domingo, 15 de fevereiro de 2026

STF Futebol Clube (por Mary Zaidan), Metrópoles

 Poderia ser apelidado de bloco do STF para combinar com o Carnaval, mas o ministro Flávio Dino preferiu usar a alegoria futebolística: “sou STF Futebol Clube”. Dito e feito. Como um time, a Corte se uniu na proteção do colega Dias Toffoli, protagonista de lambanças em série frente à relatoria do caso Master, o maior golpe financeiro da história do país. A blindagem mirava tirar o Supremo do olho do furacão. Falhou.

A reunião emergencial dos 10 supremos, realizada na quinta-feira, terminou com afagos oficiais unânimes ao ministro lambão em troca do seu afastamento da relatoria do processo, rapidamente sorteada e entregue a André Mendonça. Todos respiraram aliviados. Poucas horas depois, a decisão para mitigar danos vazou – com diálogos literais dos magistrados estampados no site Poder360 -, escancarando o corporativismo acima de tudo, as desavenças entre ministros, além de rivalidades com a Polícia Federal, responsável pelas investigações do Master.

As frases publicadas, todas favoráveis a Toffoli, sugerem a hipótese de que o ministro tenha gravado a reunião, o que ele nega de pés juntos.

O ineditismo de gravar e vazar uma reunião suprema, na qual não havia um único assessor, sela definitivamente a relação de desconfiança entre os integrantes do time, que, como no futebol, tem egos inflados e estrelas demais. Pior: adita complicações ao processo e ao STF. O teor conhecido das conversas pode ser utilizado pelos defensores de Daniel Vorcaro, dono do Master, para pedir a nulidade de toda a investigação. Nos diálogos, as 200 páginas do relato da PF, que desembocaram na suspeição de Toffoli, foram duramente criticadas, chegando a ser tratadas até como “lixo” por magistrados que em breve terão de julgar o caso.

É pouco provável que se encontre quem gravou e entregou o material à imprensa. Mas se uma das premissas de qualquer investigação é suspeitar dos beneficiários, só Toffoli, elogiado nas conversas, e Vorcaro, que busca a anulação do processo, têm a ganhar.

Ainda que seja grave, o vazamento é a menor parte do problema do Supremo, que ainda não informou se o afastamento de Toffoli inclui ou não o impedimento de ele apreciar a matéria na votação final do colegiado. A mudança de relator alivia, mas não resolve questões cruciais quanto ao comportamento no mínimo heterodoxo do ministro na condução do processo. Ou seja, a suspeição aventada pela PF a partir da perícia nos celulares de Vorcaro se mantém.

Toffoli tem muito a explicar. Da manutenção do caso na sua alçada à imposição de sigilo ao processo, incluindo a ridícula tentativa de incluir a diretoria do Banco Central em acareações. Da carona de avião brindada pelo advogado de Vorcaro às idas e vindas sobre como e qual perito da PF deveria manusear provas. Da confissão tardia de que era sócio e recebeu dividendos da empresa familiar que investiu e vendeu cotas do resort Tayayá para o Master à suspeição de que o irmão era um laranja. José Eugênio Toffoli tem vida simples, em Marília, interior de São Paulo, e sua mulher, Cássia, espantou-se com o envolvimento do marido na trama. Ela nunca tinha ouvido falar do resort. Motivos suficientes para dar curso às investigações nas esferas cível e criminal. Espera-se que o novo relator autorize a PF a fazê-las.

O escândalo do Master, com Toffoli e Vorcaro na comissão de frente, também conseguiu fazer o que parecia quase impossível: mudar a biruta da Câmara dos Deputados, que iniciou o ano sob crítica ferrenha por aprovar em velocidade estonteante aumentos mais estonteantes ainda para seus servidores, estabelecendo folga de um dia para cada três trabalhados e salários muito acima do teto.

O desaforado projeto de lei, que deve ser vetado pelo presidente Lula, funcionou como estopim para que o ministro Dino suspendesse todos os pagamentos de supersalários em todas as esferas de poder, incluindo o Judiciário, onde se veem os maiores abusos. Está também sob Dino o escrutínio da lisura, ou a falta dela, das emendas parlamentares, muitas insistindo em continuar secretas, com destino e autoria não sabidos. Duas decisões monocráticas que ainda dependem da anuência do STF Futebol Clube. Tomara que nesses casos, nos quais estão em jogo fim de regalias e cortes na própria carne, o país possa contar com a coesão desse time.

Mary Zaidan é jornalista

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Blog do Noblat

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Amigo de Michel Temer, ex-ministro de Dilma deixa o MDB após 35 anos, FSP

 Carlos Petrocilo

São Paulo

Ex-ministro dos Portos, Edinho Araújo, 76, comunicou, neste sábado (14), a sua desfiliação do MDB após 35 anos.

