escolher uma única cena preferida num filme encharcado delas como "O Agente Secreto" —a melhor obra de Kleber Mendonça Filho, o que não é dizer pouco. Mesmo sem que eu a tivesse escolhido, uma me volta sem mais nem menos de vez em quando.
O empresário Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), caricatura de um tipo grosseiro de bandido da elite econômica que nunca sai de moda, circula o indicador diante da própria boca ao encomendar a matadores de aluguel a morte de Marcelo/Armando (Wagner Moura). Não basta assassinar o homem: ele quer "um buraco na boca".
A memória da cena perturbadora me voltou de novo, mas agora motivada pelo noticiário. "Esse Lauro Jardim, quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto", disse em mensagem privada o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, referindo-se ao jornalista de O Globo.
Vorcaro foi preso novamente nesta quarta-feira (4). Em seu despacho, o ministro André Mendonça, do STF, afirmou que "identificou-se a emissão de ordens diretas de Daniel Vorcaro para que fossem praticados atos de intimidação de pessoas (dentre as quais, concorrentes empresariais, ex-empregados e jornalistas) que seriam vistas como prejudiciais aos interesses da organização, e com vistas à obstrução da Justiça".
Embora o escândalo vá além, muito além de Jardim, quem sabe a metonímia nos ajude a entender o todo diante de uma teia criminosa que às vezes parece ter o tamanho da República.
São várias as associações entre esses fragmentos da história fictícia de Ghirotti e da história real de Vorcaro, mas a que se impõe logo de cara é a fixação na boca. A centralidade da abertura da cavidade bucal não é gratuita.
Tratados de semiologia —ou, vá lá, pelo menos alguns ensaios maneiros— poderiam ser escritos sobre o terror que se apossa da força bruta diante da parte mais visível do aparelho fonador, por onde sai a voz. Propagadora de informações, arauto de verdades incômodas, a boca sempre foi perigosa.
Atentar contra a boca é, assim, devolver o perigo a ela própria, calando-a de forma destrutiva e exemplar quando se detém o meio violento —"miliciano" é a palavra— de fazer isso.
Naturalmente, não consta desse baralho a carta da argumentação, que opõe à boca outra boca (e que vença a melhor), ou mesmo a da interpelação judicial. O jogo é outro: todos os movimentos são feitos na sombra.
Ghirotti tem dinheiro e poder de sobra para se livrar do professor universitário transformado em desafeto. Da boca de Armando ouviu palavras duras que, viciado na subserviência que se acostumou a comprar, é incapaz de digerir.
Não lhe passa pela cabeça a menor preocupação com uma investigação futura. "O Agente Secreto" deixa claro que o sujeito é enfronhado em altas esferas governamentais.
As autoridades que acobertam as negociatas de Ghirotti embolsam parte dos lucros, claro. Quando não estão em sua folha de pagamento, são suas sócias, suas cúmplices.
A cena fictícia se passa em 1977, tempo de ditadura militar. A real está se passando agora.


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