quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Meta censura vídeo de Fábio Porchat, volta atrás e deixa lição amarga, Rosana Hermann- FSP

 A Meta, que controla o Facebook, Instagram e WhatsApp, ocupa o 16º lugar entre as maiores empresas do planeta, segundo a revista Forbes. O dono da Meta, Mark Zuckerberg, segundo a mesma publicação, está entre as dez pessoas mais ricas do mundo.

Em outras palavras, estamos falando de quem tem muito poder e que usa esse poder de acordo com suas próprias regras. O problema é que todos nós, que usamos essas plataformas, não sabemos que regras são essas.

Foi a partir dessa realidade que, na manhã desta quarta-feira, 23 de setembro, o Instagram desativou o perfil do canal de reportagens especiais Revelando depois que o vídeo "Grandes Igrejas, Master Negócios", apresentado por Fábio Porchat, viralizou.

O vídeo abordava relações entre o Banco Master, Daniel Vorcaro, a Igreja Batista da Lagoinha e políticos ligados a ela, suspeitas que seguem sob apuração.

A alegação da Meta era totalmente genérica, a de que a conta "não segue os padrões" da plataforma. Saíram do ar também as publicações feitas com os parceiros do projeto e o conteúdo do primeiro episódio, apresentado por Samara Felippo.

Assim que a jornalista Mônica Bergamo noticiou a derrubada do canal, uma onda de reações se levantou no mar das redes, caracterizando o ato como perseguição política. Porchat gravou um vídeo comentando o absurdo de censurar um trabalho jornalístico feito a partir de fatos já publicados. Procurada, a Meta disse que não comentaria o caso.

O episódio, que já estava em primeiro lugar no ranking Hype do YouTube, que pertence ao Google, desde a véspera, se manteve no topo com a repercussão.

Horas depois da repercussão negativa, a Meta emitiu uma nota dizendo: "Após uma revisão interna, restauramos a conta mencionada pela reportagem. Pedimos desculpas pelo inconveniente." A empresa não informou o que motivou a suspensão. Na linguagem dos memes, poderíamos traduzir o texto para "foi mal, tava doidão".

Mesmo depois de o canal ter sido restaurado e o vídeo se tornar disponível, ficam as dúvidas: por que derrubaram o perfil inteiro? Qual padrão exigido pela empresa o vídeo não seguiu? De quem partiu a decisão de desativar o canal e por que voltaram atrás?

Não temos as respostas. Talvez nunca as tenhamos. Porque além das perguntas, fica também uma lição: as redes não são públicas, não são nossas, são privadas, pertencem às plataformas.

Criar um perfil, um canal e fazer sucesso, com milhões de views, assinantes e seguidores é como construir em terreno que não é seu. Tanto faz se é uma choupana, uma casa, uma mansão, um palácio. Se você não é dono da área, o dono do terreno tem o direito de derrubar sua construção na hora que ele quiser.

A lição amarga é essa, a de que as redes não são praças públicas, mas propriedades privadas. E que, para usarmos as plataformas, assinamos contratos que nem lemos, seguimos regras que nem conhecemos, somos bombardeados com publicidade com a qual nem concordamos e expostos a conteúdos que não pedimos por algoritmos que não compreendemos.

Dá vontade de largar o celular e sair correndo.

Talvez seja mesmo uma boa solução.

O que teria de acontecer para você mudar de voto? Rodrigo Tavares, FSP (definitivo)

 A dez dias do primeiro turno, talvez estejamos fazendo as perguntas erradas. Para influenciar o resultado eleitoral, escarafunchamos, com um zelo de beato à procura do pecado, todos os podres dos candidatos.

Esperamos que no celular de Daniel Vorcaro se descubra, finalmente, a indecência-rainha; que no STF rebente mais um cano de esgoto; que apareça um maço de notas numa cueca parlamentar, um charuto salvadorenho fumado na companhia de algum pilantra, um zero a mais numa conta bancária nas ilhas Caimã, um jatinho registrado em nome da sogra já enterrada. E, quando nada disso produz o terremoto eleitoral prometido, quando a acumulação de casos —tantos, tantos, tantos— não tem impacto nas pesquisas, o que fazemos? Voltamos a remexer no lixo.

Diversos bonés coloridos expostos sobre lona em calçada, incluindo modelos vermelhos com inscrições "LULA 2026" e verdes com "Jair Bolsonaro 2026", além de bonés com símbolos da seleção brasileira e times de futebol. Pessoas caminham ao fundo em área urbana com árvores e grades.
Bonés dos presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) à venda na região central de São Paulo - Felipe Bächtold - 27.mai.26/Folhapress

Lembramo-nos de Miriam Cordeiro no horário eleitoral, dos acusados da Máfia dos Sanguessugas que não conseguiram se reeleger, de Roseana Sarney fulminada pelo caso Lunus, do estrago que o caso Erenice causou à candidatura de Dilma, e concluímos que, sim, há de existir um escândalo derradeiro, qualquer coisinha suficientemente sórdida para fazer alguém mudar o voto.

Mas o Brasil de antigamente não é o Brasil de hoje. A política deixou de ser opinião, sequer causa, e passou a ser identidade. Mudar o voto significa rever quem se é. Para uma grande lasca de brasileiros, a política não é escolher entre programas de governo. Quase ninguém quer saber o que pensa o Flávio sobre a reforma da previdência ou que novas medidas vai o Lula adotar para enxugar a dívida pública. A escolha eleitoral serve, sobretudo, para confirmar quem o eleitor acredita ser. Quando um Lucas qualquer vota no Flávio, o Lucas vota confiantemente nele próprio. Flávio é apenas o corpo provisório de uma identidade maior que existia antes dele e provavelmente sobreviverá a ele.

