segunda-feira, 16 de março de 2026

Lula cai na real: química de Trump é explosiva - Alvaro Costa e Silva- FSP

 

A química entre Lula e Trump azedou. Se é que ela chegou a existir em algum momento ou tudo não passou de jogo de cena. As demandas de combate às organizações criminosas —reveladas em reportagem de Patrícia Campos Mello— sugerem uma republiqueta de joelhos diante de um império.

Trump exige que o Brasil receba em prisões os brasileiros capturados nos Estados Unidos, sabe-se lá sob quais acusações. Como faz El Salvador. O país da América Central é governado por Nayib Bukele, o queridinho da extrema direita global, que aparelhou as instituições e negociou uma trégua —ora vejam só— com gangues de traficantes.

Dois homens sentados em poltronas azuis discutem em ambiente com cortina azul ao fundo. Homem à esquerda veste terno escuro, gravata vermelha e faz gesto com a mão direita. Homem à direita usa terno escuro, gravata vinho e segura pasta vermelha. Bandeira do Brasil está visível ao fundo à direita. Mesa pequena com toalha vermelha e vaso de flores entre eles.
Trump e Lula em encontro na Malásia, em outubro de 2025 - REUTERS

Em flagrante violação às leis internacionais, os EUA querem que o governo brasileiro compartilhe com autoridades americanas informações, incluindo dados biométricos, de estrangeiros buscando refúgio e refugiados no país. Por trás das exigências está a Estratégia de Segurança Nacional, que prevê a hegemonia de Washington sobre a América Latina. Na lei ou na marra, com uso de força militar.

Além de El Salvador, a ingerência trumpista alcança Argentina, Chile, Equador, Paraguai, Honduras, Costa Rica, Panamá, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, República Dominicana —o chamado Escudo das Américas, nome que parece ter sido tirado de histórias em quadrinhos. Em certa medida, até a Venezuela aderiu à panelinha. Após a abdução de Nicolás Maduro, o regime continua chavista, mas concorda em liberar o petróleo para companhias americanas.

Lula reforçou o discurso sobre soberania nacional ao barrar a entrada no país de Darren Beattie, conselheiro de Trump ligado aos movimentos de supremacia branca. Beattie iria visitar Bolsonaro na prisão —certamente não era para jogar buraco— e reunir-se com o ministro Nunes Marques, do STF, para discutir o processo eleitoral.

Há um encontro marcado entre Lula e Trump, provavelmente em abril, nos EUA. No Planalto, aumenta o temor de que o brasileiro caia numa armadilha de reality show, sendo emparedado ou humilhado em frente às câmeras.


Uma a cada 3 garrafas de vidro é feita com material reciclado no Brasil, diz entidade , Fernanda Mena , FSP

 

São Paulo

Uma a cada três garrafas de vidro produzidas no Brasil é hoje feita com material reciclado. De acordo com o relatório de logística reversa do setor vidreiro, a proporção de vidro reciclado em novas garrafas atingiu 36,86%, o que supera a meta de 27% estabelecida para 2024 pelo decreto 11.300, de 2022.

O decreto do vidro foi pioneiro na regulação da logística reversa de materiais recicláveis no país, antecedendo em quase três anos o decreto do plástico, lançado pelo governo federal no último mês. O tema da coleta e reciclagem de garrafas de vidro ganhou relevo também no contexto da crise do metanol, em que garrafas descartadas de forma inadequada podem ter sido usadas para a falsificação de bebidas.

Desde que o decreto do vidro entrou em vigor, em 2022, o setor criou uma entidade gestora para a logística reversa, a Circula Vidro, que reúne Abividro (Associação Brasileira de Indústria do Vidro), Abrabe (Associação Brasileira de Bebidas) e Sindicerv (Sindicato Nacional da Indústria de Cerveja), representando 100% das fábricas de vidro e cerca de 80% dos envasadores do país.

Em 2024, quase 600 mil toneladas de vidro foram recicladas e transformadas em matéria-prima para a fabricação de novos vidros, o que significa um aumento de 14,2% em relação ao ano anterior. Entram nessa conta os cacos de garrafas, potes e outros vasilhames recuperados (394.575 toneladas), além do vidro plano, como janelas e parabrisas (202.348 toneladas).

Quatro trabalhadores com uniformes cinza e capacetes verdes separam garrafas de vidro em esteira de triagem em ambiente industrial. Garrafas transparentes e verdes, além de cacos de vidro, estão espalhados na esteira.
Trabalhadores da Massfix durante processo de separação de material. A empresa faz triagem do vidro e converte em caco - Danilo Verpa/Folhapress

Já das 1.195.928 toneladas de embalagens de vidro não retornáveis ou de uso único, quase 33% foram recicladas, o que também superou a meta de 30% estabelecida pelo decreto para o ano de 2024.

A entidade afirma que o setor do vidro é o primeiro no país a alcançar 100% de verificação auditada do volume reciclado já que toda a indústria do vidro participa e reporta, de forma consolidada e anonimizada, as informações sobre o material retornado aos fornos.

Para Alexandre Macário, CEO da Circula Vidro, o decreto ajudou o setor a estruturar seu sistema de logística reversa, mas a falta de coleta seletiva e de leis de grandes geradores ainda são gargalos importantes para que a coleta do vidro para reciclagem aumente no país.

"É preciso que o caco de vidro chegue nas condições técnicas para reciclagem. E, para isso, precisamos que leis de grande geradores sejam criadas e fiscalizadas, que cooperativas sejam pagas por prestação de serviços ambientais e de triagem e que ações de combate à falsificação sejam cada vez mais focalizadas, porque cada garrafa que vai para o mercado ilegal deixa de voltar para a reciclagem", explica Macário.

