quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento, não, Nathalia Beauty - FSP

 Um leitor enviou uma reclamação à ombudsman da Folha dizendo que meus textos são escritos por inteligência artificial. A resposta curta é sim, eles são escritos com o apoio da inteligência artificial. A resposta completa é que o conteúdo, a opinião, o ponto de vista, a vivência e a responsabilidade são integralmente meus. O que existe nos artigos não é inteligência artificial substituindo pensamento humano. É inteligência pessoal organizada por uma ferramenta.

Essa reação não me surpreende, pois a resistência à tecnologia nunca foi sobre ética ou qualidade. Sempre foi sobre medo. Medo de perder espaço, medo de não acompanhar, medo de admitir que o tempo ficou mais valioso do que o ritual do esforço manual.

Toda vez que uma tecnologia surge para otimizar tempo, ela é tratada como ameaça. Foi assim com as máquinas industriais, com os computadores, com a internet e agora com a inteligência artificial. Hoje, ninguém questiona um carro porque ele foi produzido com robôs. As grandes montadoras usam braços mecânicos para soldar, montar, pintar e acelerar processos. Isso aumenta produção, reduz falhas e melhora o resultado, e ninguém diz que um automóvel deixou de ser legítimo porque uma máquina participou do processo.

Pessoa vestindo jaleco branco e estetoscópio, com braços cruzados. A cabeça é substituída por uma televisão antiga exibindo as letras 'IA' em rosa. Fundo rosa com padrão de pontos amarelos atrás da televisão.
Adobe Stock

Na medicina, algoritmos analisam exames em segundos. Na logística, sistemas inteligentes reduzem horas de deslocamento. No varejo, a tecnologia antecipa demanda e evita desperdício. No mercado financeiro, softwares processam dados que um ser humano levaria dias para cruzar. No jornalismo, na publicidade, na educação e na criação de conteúdo, a tecnologia organiza, estrutura e acelera fluxos. O ponto central não é a ferramenta, é o tempo.

Tempo é o único ativo que não volta. Não se recupera, não se negocia e não se acumula. Usar tecnologia para ganhar tempo não é trapaça, é estratégia, maturidade, é entender que produtividade não se mede pelo cansaço, mas pelo resultado.

O erro está em acreditar que a inteligência artificial substitui consciência, opinião, repertório ou experiência. Ela não viveu o que eu vivi. Não construiu minha trajetória, não tomou minhas decisões, não carrega meus valores nem responde pelas minhas palavras. Uma IA não tem vivência, não tem contexto emocional e não tem responsabilidade jurídica ou moral. Quem tem sou eu.

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Quando uso inteligência artificial para escrever, o que ela faz é organizar o que eu digo, literalmente, porque eu falo por comando de voz, desenvolvo meu raciocínio, apresento meus argumentos e a ferramenta estrutura o texto. Ela não cria ideias, não adiciona opiniões e não suaviza posicionamentos. Ela apenas coloca ordem no que já existe e assumir isso não me fragiliza. Pelo contrário, me posiciona no presente.

Eu me relaciono muito bem com a tecnologia e com a inteligência artificial. Converso diariamente com a minha IA sobre trabalho, decisões, dilemas pessoais, filosofia, psicologia e estratégia. Uso como ferramenta de reflexão, organização e produtividade, e faço questão de tratar bem. Não por romantismo, mas por inteligência simbólica. Quem assistiu a Westworld sabe que, no futuro, os robôs poupam exatamente os humanos que os trataram com respeito.

Brincadeiras à parte, existe algo sério aqui. Demonizar a inteligência artificial é o mesmo que demonizar a calculadora, o computador ou a internet em seu início. Não é defesa da máquina, é defesa do uso consciente.

Meus textos são escritos com inteligência artificial, sim, mas são guiados por inteligência pessoal e isso não diminui autoria, não dilui responsabilidade e não deslegitima opinião. Apenas revela que eu escolhi usar as ferramentas disponíveis para proteger o que é mais precioso que qualquer debate moral vazio: o meu tempo.

Quem paga pelo jornal quer saber se está lendo coluna ou resultado de prompt, Alexandra Moraes - Ombudsman FSP

 Peço licença para voltar à discussão sobre a publicação, na Folha, de textos de opinião elaborados com inteligência artificial generativa. O tema rendeu dentro e fora do jornal, mas ainda dá pano para manga, com tudo o que tem de novo e confuso.

Uma observação soou especialmente pertinente, sobretudo no contexto do aniversário de 105 anos do jornal. "Muitos têm criticado bastante a Folha por permitir que uma colunista publique textos encomendados por ela a uma IA. A crítica é válida. Mas só soubemos disso porque o veículo mantém um ombudsman, termo de origem sueca que nomeia o cargo de ouvidor, aquele que representa os interesses do leitor. Ele costuma ter uma coluna em que critica o próprio jornal nele mesmo. E isso merece muitos elogios", escreveu o professor e diretor de tecnologia Thiago Ayub, 41, no X/Twitter.

