segunda-feira, 9 de março de 2026

Brasil testará sua dependência de fantasmas da China, Marcos de Vasconcelos, FSP (atualíssimo)

Sob o olhar ocidental tradicional, as chamadas cidades fantasma na China, construídas sem habitantes, e suas estradas ligando "nada a lugar nenhum" parecem desperdício, ou, no mínimo, uma maneira artificial de aquecer a economia. Essa visão, no entanto, não impediu que o Brasil se tornasse grande fornecedor de minério de ferro e petróleo para essas construções avançarem.

Em 2025, exportamos cerca de US$ 99 bilhões para a China, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Minério e petróleo equivalem a 40% de tudo o que mandamos para lá.

Navio cargueiro vermelho atracado em porto industrial, com guindastes azuis ao lado carregando ou descarregando. Três rebocadores brancos e vermelhos estão próximos ao navio na água.
Navio carregando minério de ferro do Brasil desembarca no porto de Meizhou Bay, na China - Lin Shanchuan/Xinhua

O governo chinês acaba de apresentar seu novo plano econômico, fixando uma meta de crescimento em torno de 5% ao ano, menor do que a média das décadas anteriores, e defendendo uma mudança de modelo: menos investimento imobiliário e em infraestrutura, focando seus esforços no consumo doméstico, serviços e tecnologia. Em outras palavras, estamos vendo o fim da era das grandes construções chinesas.

A verdade é que as cidades e estradas, antes chamadas de fantasmas, não estão mais tão vazias, nem parecem tão artificiais. A urbanização chinesa saltou de cerca de 36% da população em 2000 para mais de 66% hoje.

Além disso, a população envelheceu rapidamente. Cerca de 23% dos chineses têm mais de 60 anos, enquanto a parcela em idade de trabalhar encolheu para aproximadamente 60% da população. O número de nascimentos caiu para menos de 8 milhões por ano, praticamente metade do registrado menos de uma década atrás.

Uma sociedade urbana e envelhecida precisa de menos cidades novas e consome mais serviços. O governo chinês já enxergou isso e começa o trabalho de longo prazo para mudar o rumo do navio da economia na direção correta.

Vale lembrar que o país também já colocou em prática seu plano de atingir a neutralidade de carbono até 2060, garantindo que o pico de emissões de CO2 seja atingido até 2030. Juntando tudo, nossas exportações de petróleo e de minério de ferro para lá parecem estar vivendo seu último grande suspiro.

Como a China é nosso maior parceiro na balança comercial, o Brasil vai precisar mudar os produtos na prateleira antes de ver o cliente abandonar a loja. Mas é difícil pensar em algo que possa tomar o espaço dedicado a minério e petróleo nos próximos anos.

Ainda pelos dados de 2025, 34,5% das exportações brasileiras para a China foram de soja. Em sua esmagadora maioria, ela é usada para alimentação de frangos e porcos por lá. A carne bovina correspondeu a 8,8% das vendas. Ainda que o agro tenha conseguido aumentar bastante sua fatia nessa balança, não parece um caminho simples dobrar o volume de soja e boi embarcados para o outro lado do mundo.

Durante muito tempo, a relação entre os dois países parecia perfeita. A China precisava construir o futuro e o Brasil fornecia o material para isso. Agora, vamos testar o quanto nossa economia depende da criação das cidades e estradas fantasma da China e do seu consumo de petróleo e derivados. Não preciso nem falar como isso afeta a visão sobre Vale e Petrobras.

A reforma tributária pela qual passamos neste momento prometeu incentivar a indústria, para mudar a nossa sina de só exportar matéria-prima. Nosso maior comprador parece concordar com uma mudança no cardápio.

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