A neuropolítica, campo da neurociência que estuda o comportamento político, oferece uma pista interessante sobre esse mecanismo. Em estudo publicado em janeiro deste ano na Scientific Reports, pesquisadores expuseram 43 pessoas fortemente identificadas com uma posição política a argumentos contrários às suas crenças enquanto observavam sua atividade cerebral por ressonância magnética funcional. Os participantes alteraram mais facilmente crenças não políticas do que políticas, e o confronto com convicções políticas produziu maior atividade em regiões da chamada default mode network (rede neural de modo padrão) associadas ao processamento autorreferencial e à introspecção. Quanto mais uma posição se confunde com identidade, maior o custo psicológico e social de abandoná-la.

As identidades constroem-se muitas vezes pelo avesso e pela rejeição. Sabemos quem não somos, de quem não gostamos e com quem não queremos ser confundidos antes de definirmos, positivamente, aquilo que somos. Muitas nações construíram a sua identidade em oposição a uma ameaça externa —um vizinho, um império ou a potência que as colonizara. Tanto um português conservador como um socialista se ouriçariam ao ouvir um espanhol zombar da arquitetura da Torre de Belém.

No Brasil, porém, essa rejeição é sobretudo interna. A polarização não apenas separou opiniões políticas; ajudou a fabricar identidades que se definem umas contra as outras, que se reconhecem pelo desprezo recíproco e que precisam do adversário para saber quem são. O adversário deixou de ser alguém do outro lado da rua e passou a ser alguém do outro lado da espécie. Virou uma ameaça doméstica.

A situação piora a cada eleição. Assustadoramente, o ritual democrático, concebido para administrar pacificamente o conflito, acaba por organizar a sociedade em campos cada vez mais hostis, transformar divergência em aversão e converter adversários em inimigos. É assustador porque o rasgão bolsonarismo-lulismo, visível desde 2014, é apenas a nova reencarnação de uma sociedade bipolarizada. O Brasil já se dividiu entre integralistas e aliancistas nos anos 1930, getulistas e antigetulistas nos anos 1950, reformistas e anticomunistas entre 1961 e 1964. Já para não falar das inúmeras cisões econômicas, sociais e culturais que o país acumula desde a formação colonial.

Estamos brincando com fogo. Uma identidade política pode engrossar até deixar de querer apenas governar um país e passar a querer o seu próprio país. Israel nasceu do sionismo, o Paquistão do nacionalismo muçulmano, a União Soviética do comunismo, os Estados Unidos do republicanismo constitucional. A Alemanha do pós-guerra oferece outro exemplo. Em 1949, uma mesma nação passou a existir em dois Estados opostos, um capitalista e democrático, outro comunista e de partido único.

Em 2022, escrevi nesta Folha "Como superar o ódio eleitoral no Brasil", depois de ouvir um especialista em resolução de conflitos internacionais com experiência em Nepal, Mianmar, Moçambique, Afeganistão e Irlanda. Quatro anos depois, o diagnóstico agrava-se: o Brasil vive um estado de conflito civil. Faltam dez dias para a eleição. Podemos continuar distraídos com Vorcaro, à espera da próxima revelação. Mas não há nada no seu celular que nos diga como impedir que brasileiros passem a considerar outros brasileiros incompatíveis com o mesmo país.

Hélio Schwartsman -Guerras intestinas - FSP

 Sempre gostei da expressão "guerras intestinas". O adjetivo "intestino" denota com precisão etimológica que o conflito se dá entre facções "internas" a um país e, ao mesmo tempo, torna quase inafastável a interpretação conotativa de que se trata de uma guerra que envolve sujeira e baixarias. Nós quase sentimos o cheiro ruim da disputa. A campanha presidencial brasileira se tornou uma guerra intestina.

Os dois campos principais parecem ter perdido o pudor e recorrem a estratégias e truques que provavelmente evitariam num embate menos polarizado. Populismo e mentiras sempre se fizeram presentes em campanhas, mas agora correm quase sem limites. A cara de pau e a hipocrisia, idem. E ambos os lados mobilizam todos os recursos que têm à sua disposição, incluindo suas respectivas bancadas no STF, que vai acumulando mais camadas de degradação institucional.

Dois homens aparecem em retratos lado a lado. O da esquerda é idoso, com cabelo e barba grisalhos, veste terno escuro, camisa branca e gravata vermelha. O da direita é homem de meia-idade, com cabelo escuro e óculos, veste terno escuro, camisa branca e gravata vermelha. Ambos estão em ambientes internos com iluminação neutra.
Montagem com os candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)= - Victor Moriyama e Evaristo Sá/The New York e AFP

Quanto a nós, eleitores, vamos dormir na esperança de acordar com o vazamento que implodirá a candidatura que mais rejeitamos. Isso não acontecerá. Rodrigo Tavares mostrou num ótimo artigo que o mundo em que o grosso do eleitorado reagia de forma uníssona a escândalos não existe mais. Lulistas e bolsonaristas típicos tudo perdoam a seus ídolos e veem qualquer indício contra o adversário como prova de crime.

Seria a morte da moderação, que por muito tempo foi a marca das democracias liberais? Sim e não. A versão virtuosa do teorema do eleitor mediano, segundo a qual os próprios candidatos assumiam posições equilibradas para atrair o maior número possível de votantes, saiu de moda. Mas, com o pleito virtualmente empatado, a definição da contenda continuará cabendo à fatia dos eleitores que não se identifica organicamente nem com Lula nem com os Bolsonaros. São esses cidadãos que as campanhas buscam agora influenciar com táticas de guerrilha.

A perspectiva de que a palavra final não esteja com os radicais é positiva, mas é pena que a moderação tenha deixado de ser um valor democrático para tornar-se mero artefato estatístico.