quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Trump antropófago, Ruy Castro - FSP

 Presentearam Donald Trump com uma tradução do "Manifesto Antropófago", de Oswald de Andrade. Ele leu: "Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente". Trump gostou. Mais adiante: "Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago". Trump fez hmmm de aprovação. Segundo o autor, ao literalmente comer o inimigo, o antropófago devora as qualidades deste e, deglutindo-as à sua maneira, fortalece-se.

Trump se empolgou. Se abocanhasse, digamos, a Venezuela, os EUA poderiam engolir as fabulosas reservas de petróleo do país e degluti-las em gasolina, diesel, querosene, lubrificantes, asfalto, plásticos, pesticidas, metanol e sabe-se lá. Não por acaso, neste fim de semana, lá se foi a Venezuela para o papo.

Se não fosse tão ignorante, Trump saberia que os americanos já praticam a antropofagia há muito tempo. Grande parte da escalada dos EUA no mundo se deu pela ingestão das boas coisas não só dos inimigos, mas, idem, as dos amigos. E, como manda o "Manifesto", deglutindo-as, adaptando-as ao seu jeito e tornando-as criações de sua autoria.


Foi assim com inúmeros produtos que, inventados alhures, tornaram-se tão americanos que ninguém discute sua origem: o cachorro-quente, o hambúrguer, o ketchup, o próprio sanduíche, a torta de maçã, o chiclete, o automóvel, o rádio, o cinema, a televisão, o jeans, a capa de chuva, o colete à prova de balas, o automóvel, o avião, o pára-quedas, a secretária eletrônica, o K7, o CD, o DVD, o GPS, o wi-fi. Claro que tudo isso só se difundiu depois de deglutido pelos EUA.

O maior antropófago da história pode ter sido o americano Thomas Edison. De guardanapo no pescoço, ele devorou, deglutiu e comercializou a lâmpada, o fonógrafo, o raio-X e outras 30 criações alheias. Não que não fosse um grande inventor. Mas sê-lo-ia sem seu poder de deglutição?

O ladino Trump vibrou e se identificou também com outro curioso trecho do "Manifesto" oswaldiano: "A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls".

Duas páginas impressas do Manifesto Antropófago estão sobre uma superfície escura. A página da frente contém texto em colunas e uma ilustração estilizada de uma figura humana sentada ao lado de um cacto, com três trechos do texto destacados por círculos vermelhos. A página de trás está parcialmente visível, com texto em colunas, mas sem destaques.
O "Manifesto Antropófago", de Oswald de Andrade, publicado na Revista de Antropofagia, em 1928 - Heloisa Seixas

Entenda por que Trump quer a Groenlândia; veja infográfico, Igor Gielow - FSP

 Igor Gielow

São Paulo

Obsessão antiga de Donald Trump retomada após a captura do ditador Nicolás Maduro em Caracas, a Groenlândia tem uma trinca de fatores principais a orientar a investida do presidente americano sobre o local, um território autônomo da Dinamarca.

O primeiro motivo são as riquezas minerais que teoricamente poderão ser acessadas com a aceleração do aquecimento global negado por Trump, que afeta cada vez mais a camada que no inverno chega a 3 km de gelo e cobre todo o interior da maior ilha não continental do planeta.

Avião preto com a palavra 'TRUMP' em letras grandes na fuselagem taxiando em pista coberta de neve. Ao fundo, casas coloridas e terreno nevado sob céu claro.
O Boeing 757 de Trump com seu filho, Donald Jr, chega à capital da Groenlândia, Nuuk, no começo de 2025 - Emil Stach/Ritzau Scanpix - 7.jan.2025/AFP

No papel, isso significa a possibilidade de extração de petróleo e gás, mas principalmente de minerais do subsolo groenlandês. Entre os elementos presentes se destacam as famosas terras raras, motivo de cobiça global e outra fixação de Trump —afinal, a sua rival China controla a maior parte das reservas globais.

Esses elementos são vitais para a indústria de alta tecnologia, com amplas aplicações militares. E em dois campos da Groenlândia há 66% das reservas não chinesas das chamadas terras raras pesadas, as mais importantes para essas aplicações.

Além disso, há os já citados hidrocarbonetos, lítio fundamental para baterias, grafite, níquel, cobre e minerais críticos. Tal exploração não é, contudo, garantida: cientistas alertam que o derretimento tornará o solo instável e propenso a desmoronamentos.

Já o gelo do mar, que retrocedeu em torno da ilha em 30% nos últimos 40 anos, leva à segunda razão econômica e geopolítica: o controle potencial de rotas marítimas em caso de conflito.

Passam perto da Groenlândia caminhos que o aquecimento abre mais a cada ano: em 2036, o oceano Ártico só deverá ser intransponível no inverno junto à costa nordeste da ilha, com o resto sendo aberto por quebra-gelos: só a Rússia tem uma frota de seis gigantes com propulsão nuclear.

Moscou há anos tem a iniciativa de usar as rotas, estabelecendo o contato entre São Petersburgo e a costa leste da China. O Canadá, por sua vez, sempre lutou para operar uma rota semelhante de seu lado do polo Norte.

