quinta-feira, 4 de junho de 2026

Melhor momento para emigrar para Portugal pode estar prestes a chegar, Rodrigo Tavares, FSP

 Depois da crise financeira de 2008, o Bank of America estava sob enorme pressão, com receios sobre perdas hipotecárias, capital, litígios e solvência. Muitos investidores venderam ações às pressas, tomados pelo pânico. Porém, em 2011, a Berkshire Hathaway de Warren Buffett decidiu investir US$ 5 bilhões. A tese era que o banco tinha problemas graves, mas também uma franquia bancária enorme, depósitos, escala e capacidade de normalizar resultados ao longo do tempo. Não faltam exemplos do que é conhecido no mercado como "contrarian investing", uma estratégia de investimento que procura oportunidades de lucro em operações que vão contra o sentimento predominante. Acredita-se que o preço pode cair mais depressa do que o valor.

Nas últimas semanas, em tom de alarme, as mídias portuguesa e brasileira têm difundido a ideia de que os brasileiros estão deixando Portugal em massa, como hebreus fugindo das pragas do Egito. São reportagens baseadas em consultas a associações de imigrantes e entidades trabalhistas. Nem mesmo o ecossistema de inovação e startups, que ajudou a transformar Lisboa num polo de atração para dezenas de milhares de estrangeiros qualificados, parece imune. As gigantes da tecnologia estão demitindo em massa, comprimidas por reestruturações globais e pela substituição de funções por inteligência artificial. A gigante Cloudflare, que escolheu Lisboa para instalar o escritório europeu, anunciou recentemente o corte de cerca de 20% da sua força de trabalho global.

Casas brancas com telhados vermelhos se espalham por colina sob céu azul claro. Ao fundo, destaca-se uma igreja com duas torres e uma cúpula.
Miradouro na região de Alfama, em Lisboa - Rafael Carvalho/Folhapress

Também não seria surpreendente que Portugal começasse a perder algum fôlego como destino turístico. Há um limite para a capacidade de atração de qualquer país, sobretudo quando a oferta não se renova, os preços sobem e a experiência se degrada. Certas zonas de Lisboa são condomínios fechados para visitantes –milhares de turistas visitando outros turistas em bairros cenográficos feitos para turistas. Sim, o setor turístico português continua forte, mas deixou de poder contar apenas com a inércia da sua própria reputação.

Ao longo da última década e meia, o crescimento expressivo de estrangeiros (imigrantes e turistas) agravou a pressão sobre serviços públicos que já eram frágeis. Educação, saúde, habitação, transportes e administração pública tiveram de suportar uma tonelagem demográfica muito maior sem que o Estado investisse, na mesma proporção, no reforço dos alicerces. Os resultados não são positivos. Hoje, o tempo de espera por uma consulta mede-se em meses no privado e em anos no público. O preço proibitivo da habitação empurrou a classe média para os bairros esquecidos da periferia e os pobres de quem ninguém se lembra para novas favelas. O aeroporto de Lisboa, se eu for comedido com as palavras, é uma vergonha nacional. O novo, se eu for otimista no léxico, só estará pronto quando os meus futuros netos forem avós. Em 2022, na Folha, alertei para a tempestade que se formava. A extrema direita agradece o presente eleitoral, servido no prato da insatisfação.

Mas o crescimento da imigração e do turismo também deixou ganhos materiais. Muitas cidades portuguesas renovaram milhares de edifícios e inverteram a tendência de abandono dos centros urbanos, há uma genuína sofisticação da hotelaria e da restauração, criaram-se padrões de serviço mais exigentes e inauguraram-se equipamentos culturais de qualidade. Na minha Lisboa ruralizada dos anos 80 e 90, comer uma pizza margherita ou um arroz chau chau era uma extravagância cosmopolita. Ainda virávamos orgulhosos a cabeça quando ouvíamos alguém falar inglês na rua. Os hotéis de luxo contavam-se pelos dedos de meia mão e havia quem vinha da província para afundar os sapatos na alcatifa escarlate do Altis, do Ritz e do Tivoli como quem visitava uma sucursal do Primeiro Mundo. Sim, só na última década é que a capital portuguesa se tornou uma capital europeia.

