A poucos dias do Oscar, torço por Wagner Moura e pelo filme "O Agente Secreto". Merecem. Mas, se o carequinha dourado resolver viajar para outros colos, que vá para Ethan Hawke por "Blue Moon", o longa de Richard Linklater.
O roteiro é tudo, dizia Hitchcock, com alguma razão. Mas um roteiro com um ator perfeito é um milagre da arte: os dois levitam, como diria Lorenz Hart, o letrista da Broadway que Ethan Hawke interpreta.
Estamos em 1943, no Sardi’s de Nova York, onde já tive uma intoxicação alimentar severa. Não recomendo. Mas divago.
Estamos em 1943, repito, e é uma noite difícil para Hart. Durante 24 anos, ele foi o melhor parceiro do compositor Richard Rodgers. Juntos, deram ao mundo "My Funny Valentine", "The Lady Is a Tramp" —e, precisamente, "Blue Moon".
Mas Rodgers, cansado do alcoolismo de Hart, entregou a Oscar Hammerstein 2º as letras do novo musical "Oklahoma!". Um sucesso de público e de crítica na noite de estreia.
Ferido no orgulho, Lorenz Hart encontra mil defeitos na peça. Até o ponto de exclamação do título lhe provoca urticária. Sua única esperança é reencontrar naquela noite Elizabeth, uma beldade de 20 anos por quem Hart tem uma "paixão irracional".
Lorenz Hart, aos 47 anos e com mais uns meses de vida, é um náufrago em busca de salvação. Quando Rodgers e seu novo cúmplice entram no Sardi’s para comemorar o sucesso de "Oklahoma!", Hart não economiza nos elogios, nem nas hipérboles.
Não é apenas cinismo. É desespero para que ainda reparem nele. O fato de Hart ser fisicamente diminuto e deformado —"Is your figure less than Greek?", como ele próprio escreveu—, sobretudo quando comparado com o gigante Hammerstein, só amplifica a pequenez artística e existencial em que ele se vê mergulhado.
Elizabeth seria o prêmio de consolação. Mas as ilusões do escritor sobre o novo musical não o cegam apenas para as virtudes de "Oklahoma!" e para o gênio solar de alguém como Hammerstein.
Impedem-no, também, de perceber que o amor de Elizabeth por ele é "de outro tipo": um amor filial, talvez, mas oportunista, seguramente.
Hart é um bom "ouvinte", afirma ela. E o que ele ouve? As aventuras sexuais de Elizabeth, contadas pela própria, nas quais o escritor se compraz com um masoquismo autodestrutivo.
Não é por acaso que, naquela noite, Hart pretende oferecer-lhe uma cópia de "Servidão Humana", de Somerset Maugham. Talvez porque se projete em Philip, o personagem deformado do romance, que vive a sua servidão emocional por Mildred.
A grande diferença é que Philip se liberta das ilusões e dependências da juventude. Lorenz Hart não é jovem e, aos 47 anos, já é tarde para mudar. Além disso, como ele próprio lembrou numa das canções mais notáveis, "falling in love with love is falling for make-believe".
O roteiro de Robert Kaplow, também indicado ao Oscar, é uma proeza literária por si só: os diálogos, de evidente respiração teatral, transportam a inteligência, a melancolia e a ironia adulta das letras de Hart. Honestamente, nem sabia que ainda se escrevia assim desde que Noël Coward pendurou as chuteiras.
Minto. Stephen Sondheim, que tem uma aparição no filme com 10 anos, é o herdeiro de Lorenz Hart —ele que, ironicamente, foi um discípulo de Hammerstein.
Mas é Ethan Hawke, oscilando entre a vaidade e a autocomiseração, a arrogância e a submissão, a fantasia e a amargura —às vezes na mesma frase e no mesmo gesto— quem nos oferece um dos melhores retratos do artista quando (precocemente) velho.
Foi o poeta Dylan Thomas quem pediu que nos revoltássemos contra a morte da luz —"Rage, rage against the dying of the light". Hart passa aquela noite inteira nessa revolta. Mas o mesmo poema lembra que, no fim, os homens sábios sabem que a noite tem razão —"Though wise men at their end know dark is right".
A noite derrota o homem. Mas, em algum lugar, agora mesmo, alguém canta "Blue Moon" sem saber nada disso.
P.S. —Onde encontrar os melhores intérpretes de Rodgers e Hart? O gosto é muito pessoal, mas não me canso de escutar Anita O’Day (o melhor "The Lady Is a Tramp"), Mel Tormé (em "Blue Moon"), Susannah McCorkle (sobretudo "It Never Entered My Mind"). "My Funny Valentine" tem concorrência feroz com um clássico (Ella Fitzgerald), uma versão moderna (Rickie Lee Jones) e uma versão inesperada (Michelle Pfeiffer no filme "Os Fabulosos Irmãos Baker"; quem viu e ouviu não esquece).


Nenhum comentário:
Postar um comentário