quarta-feira, 4 de março de 2026

Racismo e estatística, Marcelo Viana, FSP

 Thomas Jefferson (1743-1826), que depois seria o terceiro presidente dos Estados Unidos, escreveu em 1785: "Avanço, apenas como hipótese, que os negros são inferiores aos brancos em termos de dons físicos e mentais. Essa infeliz diferença de cor, e talvez de faculdades, é um poderoso obstáculo à emancipação dessas pessoas". Não diferia muito dos discursos racistas de outros brancos que questionavam se "alguma vez o negro poderá ser elevado ao mesmo nível do cidadão branco desta grande República".

Para muitos, o buraco era ainda mais embaixo. O reverendo Orville Dewey (1794-1882) ponderava que "em Massachusetts tivemos emancipação e, no entanto, os negros estão piores do que os escravos do Sul, que são bem vestidos, bem alimentados e felizes". E John Calhoun (1782-1850), secretário de Estado, usava dados do Censo de 1840 para concluir que os negros libertos tinham taxas de mortalidade e de insanidade piores que os escravizados.

Retrato em preto e branco de Dr. James McCune Smith, primeiro médico afro-americano licenciado nos Estados Unidos, com cabelo branco encaracolado, vestindo terno escuro, colete e gravata borboleta.
James McCune Smith, médico com vasto conhecimento da estatística, foi membro fundador da Sociedade de Estatística de Nova York, em 1852 - Wikimedia commons

Ninguém mais bem habilitado a responder do que James McCune Smith (1813-1865), primeiro médico negro norte-americano e maior intelectual do movimento abolicionista, com seu amplo conhecimento de medicina e estatística. Smith elaborou tabelas estatísticas para provar que os negros livres do Norte tinham desempenho escolar comparável ao dos brancos e que viviam mais tempo e tinham menos doenças mentais do que seus pares escravizados no Sul.

"Uma dissertação sobre a influência do clima na longevidade", publicada em 1846, é seu trabalho estatístico mais refinado. Nele, Smith expõe com lucidez as falácias nos argumentos de Calhoun: as taxas de mortalidade e de doença dos negros libertos não têm a ver com suas condições de vida, e sim com o fato de serem mais velhos do que os negros escravizados, em média, já que a liberdade era alcançada tarde na vida. A comparação correta, insiste, é entre as expectativas de vida ao nascer de libertos e escravizados, e aí os argumentos escravagistas caem por terra.

Em sua resposta a Jefferson, "Sobre a 14ª questão de Jefferson", publicada em 1859, Smith começa por sugerir, suavemente, que o tema "elevação" seja deixado de lado, pois está mal formulado: "Quem é mais elevado? O dono –erudito, perspicaz, engenhoso, construtor de máquinas esplêndidas, legislador, financista bem-sucedido, filósofo perspicaz– com um chicote na mão? Ou o pobre escravo cristão –o peito arfando, os olhos cheios de lágrimas, a carne arrancada– tremendo sob o chicote enquanto reza a Deus para que suavize o coração de seu experiente torturador?".

No lugar, ele propõe que a pergunta deve ser: "Podem negros e brancos viver juntos em harmonia, todos contribuindo para a paz e a prosperidade do país?". E passa a desmistificar, metodicamente, as supostas diferenças entre as raças que acarretariam a sua incompatibilidade. O seu texto é conciso, preciso, implacável sem perder a suavidade jamais. Foi uma leitura surpreendentemente prazerosa, recomendo.

Frederick Douglass (1818-1895), o líder carismático do abolicionismo norte-americano, citava o amigo James McCune Smith como "a influência mais importante na minha vida". Mas enquanto Douglass entrava para a história, com toda a razão, o líder intelectual do movimento caía no esquecimento. Qual será a moral disso?


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