A saída de estrangeiros, se ocorrer em escala relevante, será um abalo econômico. Os imigrantes são essenciais para o funcionamento cotidiano e operacional das maiores cidades e do campo. Se começarem a sair, o país enfrentará uma perda de competências técnicas, capacidade laboral, energia social, empreendedorismo, receitas fiscais e qualidade de serviços, precisamente num momento em que a população portuguesa grisalha a um ritmo assustador e a base laboral do país mingua. Mas, como em todas as crises, haverá também quem encontre algo que reluza nos escombros. Quem ficar, ou quem chegar depois, poderá encontrar casas menos inflacionadas, equipamentos subutilizados e uma infraestrutura urbana montada para uma demanda que encolheu. Portugal passará da saturação ao reaproveitamento.

Se Warren Buffett analisasse Portugal como destino de imigração, talvez o visse como um ativo de qualidade negociado ainda a múltiplos excessivos. O país mantém bons fundamentos, segurança, clima, infraestrutura urbana renovada e qualidade de vida, mas enfrenta sobrevalorização imobiliária, saturação de serviços e pressão social. Portugal parece hoje um ativo mal precificado pelo excesso de euforia. Mas depois da correção, poderá tornar-se uma solução atrativa. No fim, alguns novos imigrantes talvez encontrem a melhor oportunidade em Portugal justamente porque muitos outros tiveram de ir embora. Até que o ciclo se repita.

Nossos ingratos amigos, Ruy Castro - FSP

 Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump —só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.

Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.

Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?

Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.

Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

NÃO EXISTE WI-FI GRÁTIS - THE INTERCEPT- Brasil

 Dados pessoais de quem se conecta em pontos de Wi-Fi público na cidade de São Paulo podem ser usados para o disparo em massa de mensagens, inclusive com fins eleitorais. É o que revelam documentos obtidos pelo Intercept Brasil sobre o contrato milionário firmado entre a prefeitura administrada por Ricardo Nunes, do MDB, e a ONG Instituto Conhecer Brasil, o ICB.

A organização, que venceu uma licitação em junho de 2024 sem experiência prévia com Wi-Fi, é comandada por Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment e produtora executiva do filme “Dark Horse”, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O Intercept apurou que, após firmar um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, o ICB contratou uma empresa terceirizada chamada Talk Communications, por cerca de R$ 2,7 milhões, para realizar disparos em massa de mensagens e “marketing digital” visando a promoção do serviço. 

Embora o contrato não cite o termo “disparos em massa”, o acordo firmado pelo ICB com a Talk incluía a realização de 12 campanhas com volume estimado de 675.505 mensagens em cada uma delas, o que equivaleria a 8,1 milhões de disparos – a cidade de São Paulo tem 11,4 milhões de habitantes, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. 

A contratação de serviços adicionais como o envio de mensagens promocionais contraria os termos do edital de licitação, que veda o uso do dinheiro para uma finalidade diferente do objeto do contrato – a implantação e operação dos pontos de Wi-Fi. Também não há qualquer menção sobre envio de mensagens e ações de “marketing promocional” no plano de trabalho apresentado pelo ICB à prefeitura.

Além disso, o uso de dados pessoais de quem se conecta ao serviço de Wi-Fi público na capital paulista para fins como o envio de mensagens promocionais viola a Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD – uma vez que sequer há termo de consentimento sobre isso quando o usuário se conecta – e o próprio edital de licitação. Também configura um potencial descumprimento do Marco Civil da Internet e da própria legislação eleitoral, já que o contrato estava em vigor durante a eleição de 2024. 

