sexta-feira, 6 de março de 2026

Gustavo Alonso Mamonas Assassinas 30 anos depois, FSP

 Esta semana completaram-se trinta anos do fim da espetacular trajetória dos integrantes do Mamonas Assassinas, grupo que em menos de seis meses viveu o sucesso estrondoso e a morte terrível. Para contar a história do grupo de Dinho, Júlio, Bento, Sérgio e Samuel, o Globoplay lançou o documentário "Mamonas: eu te ai lóve iú".

A banda de Guarulhos é um dos ícones mais documentados da música brasileira. Sobre eles há documentários no estilo "uma câmera na mão, uma ideia na cabeça", como o bom "MTV na Estrada: Mamonas Assassinas", de 1996, que percorre uma turnê com os jovens. Há documentários que contam a trajetória da banda como o "Por toda a minha vida: Mamonas Assassinas", produzido pela TV Globo em 2008. Na Netflix é possível assistir a "Mamonas pra sempre", do diretor Cláudio Kahns, lançado em 2009. A última produção audiovisual sobre a banda de Guarulhos havia sido o fraco "Mamonas Assassinas: o filme", de 2023, drama que falha em captar a alma dos irreverentes jovens.

A banda Mamonas Assassinas
A banda Mamonas Assassinas - Mujica - 28.ago.95/Folhapress

Num cenário já tão povoado de produções audiovisuais, era de se esperar que "Mamonas: eu te ai lóve iú" trouxesse algo de novo. Mas o documentário dirigido pelo competente Fellipe Awi e roteirizado pelo tarimbado Renato Terra e Gabriel Tibaldo não traz nada de novo. Repetem-se os mesmos marcos da trajetória da banda, reciclando narrativas que já haviam sido contadas anteriormente.

A vida familiar, as namoradas, o sucesso repentino, a relação com o produtor Rick Bonadio, o show de retorno em Guarulhos após o sucesso (no qual Dinho tem um surto de revanchismo): tudo isso já tinha sido contado em produções anteriores. E a narrativa linear do recente documentário repete a mesma fórmula preguiçosa. Até funciona para apresentar a banda às novas gerações, mas a arte de fazer cinema merecia mais, sobretudo tendo em mãos uma banda tão icônica e, a meu ver, subestimada como os Mamonas.

A postura escrachada do grupo não agradava a todos, é bom lembrar. Em 25 de outubro de 1995 a então colunista da Folha, Barbara Gancia, escreveu uma coluna com o título "Mamonas Assassinas: pior do que nicotina" na qual destilou críticas: "Trata-se de uma porcaria de uma banda de deixar até o João Gordo com cara de coroinha. [...] Não é excesso de pudor o que me deixa irada com esse grupelho [...]. O que me deixa tiririca é a pobreza de espírito de uma juventude racista e de uma vulgaridade ímpar. Quando os fãs dos Mamonas Assassinas assumirem o poder, quero estar morando na Patagônia".

O documentário do Globo Play não consegue mostrar o equívoco de Barbara Gancia de três décadas atrás, pois não explica o valor estético da banda para além da comédia. Num breve momento até se levanta tal questão, quando Rick Bonadio diz ao final do documentário: "Eu até hoje vejo a história dos Mamonas sendo contada de várias formas. Fala-se das namoradas, das relações pessoais, das fofocas, mas se esquecem do principal, que é o que fez eles fazerem sucesso: a qualidade das músicas, a qualidade musical daquele álbum". Mas os documentaristas infelizmente não exploram esta questão.

O melhor produto sobre a banda de Guarulhos ainda é o livro "Mamonas assassinas: blá, blá, blá", escrito pelo hoje conhecido Eduardo Bueno, o Peninha. É seu primeiro livro, muito antes de se destacar como divulgador de temas históricos. Contratado por Rick Bonadio para fazer uma biografia autorizada, Peninha escreveu, sem nenhuma afetação, um tratado dos anos 1990. A história do Brasil é contada através da trajetória dos meninos periféricos, suburbanos, fora do radar dos conchavos artísticos e longe, muito longe, de serem nepo babies da MPB ou do Rock Brasil que tanto admiravam.

