Fiquei muito feliz quando recebi o convite para participar de duas mesas no Festival Fronteiras no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Na primeira, o debate será sobre "O sonho da finitude: como lidar com a passagem do tempo". A segunda será um bate-papo sobre "A liberdade de ser quem se é", com a querida Camila Appel que acabou de publicar o impactante livro "Enquanto Você Está Aqui".
Estou me preparando para apresentar no Festival Fronteiras os resultados das pesquisas sobre envelhecimento, autonomia e felicidade que venho realizando há mais de três décadas. A partir das respostas dos meus pesquisados, pretendo debater as diferenças de gênero no olhar e na experiência de envelhecer em uma cultura velhofóbica em que o corpo jovem é um verdadeiro capital.
Por exemplo, quando perguntei às mulheres o que elas mais invejam em outras mulheres, as principais respostas foram: "corpo, beleza, magreza, juventude e sensualidade". Quando perguntei o que mais invejam nos homens, elas responderam categoricamente: "liberdade" e, logo em seguida, "fazer xixi em pé". Elas também invejam a liberdade sexual, a liberdade com o corpo, a liberdade de rir e de brincar, a liberdade de envelhecer em paz entre muitas outras liberdades masculinas.
Quando perguntei aos homens o que mais invejam nas mulheres, eles responderam simplesmente: "nada". Pouquíssimos disseram: "maternidade", "sensibilidade" e "orgasmos múltiplos".
Quando perguntei: "Quem vai cuidar de você na velhice?", as mulheres responderam, em primeiro lugar: "eu mesma" e, em seguida, "minhas amigas". O que mais me chamou a atenção é que as mulheres, inclusive as que são casadas e têm filhas, responderam "eu mesma" e "minhas amigas". Já os homens responderam: "minha esposa" e "minha filha". Alguns disseram: "minha neta".
Na pergunta: "Quem envelhece melhor: o homem ou a mulher?", a maioria respondeu: "o homem". Em todas as faixas etárias, homens e mulheres concordaram que eles envelhecem melhor do que elas. Somente um grupo discordou: as mulheres de mais de 60 anos. Elas disseram que, apesar do olhar social sobre a velhice masculina ser mais generoso do que é com a feminina, as mulheres envelhecem melhor porque cuidam mais da saúde e da aparência, vão mais a médicos e a dentistas, têm mais amigas e, na maturidade, passam a ter a coragem de "dizer não" e de "ligar o botão do foda-se".
Na minha pesquisa, uma mulher apareceu como a melhor representante da "bela velhice": Fernanda Montenegro. Por quê? De acordo com as respostas dos meus pesquisados, porque Fernanda Montenegro, aos 96 anos, continua produtiva, ativa, autônoma, autêntica, inteligente, lúcida, discreta, elegante, talentosa e, também, porque "ela não se aposentou da vida", "aceita o envelhecimento", "não tenta parecer mais jovem", "não se deformou com plásticas", "tem dignidade e coragem de ser ela mesma".
O que encontrei foi comprovado pelos resultados de uma pesquisa realizada, desde 2019, pelo Instituto QualiBest. Fernanda Montenegro está, em todos os anos, no topo da lista da personalidade mais admirada do Brasil.
Por que será que, apesar de apontarem Fernanda Montenegro como exemplo de "bela velhice" e como a personalidade mais admirada do Brasil, as mulheres continuam invejando a liberdade masculina e a juventude feminina? E por que será que os homens continuam dizendo que não enxergam nada de invejável nas mulheres?

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