ICB firmou contrato com Talk Communications para ‘envio de mensagens promocionais’ (Foto: Reprodução)

O possível disparo de mensagens pode ter sido usado para fins eleitorais porque, como é exigido do usuário o número do celular para se conectar ao Wi-Fi, isso significa que o ICB tinha acesso a este dado e, conforme o contrato firmado com a Talk Communications, a entidade se comprometeu a “fornecer os contatos” para o uso em campanhas de marketing via WhatsApp ou SMS para promover o serviço de Wi-Fi – uma iniciativa da gestão de Nunes, que concorria à reeleição. 

Ou seja, na prática a subcontratação da empresa terceirizada significa que dinheiro público do município de São Paulo não teria sido usado apenas para garantir a instalação dos pontos de Wi-Fi e o acesso à conexão de internet, mas também para fazer propaganda de uma ação da gestão do prefeito enquanto ele era candidato. 

Fazer propaganda eleitoral com o uso de disparos em massa de mensagens instantâneas sem o consentimento da pessoa destinatária é proibido por uma resolução de 2019 do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Uma minirreforma eleitoral aprovada na Câmara em maio deste ano quer mudar este entendimento — mas ainda falta aval do Senado.

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O contrato entre a prefeitura e a ONG comandada por Karina Ferreira da Gama já vem sendo investigado pelas autoridades por outras razões. Na segunda-feira, 1º de junho, o ICB foi alvo de uma operação da Polícia Civil que apura possível fraude no contrato do Wi-Fi e se o dinheiro do contrato milionário foi desviado para a produção do filme “Dark Horse”. 

Em maio deste ano, o Intercept revelou com exclusividade que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, negociou com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, R$ 134 milhões para custear o filme sobre Jair Bolsonaro.

Vale destacar que a Talk Communications já havia sido contratada pelo governo federal na gestão do ex-presidente Bolsonaro para fazer monitoramento ativo de casos de Covid-19. O valor do contrato foi de R$ 46,8 milhões, dos quais R$ 22 milhões foram efetivamente pagos entre julho de 2020 e março de 2021, segundo dados do Portal da Transparência.

O Intercept procurou o ICB, de Karina Ferreira da Gama, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. Se houver resposta, o texto será atualizado. A Talk Communications informou, em nota, que não houve compartilhamento de dados do Wi-Fi e que o serviço prestado corresponde ao contrato firmado. Ainda acrescentou que desconhece os termos do edital por ter sido contratada diretamente pelo ICB.

Nós procuramos a Prefeitura de São Paulo, mas não houve resposta. Em nota enviada após a publicação da reportagem, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, a Smit, disse que “desconhece qualquer compartilhamento de dados pessoais” dos usuários do Wi-Fi Livre para “finalidade externa à própria utilização do serviço” e que “eventuais análises sobre conformidade contratual dependem da apuração de fatos concretos”.

Também destacou que apontamentos ao edital feitos pelo Tribunal de Contas do Município, o TCMSP, “foram totalmente sanados à época” e que a gestão de Ricardo Nunes “vem exercendo a fiscalização do Termo de Cooperação assinado com a Organização da Sociedade Civil, zelando pelo adequado cumprimento”.

Compartilhamento ilegal de dados de usuários

A subcontratação da Talk para fins de marketing ocorreu em julho de 2024, um mês após o ICB firmar o contrato milionário para implantar o Wi-Fi Livre. Na época, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, a Smit, pasta responsável pelo acordo com a ONG, era comandada pelo deputado federal Bruno Lima, do Podemos de São Paulo.

Procurado pelo Intercept, o deputado Bruno Lima disse que não teve “conhecimento de qualquer compartilhamento irregular de dados pessoais na execução do contrato” e informou que a orientação da Smit sempre foi que “os contratos fossem executados em estrita observância ao edital, ao contrato e à legislação aplicável”. Leia aqui a íntegra da resposta do ex-secretário.

Especialistas ouvidos pelo Intercept afirmam, entretanto, que a contratação de serviços como “marketing promocional” fere as regras do edital de licitação, que veda “a utilização dos recursos repassados pela PMSP/SMIT em finalidade diversa da estabelecida no(a) projeto/atividade a que se refere este instrumento”.

