Em seu artigo de 28 de fevereiro ("Flávie dará golpe de estade"), Celso Rocha de Barros defende que, caso eleito, Flávio Bolsonaro dará um golpe. Ou seja, mais uma vez, a democracia estaria em risco na eleição presidencial. A esquerda brasileira tem sido pródiga na acusação de "golpe" desde o impeachment de 2016. Em 2026, Celso também estica seu significado.
Pelas evidências que temos, Flávio foi contrário ao golpe tentado por Bolsonaro. Mauro Cid, em sua delação, colocou Flávio no grupo dos que se opunham ao golpe. Ele aconselhava Jair a mandar os acampados para casa, deixar o poder pacificamente e virar o líder da oposição. Se tivesse sido ouvido, Jair e Eduardo estariam livres.
Roubar eleições bloqueando eleitores ou negando o resultado das urnas; sentar-se com generais para impedir a transição de poder; planos para sequestrar e matar autoridades. Isso tudo é golpe. Querer impeachment de ministros do Supremo —que é a acusação de Celso—, não.
O Brasil viveu um ataque à sua democracia, que não foi para frente pela resistência que encontrou em alguns setores, entre eles o Supremo e as Forças Armadas. Os planejadores e autores dessa tentativa foram julgados, condenados e presos. O fato de o Supremo ter atuado contra os golpistas não o torna um sinônimo da ordem democrática brasileira. Hoje, pelo contrário, ele tem danificado nossa democracia.
Alexandre de Moraes usou o inquérito das fake news para investigar o presidente da Unafisco por ter criticado o Supremo na mídia. Isso vai além da mera proximidade de autoridades com ricos brasileiros. É o uso de instrumentos de exceção para cercear as liberdades individuais. Palavras da ONG Transparência Internacional: "Cada dia mais estarrecedor o autoritarismo que emana do STF e o declínio democrático brasileiro". O poder corrompe: o herói de um dia pode, justamente por seu sucesso, tornar-se a ameaça do dia seguinte.
Celso não se conforma com o protagonismo de Bolsonaro na direita brasileira. Eu também lamento. Ao contrário do que ele parece crer, contudo, isso não se deu por nenhuma estratégia de caciques partidários ou formadores de opinião. A explicação é bem mais simples: Bolsonaro tem voto; as lideranças alternativas, não.
Uma parcela expressiva (20%? 30%?) da população brasileira tem em Jair Bolsonaro sua maior liderança. Pode-se lamentar essa realidade, mas ela não irá embora, e é pura ilusão imaginar que dá para —como diz Celso— "expulsá-los da sala" para que então o debate civilizado sobre o Supremo possa começar. Eles têm direito a voz e voto; são interlocutores do debate democrático. E jamais desaparecerão. A divergência radical veio para ficar. Suspeito, aliás, que a opção de parte da elite cultural por desconsiderá-los apenas reforce sua posição.
A democracia dá poder ao povo, embora o povo não seja sempre como a gente gostaria. A defesa das instituições que garantem nossa democracia passa por reprimir quem age para derrubá-la. Para todos os outros, cabe ouvir, entender e, quem sabe, persuadir.
O Supremo não dá quaisquer mostras de que deixará de colocar o "STF Futebol Clube" acima de tudo. O impeachment de ministros, portanto, seguirá na mesa. Políticos —bolsonaristas como Flávio e não bolsonaristas como Alessandro Vieira— continuarão a martelá-lo. E nem por isso ameaçam nossa democracia.

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