sexta-feira, 13 de março de 2026

Hélio Schwartsman - Tirando o melhor de nosso fracasso, FSP

 Já me conformei a ver o Brasil como um suave fracasso (a ótima expressão é do embaixador Rubens Ricupero). O adjetivo "suave" é importante. É pouco provável que o país se torne um Estado falido, a exemplo de Sudão, Haiti ou mesmo da Venezuela, mas também me parece difícil que venhamos a dar o tão almejado salto para o grupo de nações mais desenvolvidas. Esse é um bonde que já perdemos. Se tivéssemos tomado decisões melhores algumas décadas atrás, talvez tivéssemos conseguido, mas, agora, a demografia passa a jogar contra. Envelhecemos antes de enriquecer.

Calma, daí não se segue que você precise imitar Stefan Zweig. Embora tenha ficado difícil acreditar no Brasil como "país do futuro", nós ainda deveremos experimentar melhorias na qualidade de vida. Avanços tecnológicos desenvolvidos mundo afora continuarão a ocorrer, se é que não se multiplicarão. Muitos deles geram produtos que ampliam bem-estar, saúde, educação, segurança. Como sempre lembro aqui, o habitante médio do planeta hoje tem acesso a muito mais confortos, prosperidade e informação do que um rei europeu da Idade Média.

Multidão aguarda embarque em plataforma de metrô lotada. Trem prateado está parado na estação subterrânea com paredes de concreto.
Passageiros aguardam na plataforma para embarcar em um trem na estação da Sé do metrô, em São Paulo - Lalo de Almeida - 12.nov.2022/Folhapress

Mesmo no que depende só de nós, dá para melhorar. Talvez não o bastante para entrarmos para a elite global dos países, mas o suficiente para reduzir algumas das asperezas que empatam nossas vidas. A educação brasileira, por exemplo, ainda é muito ruim, mas já não faltam vagas para crianças e adolescentes dispostos a estudar.

Nossa infraestrutura ainda deixa muito a desejar, mas uma linha telefônica não é mais um artigo de luxo que pessoas deixam como herança para seus filhos. Em algumas poucas áreas, até conseguimos competir em condições de igualdade com os melhores do mundo. Penso aqui em Embraer e nos setores não arcaicos do agronegócio.

O estoicismo ensina que devemos nos contentar com aquilo que a realidade nos impõe. Isso não significa aceitar tudo passivamente, mas centrar nossos esforços só naquilo que está em nosso alcance modificar. Vamos tentar tirar o melhor de nosso fracasso.

PT da Sapucaí subestimou a candidatura de Flávio, Alvaro Costa e SIlva, FSP

 Com ondas altas e perigosas, o mar está para Flávio Bolsonaro. Sua candidatura à Presidência foi subestimada pelos petistas carnavalescos, pela direita que finge usar talheres finos, pelos centrões e até pelo deus-mercado. Da cadeia, o pai Jair, que conhece bem seu rebanho, enxergou longe.

No calçadão da praia, sem molhar os pés, os sabichões garantem que nas próximas pesquisas Flávio poderá aparecer à frente de Lula e continuar subindo até o dia das eleições. Oceanógrafos mais experientes, contudo, preveem uma disputa voto a voto para conseguir a menor rejeição (no placar do recente Datafolha, o petista tem 46%; o bolsonarista, 45%) e, a menos de sete meses do pleito, constatam a cristalização do cenário: 90% dos votantes dizem não se arrepender da escolha feita em 2022.

Dois homens aparecem em retratos lado a lado. O da esquerda tem cabelo curto castanho, usa óculos e terno escuro com camisa branca e gravata vermelha. O da direita tem cabelo branco, barba branca, veste terno escuro com camisa branca e gravata azul, e usa um aparelho auditivo preto no ouvido direito.
Flávio Bolsonaro e Lula - Evaristo Sá - 17.dez.25 e 9.mar.26/AFP

Aproveitando essa brazilian storm, Flávio surfa na onda Master, com formato perfeito para atacar o STF e desacreditar a condenação dos golpistas, incluindo no pacote (ou no caixote) o governo. Por outro lado, uma investigação isenta —sem vazamentos seletivos e blindagens de nomes— não livra o bolsonarismo da arrebentação da onda.