"E a gente precisa que tudo isso aconteça ao mesmo tempo", resume ele, antes de afirmar que metade de todo o vidro gerado no Brasil é consumido por grandes geradores, como bares e restaurantes, e a outra metade está na casa dos consumidores, que também precisam se envolver no processo de coleta seletiva ou de pontos de entrega voluntária (PEV) de vidro.

"A logística reversa dos vidros tinha um sistema fragmentado, desarticulado e com baixa rastreabilidade. Em 2024, o setor lançou uma entidade gestora com todos os atores do setor, o que permitiu uma maior integração dos dados para entender os desafios da ampliação da recuperação e reciclagem no país", afirma o secretário de Meio Ambiente Urbano e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Adalberto Maluf.

Segundo ele, a importação de cacos de vidro, que inibia a compra de cacos do Brasil para reciclagem, teve a proibição decretada pelo governo no início do ano, o que dinamizou o setor.

"O MMA e outros ministérios estão trabalhando para atualizar esse decreto [do vidro], trazendo demanda maior de rastreabilidade das embalagens pelos fabricantes, a priorização de associações e organizações de catadores e o foco na recuperação e reciclagem de embalagens pós-consumo", afirma Maluf.

A Circula Vidro cita dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para sustentar que a quantidade de cacos importados em 2024 (12,7 mil toneladas) é pequena frente às centenas de milhares de toneladas recicladas naquele ano.

Mesmo assim, entre as mudanças promovidas pela integração dos atores do setor em torno da Circula Vidro está o investimento em tecnologias de triagem e separação dos diferentes tipos de vidro.

"O vidro tem características técnicas que, para ilustrar, comparo com o sangue: vidro branco só recicla com vidro branco, já o verde pode ser com verde e com branco, por exemplo", explica Alexandre Macário, CEO da Circula Vidro. "Até o início deste ano, não existia no Brasil tecnologia de separação óptica, que são equipamentos capazes de pegar um monte de vidro quebrado e assoprar o que é branco para um lado, o que é marrom para outro, e o que é verde para outro. Hoje isso já existe no Brasil, ajudou bastante ao setor e é parte importante da valorização do material."

A Circula Vidro estima que, em 2024, a reciclagem de vidro movimentou R$ 350 milhões entre coleta, transporte, compra de cacos, investimentos em programas de logística reversa e geração de emprego e renda.

Joel Pinheiro da Fonseca- Pode uma mulher trans representar todas as mulheres? -FSP

 Pode uma mulher trans representar todas as mulheres? É o debate que está lançado desde que Erika Hilton foi eleita para a presidência da Comissão dos Direitos da Mulher. Esse debate tem dois níveis: o primeiro é responder à pergunta "o que é uma mulher?", para definir se as mulheres trans fazem ou não parte dele. E o segundo é indagar sobre o que significa a representação na política institucional.

E o que é, afinal, uma mulher? Ao contrário do que alguns alegam, não há nenhuma divergência sobre os fatos da biologia nessa discussão. O debate é se o significado de mulher na sociedade é unicamente um fato biológico ou se inclui aspectos culturais construídos socialmente.

Deputada Erika Hilton durante coletiva de imprensa na Câmara dos Deputados. - Pedro Ladeira -13.nov.24/Folhapress

A ideia de mulher (ou de homem) evoca mais coisas do que apenas cromossomos e genitália, como papéis sociais, jeitos de ser e expectativas. É possível que você já tenha interagido com pessoas trans sem saber que elas eram trans —a biologia não determinou a identidade social nesses casos.

Essa multiplicidade de sentidos sobrepostos não é exclusividade dos gêneros. Vale para relações humanas como a parentalidade, por exemplo. O que é ser mãe ou pai? Pode ser tanto uma relação biológica —ter gerado alguém— quanto uma relação social —ter cuidado de alguém em seus anos de formação. Em geral, os dois caminham juntos. Mas às vezes as funções vêm separadas, como no caso de mães e pais adotivos. Imagine dizer que pai adotivo não é pai de verdade?

Mulher é um indivíduo humano de sexo ou gênero feminino. Esses dois aspectos podem caminhar juntos, mas às vezes vêm separados. Os conceitos humanos não designam essências imutáveis, ideias claras e distintas.

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Em certos contextos —o médico, por exemplo— o sexo biológico é decisivo. Em outros, o que conta é a identidade social, a forma como a pessoa vive e é percebida. Mulheres cis e trans terão experiências diferentes em algumas áreas —saúde reprodutiva— e similares em outras —assédio no transporte público. Mesmo dentro do conjunto das mulheres cis há realidades profundamente distintas. Uma mulher negra e pobre enfrenta obstáculos que uma mulher branca e rica talvez nem imagine.

E isso nos traz ao segundo nível do debate. A insistência de que apenas um membro de uma identidade coletiva possa representá-la politicamente é um dogma identitário inviável. Para ficar no exemplo acima: uma mulher rica não sofre com a falta de creche pública ou de absorventes gratuitos nas escolas. No entanto, nada impede que ela lidere essas reivindicações. Ou, fora das pautas femininas: a maior liderança dos sem-teto em nosso país é Guilherme Boulos, que nunca foi sem-teto.

Isso não significa que a identidade não importa; apenas que não é o único critério —e nem o mais importante— para avaliar quem pode ocupar um cargo. Numa democracia, qualquer pessoa pode representar qualquer grupo; é o voto, e não a identidade, que cria essa relação. Um homem cis pode ter mais a dizer sobre bandeiras femininas do que uma mulher que nada fez pelo tema. Em vez de ficar na discussão filosófica de se Erika Hilton é uma mulher "de verdade", o debate mais produtivo seria indagar: ela tem contribuição relevante para a pauta das mulheres? Ela tem o perfil adequado para esse cargo de liderança?