Já a Ponte Ártica, que ligaria rapidamente Rússia e EUA, por ora está morta por motivos políticos, enquanto a Rota Transpolar, por convenientes águas internacionais, ainda não é navegável de forma constante.

Por fim, mas não menos importante, há a questão estratégica. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando tentou comprar pela primeira vez a Groenlândia que ocupou de 1941 a 1945 para evitar que os nazistas que tomaram a Dinamarca chegassem perto dos EUA, Washington dá atenção especial ao local.

A mítica Base Aérea de Thule, hoje Base Espacial de Pituffik, no noroeste da ilha, sedia radares e controla satélites vitais para a proteção da América do Norte contra ataques nucleares. O Ártico, afinal, é o caminho mais curto entre silos terrestres russos e chineses e seus alvos nos EUA.

Hoje a instalação tem 150 militares e civis, alguns groenlandeses. No ano passado, sua comandante foi demitida após criticar a política americana para a região logo depois de uma visita do vice de Trump, J. D. Vance, ao local.

Por óbvio, Trump só fala nessa última questão para enfatizar a importância de controlar a ilha. Diz que ela está exposta a ataques de adversários, ignorando não só os 85% de locais que rejeitam mudar de governante. Ele também esquece da presença americana e do fato de que a Dinamarca, cujo reino é integrado pelo território de 57 mil pessoas, é parte da Otan.

A aliança militar do Ocidente foi criada pelos EUA em 1949 para conter a expansão soviética na Europa. Trump nunca escondeu seu desprezo pela entidade, que na gestão atual reagiu ao mesmo tempo elevando seus gastos militares e adulando o americano.

Hoje com 32 membros, alguns rivais entre si, a Otan nunca viu um de seus integrantes atacar diretamente o outro. Isso daria um curto-circuito no seu papel fulcral, o de defesa mútua em caso de agressão.

A Dinamarca, de todo modo, com seus 15,4 mil soldados, nada poderia fazer contra os 1,3 milhão de militares dos EUA, noves fora seus armamentos.

Na ilha, Copenhague até tenta mostrar serviço. Após as primeiras declarações de Trump no ano passado sobre sua vontade de ter o território, reforçou sua presença com 7 dos 12 barcos-patrulha que tem com uma fragata, além de anunciar o posicionamento de caças F-16 e helicópteros no local.

Na prática, claro, isso é insuficiente. Mas na hipótese de um ataque russo, os EUA e aliados europeus estariam ali do lado para intervir. Por isso a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, não exagera ao dizer que uma ação contra a Groenlândia iria acabar com a Otan.

Lula contraria Congresso e veta redução de penas do 8/1 que beneficiaria Bolsonaro, FSP

 

Brasília

O presidente Lula (PT) vetou de forma integral nesta quinta-feira (8) a redução das penas aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023. A proposta, aprovada pelo Congresso, também beneficiaria o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena por participar da trama golpista.

Homem de cabelos brancos e mulher de cabelos castanhos seguram documento oficial aberto com texto e assinaturas, com bordas coloridas em verde, amarelo e vermelho.
A primeira-dama, Janja, e o presidente Lula (PT) mostram veto ao projeto que reduz penas por golpismo - Jorge Silva/Reuters

"Não temos o direito de esquecer do passado. Por isso não aceitamos nem ditadura civil nem ditadura militar. Viva a democracia brasileira", declarou Lula em discurso. "O 8 de janeiro está marcado pela história como o dia da vitória da nossa democracia. Vitória sobre os que tentaram tomar o poder pela força, desprezando a vontade popular expressa nas urnas."

A cerimônia realizada no Palácio do Planalto, com presença em peso de nomes governistas e de movimentos populares alinhados à esquerda, iniciou com gritos de "sem anistia".

"O dia de hoje, além de estarmos aniversariando três anos do nosso terceiro mandato, é um dia que muita gente desse país pode comemorar. Primeiro pela manutenção do Estado Democrático de Direito desse país", disse ainda.

Alvo de disputa entre governistas e oposição, a redução das penas acabou sendo aprovada na Câmara e no Senado.

O veto à flexibilização das penas já era uma intenção declarada do presidente, que chegou a afirmar, durante café com jornalistas no dia 18 de dezembro, que vetaria a proposta assim que ela chegasse à sua mesa.

Lula tinha até o dia 12 de janeiro para vetar a proposta, mas uma ala do governo defendia que o ato de memória do 8 de Janeiro desta quinta fosse usado como palco para o anúncio.

Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, faltaram à cerimônia para não se indispor com parlamentares bolsonaristas. Com a ausência dos chefes do Legislativo, Lula optou por ler a lista completa de autoridades presentes no evento, etapa protocolar que não costuma fazer.

Durante a solenidade, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, disse que os crimes do 8 de Janeiro não são passíveis de indulto ou anistia.

"Os crimes cometidos contra o Estado Democrático de Direito, como muitos daqueles praticados naquela época recente do 8 de Janeiro, conforme consta da Constituição Federal e de decisão do STF, são imprescritíveis, impassíveis de indulto, graça ou anistia, sobretudo quando envolvem grupos civis e militares armados", declarou Lewandowski.