Acho que foi Woody Allen quem criou um personagem que se deprimia com o fato de que, dentro de bilhões de anos, o Universo vai acabar. Para Drew Dalton, a morte térmica do Universo não é motivo para piada, mas para séria reflexão ética.
Em "The Matter of Evil", Dalton sustenta que aquilo que a ciência nos informa sobre o mundo precisa estar no centro de nossa metafísica e que esta deve orientar nossos juízos éticos. O quadro resultante não é bonito. A mensagem da ciência é a de que o Universo não é um lugar aprazível. Uma das poucas certezas que temos é a entropia, que inevitavelmente levará à destruição de tudo, matéria e pensamento. O absoluto é mau.
"The Matter..." é um livro ambicioso. O autor começa renegando Kant. Para Dalton, quando o prussiano decretou a impossibilidade de conhecermos as coisas em si (só o fenômeno nos é acessível), ele baniu o absoluto da filosofia e a condenou ou à irrelevância, ou ao quietismo, ou a alguma das muitas formas de niilismo contemporâneas. Dalton sustenta que precisamos resgatar a possibilidade do absoluto e que uma visão de mundo cientificamente informada é o caminho para isso. Daí o pessimismo metafísico do autor.
Minha impressão é que Dalton se agarra a uma concepção excessivamente realista da filosofia das ciências. Não são poucos os epistemologistas que veem a ciência de modo mais instrumental, incapaz de afirmar certezas sobre o mundo. O autor passa meio batido por esses problemas.
O legal do livro é o passeio pela história da filosofia que ele nos proporciona. Dalton faz ótimas observações não só sobre Kant mas também sobre Spinoza, Schopenhauer e Nietzsche, além de pincelar o pensamento de autores contemporâneos como Meillassoux e Badiou.
Ao fim e ao cabo, ele se aproxima de Schopenhauer. A realidade não presta, mas podemos, momentaneamente, nos aproximar do bem, que surge como ideia por contraposição ao mal, que é ubíquo. É um pouco como a vida: não tem sentido e vai acabar, mas podemos tentar aproveitá-la enquanto durar.

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