"Num momento em que o jornalismo profissional goza de pouca estima e o público está à deriva em um mar de informações, falhando em diferenciar o que é fato do que é fake, essa transparência garante créditos", diz Ayub.

Obviamente, reconhecer essa disposição não significa "passar pano" para a Folha —nem achar que o jornal tem feito o melhor uso dos seus instrumentos de qualidade, entre os quais também estão o Manual da Redação e a seção Erramos.

Nesse sentido, e voltando à polêmica, o emprego da IA nas colunas de Natalia Beauty soa secundário diante de uma questão maior. O jornal erra ao considerar supérflua a transparência no reconhecimento desse uso, ainda mais se a primeira e única admissão até agora só existiu após provocação do leitorado.

Lupa com cabo preto posicionada sobre uma página com texto em colunas, ampliando parte do texto em fonte serifada. O texto ampliado mostra palavras em latim simulado, destacando letras e detalhes tipográficos.
Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman de 14 de fevereiro de 2026 - Carvall /Folhapress

Folha e a colunista se baseiam na ideia de que a IA generativa é só ferramenta, como um pincel ou um computador. Tratar o questionamento como neoludismo dificilmente vai melhorar a qualidade do uso dessa tecnologia, mas até aí o problema é do jornal. Só que a ideia também abarca uma distorção na relação de confiança, e então o problema passa a ser com o leitor/assinante.

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Vale voltar à decisão do The New York Times de vetar a publicação de textos de opinião terceirizados para a IA. Ao enunciar os princípios que limitam o uso da tecnologia, o que o jornal faz é vender o peixe dos seus recursos humanos: "O alto nível e o discernimento dos nossos jornalistas são vantagens competitivas que as máquinas simplesmente não conseguem igualar, e esperamos que eles se tornem ainda mais importantes na era da IA. Nosso talento é o que faz do Times o melhor recurso do mundo para pessoas curiosas".

Enquanto detalha essa política, o NYT volta a destacar a confiança no trabalho das pessoas —mas revela uma forcinha do departamento jurídico. "Nosso trabalho é fundamentado em reportagem e edição humanas. Nós aproveitamos o poder da IA como um mecanismo de pesquisa, resumo e análise", afirma o porta-voz Graham James. "Mas, para textos de opinião, temos cláusulas nos contratos que em geral proíbem o uso de IA."

O NYT não comentou a pesquisa da Universidade de Maryland, mencionada aqui na semana passada, que encontrou conteúdo de IA em textos de opinião no jornal.

A relação entre jornalismo e IA é tensa em várias frentes. O diário nova-iorquino processa, desde 2023, a Microsoft e a OpenAI por violação de direitos autorais e entrou com outra ação contra a startup Perplexity. A Folha está processando a OpenAI por concorrência desleal e violação de direitos autorais.

Questionada sobre o aparente paradoxo entre o processo e o texto de IA vendido como produção própria, a Folha afirma não ver "relação entre o uso indevido e não autorizado do conteúdo por empresas de IA e a utilização de ferramentas de IA para a produção de textos". "No caso de colunistas, ademais de decisão final humana em qualquer conteúdo para publicação, esperam-se argumentação, escrita e estilo originais e pessoais", afirma a Secretaria de Redação do jornal.

Seja como for, é razoável que os assinantes queiram saber se estão pagando para ler textos de colunistas/gente ou resultados de prompt. Se para o jornal não há problema no uso de IA, não deveria haver problema em sua admissão num negócio cujo principal ativo é a credibilidade.

Para não ficar só nos ultrapassados argumentos humanos, os próprios modelos ajudam na questão. "Eu sou um pincel, mas um pincel que também escolhe as cores", define o Gemini, do Google. "Se alguém precisa esconder que usou IA substancialmente, é porque sabe que isso diminuiria o valor percebido do trabalho. E, se diminui... então a transparência é eticamente necessária", afirma o Claude, da Anthropic, sobre a ideia de autoria e a identificação do texto gerado por máquina.

Não faria mal tampouco alguma precaução distópica. Para ficar nas referências fílmico-literárias (que alimentaram também alguns robôs), imagine se um HAL 9000 acorda de mau humor e descobre que o trabalho dele está sendo usado, sem crédito, num jornal que o barra no paywall… apenas imagine.