Homem de meia-idade segura microfone com a mão direita e fala. Ele veste camisa azul clara e jaqueta preta. Ao fundo, tela azul com texto parcialmente legível e mapa do Brasil em verde.
Edinho Araújo, ex-ministro de Portos no governo Dilma - Divulgação

Pré-candidato a deputado federal neste ano, Edinho pretende se filiar a um partido que esteja disposto a apoiar Michel Temer, 85, (MDB) na eleição para a Presidência da República e a reeleição do governador de São PauloTarcísio de Freitas (Republicanos).

Como o Painel mostrou, em janeiro, o MDB planeja fazer uma pesquisa após o Carnaval para testar o nome de Temer como candidato ao Palácio do Planalto.

Velhos amigos, Edinho foi ministro da Secretaria dos Portos no governo Dilma Rousseff (PT) por indicação de Temer.

Foi o próprio Temer quem incentivou Edinho a tentar voltar ao Congresso, neste ano.

Edinho, que cumpriu ao final de 2004 o seu quarto mandato como prefeito de São José do Rio Preto (SP), também já vivenciou quatro mandatos como deputado federal e três mandatos como deputado estadual.

O sigilo imposto por Toffoli ao caso Master virou veneno, Eio Gaspari < FSP

 


No dia 2 de dezembro, o ministro José Antonio Dias Toffoli impôs o grau máximo de sigilo às investigações sobre o escândalo do banco Master. Má ideia, coisa de poderosos de Brasília. Em menos de um mês o ministro virou um braço das tramas do banqueiro Daniel Vorcaro e de sua rede de intere$$e$. Com um funeral de primeira, seus pares tiraram-no do caso.

Quando Toffoli baixou o sigilo e também centralizou em seu gabinete o curso das investigações, supôs que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Cabe uma pergunta: a armação podia ter funcionado? Só se tivessem combinado com a Polícia Federal. Como a lenda atribui ao jogador Garrincha, faltou combinar com os russos. Não só faltou combinar, Toffoli desafiou a Polícia Federal.

Homem de meia-idade com cabelo grisalho e barba curta, vestido com terno escuro, camisa branca e gravata vermelha com pontos brancos, sentado em cadeira de couro marrom, segurando e bebendo de uma xícara branca.
O ministro Dias Toffoli durante sessão do STF (Supremo Tribunal Federal) - Pedro Ladeira - 12.fev.2026/Folhapress

O presidente Lyndon Johnson, um mestre da política americana, não queria mexer com J. Edgar Hoover, o eterno diretor do FBI, a polícia federal americana. Explicava: É melhor tê-lo mijando para fora do que mijando para dentro.

Sabe-se lá o que Toffoli achava, mas o sigilo virou um veneno. Ele levou a crise para dentro do tribunal, logo nos dias em que seu presidente defende a adoção de um código de conduta.

O sigilo tornou-se um panelão de acusações. É sabido que o recurso ao sigilo (leia-se censura) transforma-se numa usina de boatos. Por exemplo: em 1969 uma clique palaciana bloqueava detalhes sobre a saúde do presidente Costa e Silva, abatido por uma isquemia cerebral. Resultado: correu o boato segundo o qual o marechal estava morto.

O sigilo transformou a reputação de Toffoli num terreno baldio, no qual atiram-se quaisquer coisas. Essa foi uma situação criada por ele, produto de uma onipotência irracional. Seu estilo foi o de dobrar as apostas, até que ficou sem cartas.

Deixando-se de lado o caso do ministro, apareceram mais duas histórias de horror: escritórios de advocacia contratados pelo Master estariam lavando dinheiro e a prisão de Daniel Vorcaro teria vazado. Isso e mais a lista de poderosos de Brasília metidos de uma forma ou de outra com o afortunado banqueiro.

Quando o caso começou, estavam na roda um banqueiro e suas pompas. Passaram-se poucos meses, caiu na pista o próprio tribunal e o ministro foi levado a pedir para sair. Quem cimentou essa trama foi o maldito sigilo.

No fundo, o erro de Toffoli foi desrespeitar um ensinamento de Tancredo Neves: no governo você não vende nem compra. Não é preciso ser vidente para prever que em pouco tempo será divulgado o preço que o fundo do cunhado de Vorcaro pagou pelo resort Tayayá.

Mendonça e sua sorte

A sorte, ou a falta dela, colocou o ministro André Mendonça na relatoria do caso Master, Durante a reunião que selou o destino de José Antonio Dias Toffoli, ele foi um crítico do relatório da Polícia Federal. Há elementos suficientes para se dizer que a PF investigou Toffoli sem ter a devida autorização do tribunal.

"Não acho que isso seja aceitável, eu não gostaria disso para ninguém", disse Mendonça durante a reunião.

Tudo bem, nesse caso seus pares deveriam ter repelido o relatório da Polícia Federal.

A linha que separa uma prerrogativa de um privilégio é tênue. Se a federal não olhasse para as contas de Toffoli, poderia estar respeitando uma prerrogativa, concedendo-lhe o privilégio de contar ao tribunal o que bem entendesse.

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