Dezenas, centenas, milhares de notícias sobre o Irã e pouco se sabe sobre os iranianos. Entre vivas e vaias, o debate público tende a ficar prisioneiro da geopolítica da guerra, das sanções econômicas e da natureza repressiva do regime islâmico. Sobre os iranianos, resta-nos imaginá-los por dentro, as mulheres sob o véu negro do chador e os homens como personagens de Asghar Farhadi, cativos da honra patriarcal, da estratificação social e das lealdades familiares.
É uma leitura sociologicamente incompleta. O Irã é uma sociedade cujos níveis de desenvolvimento humano e de educação contradizem a imagem de medievalismo que tantas vezes lhe é atribuída. Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2025 do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o Irã integra a categoria "desenvolvimento humano elevado", com pontuação acima do Brasil, ou seja, é um país com bases sociais e educacionais relativamente sólidas. Em dezenas de outros indicadores socioeconômicos, como expectativa de vida à nascença ou anos médios de escolaridade da população adulta, o Irã está na dianteira do Brasil.
Ao contrário da imagem internacional, o regime iraniano não governa uma massa compacta de fanáticos religiosos ou uma sociedade etnicamente fragmentada ou mirrada; governa uma sociedade antiga relativamente instruída e urbanizada, com expectativas sociais suficientemente elevadas para produzir uma cidadania politicamente exigente, mesmo quando sua ordem política permanece inquisitorial. A história milenar da civilização persa pode ser testemunhada com uma visita a Persépolis ou à praça Naqsh-e Jahan, em Isfahan.
Essa dualidade entre modernização social e clausura política, entre a liberdade doméstica e a vigilância no espaço público, entre o tradicionalismo secular ("sonnati") da maioria e o islamismo ideológico de uma minoria, e entre um dinamismo econômico que coabita com um regime autoritário, é uma das chaves para compreender o país. Como um pêndulo, é o país de Maryam Mirzakhani, formada pela Universidade Tecnológica de Sharif, em Teerã, e primeira mulher a receber a Medalha Fields, muitas vezes descrita como o Nobel da Matemática, mas também o de Shirin Ebadi e Narges Mohammadi, duas laureadas com o Nobel da Paz perseguidas ou torturadas pelo regime dos aiatolás.
Em 1979, esta população instruída derrubou a monarquia repressiva do xá Mohammad Reza Pahlavi. Foi uma mobilização muito ampla, que juntou setores islâmicos, mas também liberais, nacionalistas, estudantes, sindicalistas, comerciantes dos bazares e parte da esquerda, todos unidos contra um regime visto como autoritário, corrupto e excessivamente dependente do Ocidente, em especial dos EUA. Em sua gênese, nunca foi uma revolução apenas religiosa.
Voltemos a 2026. O ataque dos EUA e de Israel ao Irã parece carecer, até agora, de uma estratégia política clara, de uma justificativa sólida à luz do direito internacional e de um objetivo final bem definido. Como escrevi aqui, na Folha, o colapso da ordem internacional do pós-Guerra ainda não deu origem a uma alternativa que a substitua, abrindo assim espaço a um uso cada vez mais anárquico, difuso e desregulado da violência. Se a invasão norte-americana do Iraque, em 2003, desencadeou um clamor público global contra a sua precariedade legal, o ataque da mesma potência ao Irã, em 2026, também amplamente denunciado como ilegal, suscitou, no máximo, um resignado encolher de ombros.
Atualmente, no Irã, dois sentimentos coexistem sem contradição. A crítica ao regime não se converte, de forma automática, em apoio à ofensiva estrangeira. Pelo contrário. Em janeiro deste ano havia, pela primeira vez em muito tempo, a sensação de que poderia estar começando um verdadeiro processo de transformação democrática no interior da própria sociedade.
O ataque israelo-americano interrompeu esse movimento. Há um mês, havia gente na rua quase todos os dias, gritando palavras de ordem contra o governo, enquanto hoje, essas mesmas pessoas desapareceram do espaço público e voltaram para casa. Quando um país está sob ataque de potências estrangeiras e as pessoas sentem que suas vidas estão em perigo, o instinto de sobrevivência sobrepõe-se ao desejo de liberdade, principalmente em sociedades com um forte sentido de patriotismo, como a iraniana.
Quando forças estrangeiras destroem indiscriminadamente a infraestrutura civil de um país agravando a vida de mais de 90 milhões de pessoas que já vivem há décadas sob sanções, pobreza e enormes dificuldades econômicas, a reação natural dessa população dificilmente será apoiar os agressores. Escolas, hospitais, aeroportos, residências e monumentos históricos estão sendo destruídos no Irã. Na última semana, a inflação atingiu níveis catastróficos, paralisando a vida econômica.
Deixar um país em ruínas não é um incentivo para que ele se torne democrático. A ofensiva americana não transpira racionalidade, pelo contrário. Pode ser um mero reflexo da personalidade psicologicamente adoecida do presidente dos EUA, marcada por trauma infantil, ressentimento e narcisismo. É como se a destruição do outro e sua humilhação servissem de prótese moral a um ego ferido. Seu vazio interior se enche de pólvora.
A ofensiva militar nem sequer está ancorada no apoio aos setores iranianos mais hostis ao islamismo político ou está casada com uma estratégia crível de estabilização e transição para o pós-guerra. Por isso, é provável que a guerra provoque lutas civis de sobrevivência, o reforço do próprio regime islâmico, ou pelo menos o fortalecimento da Guarda Revolucionária iraniana.
Não há, neste momento, no Irã, nenhum movimento popular de larga escala de apoio a uma alternativa de poder. O país não tem um Władysław Sikorski, que liderou o governo polonês no exílio durante a Segunda Guerra Mundial. Não tem uma Aliança do Norte, que no Afeganistão encarnou a alternativa ao Talibã após a invasão americana de 2001. Não tem um Charles de Gaulle, o rosto da França Livre. O filho do antigo Xá, vivendo nos EUA desde os 17 anos (tem 65), dificilmente vai conseguir ser carregado nos ombros pela população.
Ou seja, para os iranianos, o pós-guerra pode ser tão castrador quanto o pré-guerra. Encurralados entre a repressão política e uma guerra, voltam a ser anulados como sujeitos históricos e políticos. Alguém lhes perguntou o que querem? No dia 20, começam as celebrações do Nowruz, o ano novo iraniano, celebrado há 3.000 anos. Em persa, "Nowruz" significa "novo dia", simbolizando o recomeço. Talvez seja esse o desejo da maioria.

Nenhum comentário:
Postar um comentário