A dez dias do primeiro turno, talvez estejamos fazendo as perguntas erradas. Para influenciar o resultado eleitoral, escarafunchamos, com um zelo de beato à procura do pecado, todos os podres dos candidatos.
Esperamos que no celular de Daniel Vorcaro se descubra, finalmente, a indecência-rainha; que no STF rebente mais um cano de esgoto; que apareça um maço de notas numa cueca parlamentar, um charuto salvadorenho fumado na companhia de algum pilantra, um zero a mais numa conta bancária nas ilhas Caimã, um jatinho registrado em nome da sogra já enterrada. E, quando nada disso produz o terremoto eleitoral prometido, quando a acumulação de casos —tantos, tantos, tantos— não tem impacto nas pesquisas, o que fazemos? Voltamos a remexer no lixo.
Lembramo-nos de Miriam Cordeiro no horário eleitoral, dos acusados da Máfia dos Sanguessugas que não conseguiram se reeleger, de Roseana Sarney fulminada pelo caso Lunus, do estrago que o caso Erenice causou à candidatura de Dilma, e concluímos que, sim, há de existir um escândalo derradeiro, qualquer coisinha suficientemente sórdida para fazer alguém mudar o voto.
Mas o Brasil de antigamente não é o Brasil de hoje. A política deixou de ser opinião, sequer causa, e passou a ser identidade. Mudar o voto significa rever quem se é. Para uma grande lasca de brasileiros, a política não é escolher entre programas de governo. Quase ninguém quer saber o que pensa o Flávio sobre a reforma da previdência ou que novas medidas vai o Lula adotar para enxugar a dívida pública. A escolha eleitoral serve, sobretudo, para confirmar quem o eleitor acredita ser. Quando um Lucas qualquer vota no Flávio, o Lucas vota confiantemente nele próprio. Flávio é apenas o corpo provisório de uma identidade maior que existia antes dele e provavelmente sobreviverá a ele.
A neuropolítica, campo da neurociência que estuda o comportamento político, oferece uma pista interessante sobre esse mecanismo. Em estudo publicado em janeiro deste ano na Scientific Reports, pesquisadores expuseram 43 pessoas fortemente identificadas com uma posição política a argumentos contrários às suas crenças enquanto observavam sua atividade cerebral por ressonância magnética funcional. Os participantes alteraram mais facilmente crenças não políticas do que políticas, e o confronto com convicções políticas produziu maior atividade em regiões da chamada default mode network (rede neural de modo padrão) associadas ao processamento autorreferencial e à introspecção. Quanto mais uma posição se confunde com identidade, maior o custo psicológico e social de abandoná-la.
As identidades constroem-se muitas vezes pelo avesso e pela rejeição. Sabemos quem não somos, de quem não gostamos e com quem não queremos ser confundidos antes de definirmos, positivamente, aquilo que somos. Muitas nações construíram a sua identidade em oposição a uma ameaça externa —um vizinho, um império ou a potência que as colonizara. Tanto um português conservador como um socialista se ouriçariam ao ouvir um espanhol zombar da arquitetura da Torre de Belém.
No Brasil, porém, essa rejeição é sobretudo interna. A polarização não apenas separou opiniões políticas; ajudou a fabricar identidades que se definem umas contra as outras, que se reconhecem pelo desprezo recíproco e que precisam do adversário para saber quem são. O adversário deixou de ser alguém do outro lado da rua e passou a ser alguém do outro lado da espécie. Virou uma ameaça doméstica.
A situação piora a cada eleição. Assustadoramente, o ritual democrático, concebido para administrar pacificamente o conflito, acaba por organizar a sociedade em campos cada vez mais hostis, transformar divergência em aversão e converter adversários em inimigos. É assustador porque o rasgão bolsonarismo-lulismo, visível desde 2014, é apenas a nova reencarnação de uma sociedade bipolarizada. O Brasil já se dividiu entre integralistas e aliancistas nos anos 1930, getulistas e antigetulistas nos anos 1950, reformistas e anticomunistas entre 1961 e 1964. Já para não falar das inúmeras cisões econômicas, sociais e culturais que o país acumula desde a formação colonial.
Estamos brincando com fogo. Uma identidade política pode engrossar até deixar de querer apenas governar um país e passar a querer o seu próprio país. Israel nasceu do sionismo, o Paquistão do nacionalismo muçulmano, a União Soviética do comunismo, os Estados Unidos do republicanismo constitucional. A Alemanha do pós-guerra oferece outro exemplo. Em 1949, uma mesma nação passou a existir em dois Estados opostos, um capitalista e democrático, outro comunista e de partido único.
Em 2022, escrevi nesta Folha "Como superar o ódio eleitoral no Brasil", depois de ouvir um especialista em resolução de conflitos internacionais com experiência em Nepal, Mianmar, Moçambique, Afeganistão e Irlanda. Quatro anos depois, o diagnóstico agrava-se: o Brasil vive um estado de conflito civil. Faltam dez dias para a eleição. Podemos continuar distraídos com Vorcaro, à espera da próxima revelação. Mas não há nada no seu celular que nos diga como impedir que brasileiros passem a considerar outros brasileiros incompatíveis com o mesmo país.