A parte mais marcante do livro de Peninha é aquela em que ele defende que os Mamonas foram "antropofágicos, macunaímicos". De fato, ao se reescutar o disco da banda, o que se ouve é uma mistura improvável de tudo que havia no cenário nacional dos anos 90.

Cada música do disco emulava um gênero: havia brega, forró, samba, metal, música portuguesa, rock e sertanejo. Há ironias nas citações a Gun's & Roses, Iron Maiden, Rush e até Kraftwerk misturado com referências a Casas Bahia, Genival Lacerda e Brasílias amarelas.

No liquidificador moderno da globalização dos anos 90, eles misturavam a bagagem roqueira com o sertanejo, o gospel, pagode e toda a tradição popularzona brasileira. Faziam chacota de Belchior, Chitãozinho & Xororó, Netinho de Paula e ainda ironizavam a obsessão da juventude com o "Chopis Centis". Muito antes dos rolezinhos em shopping centers que causaram polêmica em 2013, Dinho e sua trupe já cantavam os distúrbios que as classes populares causavam no imaginário elitista do consumo nacional.

Como lembra Peninha, os Mamonas rimaram andaime com Van Damme e promoveram o insuspeito encontro entre o Sepultura e Waldick Soriano, a síntese de Red Hot Chilli Peppers com a trilha sonora da rodoviária de Palmas (TO).

Os Mamonas foram grandes porque misturaram sucesso massivo com a antropofagia. Ser antropofágico era concretizar a improvável mistura de vertentes estrangeiras e nacionais formatando um novo sentido cultural para a nacionalidade, bandeira do tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mas para ganhar o aval de "antropofágico" na cultura brasileira era preciso ser abençoado pelos pais tropicalistas. Não era o caso dos suburbanos de Guarulhos.

Os Mamonas foram contemporâneos de Chico Science e do manguebeat, mas nunca foram louvados pela crítica como os pernambucanos. Ao misturar maracatu com a guitarra do rock, o manguebeat foi logo visto como um dos ciclos da mistura pós-moderna tropicalista e abraçado por Gilberto Gil, que se tornou padrinho. Os Mamonas fizeram o caminho da antropofagia por baixo, sem nunca terem sido completamente compreendidos pela crítica.

Em parte porque a música dos Mamonas não era para ser levada a sério. Eles faziam piada com toda e qualquer afetação. Mesmo assim, talvez tenham sido eles, mais do que qualquer outra banda, quem mais tenha levado adiante uma das facetas da antropofagia tropicalista. Trata-se da faceta da galhofa e da ironia, aliada à incorporação da cultura pop ao extremo. De certa forma eles fizeram uma interpretação da antropofagia tropicalista pela lente do povão, dos periféricos, dos suburbanos.

É como se músicas como "Superbacana", uma canção pop subestimada de 1968 de Caetano Veloso, ou as apresentações escrachadas dos Mutantes da época de Rita Lee, encontrasse o plano Real dos anos 90, com seu choque de consumismo popular. Tudo isso mergulhado sem moralismo no divertimento frívolo da banheira do Gugu. É um tropicalismo pós-moderno popularzão, cheio de colagens, e citações, despreocupado de teorias explicativas. E sobretudo sem a aura da responsabilidade que os descendentes intelectualizados da tropicália jamais conseguiram superar.

A história dos Mamonas Assassinas abre uma lente de possibilidades para se entender melhor os anos 90 e a então nova realidade brasileira pós plano Real. Ainda falta quem se aventure a fazer um retrato audiovisual que faça jus a sua obra: ambiciosa mas sem afetação, hilária e divertida sem perder o fio crítico do seu tempo.

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