quinta-feira, 12 de março de 2026

GPA, Raízen e Intercement: Por que tantas empresas têm entrado com pedidos de recuperação?, OESP

 Juros elevados por um período prolongado, somados a problemas de gestão em alguns casos e de governança em outros, estão por trás das crises que atingem grandes empresas brasileiras com dívidas bilionárias. Além da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar – que pediram recuperação extrajudicial na terça-feira, 10 –, companhias como Ambipar, CSN, Intercement e Braskem também estão enfrentando uma fase turbulenta, o que tem exigido medidas adicionais para contornar a situação, como venda de ativos, negociação com novos sócios e reestruturação de débitos.

“Do segundo semestre do ano passado para cá, não tem sido fácil para as empresas, por uma combinação de fatores. Mas o juro é o principal deles. Só que juro não machuca quem não está endividado”, diz Renato Donatti, diretor de rating de empresas da agência de classificação de risco Fitch.

Para você

Na visão de Donatti, a taxa de juro é o denominador comum desses casos. Desde junho do ano passado, a taxa básica de juros (a Selic) está em 15% – no maior patamar em quase duas décadas. Para trazer a inflação para a meta de 3%, o Comitê de Política Monetária (Copom) endureceu a condução da política monetária, o que impactou diretamente o custo de financiamento das companhias. Isso afetou, principalmente, empresas que fizeram grandes investimentos quando o juro estava baixo com premissas que não incluíam uma Selic de 15%.

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Donatti destaca que a trajetória da Selic não só a partir de junho, mas desde 2022 tem afetado as empresas. Nos últimos quatro anos, a média da Selic ficou em 13%, e as projeções indicam que ela não cairá para menos de 10% até o fim de 2027. “É muito difícil para uma empresa aguentar a pressão de uma taxa de juro dessa por seis ou sete anos.”

Segundo cálculos da Fitch, empresas brasileiras que hoje têm uma dívida equivalente a três vezes sua geração de caixa operacional anual gastam 50% de sua geração de caixa pagando juros de dívida. Com os 50% restantes, ainda é preciso arcar com custos como impostos e capital de giro.

A diretora da agência de classificação de risco Moodys Patricia Maniero também destaca o juro como principal explicação para as crises. Ela pondera, entretanto, que há um grupo de companhias mais cautelosas – como as do setor de locação de veículos – que estão avançando apesar do juro elevado. “Tem empresas que reavaliaram sua estratégia financeira, ajustaram custos, repensaram a alocação de capital, e estão conseguindo navegar.”

Para o sócio-gestor do escritório de advocacia Pinheiro Neto, Fernando Alves Meira, crises no setor corporativo brasileiro não são uma novidade, mas, desta vez, o volume das dívidas chamam atenção. “Quando você vê o tamanho dessas empresas, é muito impactante”, diz. “O que frustra é que empresas não aprendem que têm de ser prudentes. Grupos que deveriam ser os mais fortes, com mais condições de se defender em um cenário adverso, estão com muita dificuldade.”

O tamanho do problema

Um levantamento realizado pela NEOT - uma plataforma que consolida os casos de recuperação judicial e insolvência - ajuda a dimensionar o tamanho da dificuldade das companhias brasileiras. No ano passado, foram 1.987 pedidos de recuperação judicial e 112 de recuperação extrajudicial.

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Em 2024, foram 2.146 pedidos de recuperação judicial e 95 de extrajudicial.

“O aumento da taxa de juros dificulta o acesso ao crédito no mercado bancário habitual”, afirma Júlio Moretti, CEO da NEOT. “E, para as grandes empresas, esse não é o maior dos problemas, mas torna muito mais cara a captação própria por meio de debêntures.”

Segundo Max Mustrangi, CEO da Excellance e especialista em recuperação judicial, a situação financeira das empresas foi corroída por dentro, após anos de juros elevados, crédito seletivo e margens comprimidas, em meio a um ambiente econômico “aparentemente estável”. “Se em 2016 a crise chegou de fora para dentro, agora ela vem de dentro para fora.”

Em 2016, destaca Mustrangi, a crise das companhias resultou de uma recessão profunda que paralisou a economia e desmontou cadeias inteiras de investimento.

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O alívio virá?

A grande dúvida é se o alívio dos juros vai mesmo acontecer.

No encontro de janeiro, o Copom manteve a Selic em 15%, mas indicou que o ciclo de corte poderia começar no encontro de março, que ocorre na semana que vem.

A ampla expectativa era de um corte de 0,50 ponto porcentual, mas a guerra no Irã e a consequente alta do preço do petróleo trouxeram dúvidas em relação aos próximos passos do Banco Central.

“A gente acha que começa (o corte de juros) em março, e o Banco Central tem espaço para conduzir um ciclo de queda”, afirma Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office. “Na nossa cabeça, o ciclo de corte é algo entre 2,5 pontos porcentuais e 3 pontos porcentuais, obviamente, se o cenário continuar conforme esperado, com inflação convergindo para a meta e o mercado de trabalho desacelerando um pouco.”

No último relatório Focus, do Banco Central, os analistas consultados estimam que a taxa de juros deve encerrar o ano ao redor de 12%. Para 2027, a expectativa é a de que os juros recuem para 10,50%. / Colaborou Márcia De Chiara

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