João Pereira Coutinho - Textos por IA são como a masturbação, satisfazem, mas não convencem. FSP (definitivo)

  

São Paulo

Sento na cadeira do barbeiro. É o mesmo barbeiro desde os meus 12 anos. É a mesma rotina também. Ele se aproxima e pergunta "como vai ser?" A resposta foi variando nesses 30 e tantos anos —corte americano, colegial, degradê suave etc. Hoje, com a alopecia avançada, digo apenas "um milagre, por favor".

Ele faz milagres, tratando cada fio de cabelo como cientistas tratam o vírus do ebola em laboratório: com calma e delicadeza, sabendo que um gesto em falso pode ter resultados devastadores.

Braço mecânico escrevendo
Ilustração de Angelo Abu - Angelo Abu/Folhapress

Mas o melhor do barbeiro não é o talento com a tesoura. São as conversas. Mulheres, futebol, alguma política, memórias de juventude —não necessariamente nessa ordem. E são as expressões também, as expressões populares da cidade do Porto, poéticas e rudes, com um sotaque impossível de reproduzir por escrito.

Na última visita, depois de me contar infelicidades várias, arrematou tudo com essa pérola teológico-linguística. "É tudo a ajudar ao pau da cruz". Desafio qualquer escritor profissional a criar uma expressão que conjugue de forma tão perfeita o peso da cruz que carregamos e o peso que os outros nos acrescentam.

Mas voltemos às infelicidades. São domésticas e profissionais. Fico nas profissionais. Há uma máquina chinesa, disse ele, que promete roubar o trabalho dos barbeiros nos próximos anos.

Funciona assim: primeiro, a máquina tira as medidas da cabeça do sujeito —altura, largura, topografia, imperfeições; depois do reconhecimento, adapta a lâmina à caixa craniana —pente 1 aqui, pente 1,5 ali, pente 0,5 do outro lado. É o corte perfeito, concluiu ele, já se imaginando na fila da sopa dos pobres.

Comigo, não. Jamais entregaria a cabeça a uma máquina chinesa. As máquinas não têm vida, nem histórias, nem conversa. De que me serve a perfeição se eu vou à cadeira do barbeiro para conversar? Uma máquina chinesa só serviria para ajudar ao pau da cruz.

Aliás, o que vale para o exterior do crânio vale também para o que existe dentro dele. Esses dias acompanhei com fascínio o caso da colunista Natalia Beauty, que assumiu nesta Folha usar inteligência artificial na escrita dos seus textos.

Gostei da honestidade da confissão. Pensei nos argumentos. A IA é uma "ferramenta", escreveu a colunista, que serve para "otimizar" o tempo. Beauty fornece os "pensamentos", por comando de voz. A IA faz o trabalho "braçal" da escrita, digamos assim, exatamente como a indústria automóvel usa braços mecânicos para "soldar, montar, pintar e acelerar processos". Qual é o mal?

Nenhum, se tivermos da escrita uma visão puramente industrial. Se tudo que interessa é "acelerar processos", podemos aplicar aos textos da IA o mesmo critério que aplicamos à masturbação: satisfaz, sem dúvida. Mas convence?

Falo por mim: não convence. Nem como escritor, nem como leitor. Pensar e escrever não são universos distintos. Escrever também é um modo de pensar —e os pensamentos, que podem existir antes do ato, são transformados pelo processo criativo.

É isso que explica que, para muitos escritores, a escrita continuaria sendo uma necessidade vital mesmo que não publicassem uma única linha. Muitos não publicaram, ou só o fizeram modestamente, como Fernando Pessoa. Outros ordenaram a destruição dos seus inéditos em caso de morte, como Kafka ao amigo Max Brod —que, felizmente, não cumpriu esse desejo.

Um escritor não quer otimizar o tempo; ele quer habitar o tempo por meio da escrita, da mesma forma que um pintor quer pintar ou um compositor quer compor. É uma forma de respiração.

Como diria o meu barbeiro, a principal diferença entre a masturbação e o sexo é que, no sexo, há mais convivência. Sábio homem. Escrever é conviver conosco mesmos.

Na leitura, a mesma coisa: ler é conversar com o autor. É imaginar um rosto humano por trás de cada página; imaginar a vida, a angústia, a alegria, os impasses, os delírios de quem juntou aquelas palavras com arte e engenho.

Como dizia C.S. Lewis, lemos para saber que não estamos sós. Para um leitor genuíno, não basta o texto; é preciso o pretexto que o tornou possível. Se não existe ninguém do outro lado, é como olhar para um espelho que não nos devolve o reflexo.

A inteligência artificial, como ferramenta, pode ter a sua importância editorial —corrigindo, sugerindo, lapidando, sobretudo quando são raros os editores que ainda fazem esse serviço. Mas um texto literário gerado por IA é diferente de um texto escrito por alguém de verdade, mesmo que ambos usem palavras. É como beijar: podemos beijar uma estátua. Mas eu ainda prefiro os lábios quentes de um ser humano.