Além de Daniel Vorcaro e de seu braço direito, o pastor Fabiano Zettel —doadores da campanha de Bolsonaro—, estão ligados ao escândalo Antônio Rueda, presidente do União Brasil; Ciro Nogueira, presidente do PP e "um grande amigo de vida", segundo Vorcaro; os governadores do Rio, Cláudio Castro, de São PauloTarcísio de Freitas, e do DF, Ibaneis Rocha; Davi Alcolumbre, presidente do Senado; e o deputado influencer Nikolas Ferreira, que usava os jatinhos da milícia engravatada.

Não por último está Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central "independente" indicado por Bolsonaro, em cuja gestão o Banco Master foi criado e cresceu em meio a trambiques, bajulações e festanças. Vorcaro fez 24 visitas ao gabinete de Campos Neto, era praticamente um hóspede, só faltava levar a escova de dente.

Agora é ver quem consegue vender melhor o peixe podre. Se a situação ou a oposição.

Participação de bloco de controle na Raízen pode cair de 88% para 30%, Raquel Landim - FSP

 Notícia de presente

processo de recuperação extrajudicial da Raízen, protocolado nesta quarta-feira, 11, vai mudar bastante a composição acionária da empresa. Segundo pessoas ligadas às negociações, a empresa deve continuar com um bloco de controle, mas com uma participação acionária bem menor e com uma configuração diferente.

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Hoje, o bloco de controle detém 88% das ações da empresa. Esse bloco é dividido de forma igualitária entre Shell e Cosan, com 50% das ações para cada grupo.

Na nova configuração, esse bloco deve passar a deter algo em torno de 30% da companhia. O bloco passará a ser dividido entre Shell, Cosan e Aguassanta, a holding de Rubens Ometto, controlador da Cosan. A Shell será a maior acionista individual.

Para você

Não está claro ainda, no entanto, como esse controle da empresa será exercido. A questão da divisão do conselho de administração, por exemplo, ainda está em discussão.

Além disso, credores e outros acionistas da Raízen negociando uma conversão de cerca de R$ 25 bilhões de dívida em capital. Se chegarem a um acordo, devem se tornar sócios da empresa.

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A avaliação é que, ao final do processo de recuperação, a dívida da empresa, que está hoje em torno de R$ 65 bilhões, cairia para algo como R$ 35 bilhões. É o maior processo extrajudicial desse tipo já visto no Brasil. Oi e Odebrecht tiveram débitos maiores reestruturados, mas foram processos feitos já no âmbito judicial.

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As pessoas ouvidas pela reportagem, em condição de anonimato, dizem também que, nesse momento, não há uma busca por um novo investidor para a empresa.

Cenário macroeconômico e dificuldades setoriais

O aporte de capital dos controladores na Raízen deve ficar em R$ 4 bilhões: R$ 3,5 bilhões virão da Shell e R$ 500 milhões serão aportados por Ometto, por meio da Aguassanta.

Nas últimas semanas, representantes de Shell, Cosan, Raízen e BTG Pactual (acionista da Cosan) fizeram uma série de reuniões, buscando chegar a um acordo sobre quanto dinheiro deveriam aportar na empresa, que não evoluiu além dos R$ 4 bilhões decididos. As conversas incluíram até um encontro, em Brasília, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em fato relevante divulgado nesta quarta-feira, a Raízen atribui a deterioração da situação financeira do grupo a uma combinação de fatores macroeconômicos e setoriais, incluindo ciclos recentes de menor produtividade agrícola, compressão de margens e aumento do custo do endividamento.

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Segundo o documento, mudanças no ambiente econômico e no próprio setor sucroenergético prejudicaram o desempenho das companhias operacionais do grupo nos últimos anos e acabaram pressionando toda a estrutura financeira das empresas envolvidas.

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“A alteração do cenário macroeconômico e setorial - decorrentes de ciclos de colheita de menor produtividade, queda das margens e alto custo do endividamento financeiro - prejudicou a atividade das companhias operacionais e, por consequência, toda a operação estruturada pelas Devedoras ao longo de anos de atuação no segmento”, afirma.

O texto também destaca o impacto do forte aumento das taxas de juros no Brasil no período recente. De acordo com o documento, houve uma “alta expressiva da taxa básica de juros no mercado doméstico”, com a Selic passando de cerca de 2% em 2020 para aproximadamente 15% em 2026. Esse movimento, segundo o plano, elevou significativamente o custo do endividamento das empresas do grupo e contribuiu para o agravamento da situação financeira./Colaboraram Leandro Silveira e Gabriel Azevedo