“É muito grave. É a prefeitura contratando uma empresa para fazer conexão à internet de forma gratuita, mas, na realidade, ao que tudo indica, para coletar dados de forma ilegal. Ainda há grande possibilidade de estar também violando a lei eleitoral no que diz respeito aos processos de propaganda eleitoral”, explica ao Intercept a advogada Flávia Lefèvre, especialista em direitos digitais e telecomunicações e membro do Conselho do Instituto Nupef.

‘Essa questão de marketing digital via WhatsApp é totalmente fora do escopo do contrato’.

“É evidente que o objeto do contrato com a Talk não tem nada a ver com o objeto do edital, que é para instalar pontos para fazer conexão de Wi-Fi. Essa questão de marketing digital via WhatsApp é totalmente fora do escopo do contrato e é proibido pelo próprio contrato”, acrescentou Lefèvre, que analisou o contrato e o edital. 

Em dezembro passado, o Intercept revelou em primeira mão que o ICB havia recebido R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo, dos quais R$ 26 milhões foram transferidos sem que o serviço fosse prestado: dos 5 mil pontos acordados, só 3.200 foram instalados – a maioria durante a campanha eleitoral de 2024. 

O plano de trabalho original, celebrado entre prefeitura e ICB, previa que a instalação dos roteadores só começaria em janeiro de 2025. Mas o cronograma foi alterado. No segundo turno das eleições, no fim de outubro, 1.605 pontos já estavam ativos. Com Nunes reeleito, o ritmo de instalações desacelerou, atingindo 3,2 mil pontos em junho de 2025. 

Em troca da antecipação durante a campanha eleitoral, a gestão Nunes acordou com a ONG antecipar o pagamento do fornecimento de internet para antes do efetivo serviço e considerar o total de 3,2 mil pontos, estabelecendo junho de 2024 como data-base. 

ICB também subcontratou empresas para outros serviços

Sem experiência no ramo de telecomunicações, o ICB subcontratou sete empresas para executarem os serviços de implantação do Wi-Fi Livre. Os maiores contratos somam R$ 98 milhões. O mais caro, de R$ 36 milhões, foi assinado com uma empresa chamada Make One e é relacionado à locação de equipamentos – na prestação de contas, consta que R$ 18 milhões foram efetivamente pagos só em 2024.

Já o contrato com a Talk Communications, prestação de serviços de campanha de marketing digital via WhatsApp ou SMS “visando a promoção do programa WiFi Livre SP”, previa um pagamento total de cerca de R$ 2,7 milhões.

Extratos bancários do ICB, aos quais o Intercept teve acesso, mostram que ao menos R$ 798 mil foram transferidos pela ONG a empresas identificadas como Talk Communica ou Talk TC.

O acordo previa que caberia à Talk Communications fornecer contatos para campanhas com cidadãos e moradores. Mas, no contrato, o ICB também se comprometeu a fornecer os contatos de usuários do serviço para as campanhas – ou seja, de pessoas que usaram o Wi-Fi Livre.

Isso também indica que, a partir da operação do Wi-Fi, o ICB tem em seu poder uma base de dados massiva de números de celulares de moradores de São Paulo que poderia ser utilizada em campanhas. 

Em contrato com a Talk, ICB se compromete a “fornecer os contatos para as campanhas” (Foto: Reprodução)

Apesar disso, em nenhum momento o usuário que acessa a rede pública é informado ou questionado se dá consentimento para que seu número seja usado para esse ou qualquer outro fim – e isso viola expressamente o que prevê a Lei Geral de Proteção de Dados brasileira. 

Na avaliação da advogada Flávia Lefèvre, esse cenário é uma dupla violação: a empresa contratada pela prefeitura não só está indevidamente coletando dados como também está repassando esses dados a terceiros para uma finalidade que extrapola o contrato.

Além da Talk, há outra subcontratação firmada pelo ICB, em julho de 2024, que extrapola a finalidade do edital e prevê o compartilhamento indevido de dados de usuários. Por R$ 5 milhões, o ICB contratou um instituto de pesquisa chamado Orbis para serviços de pesquisa de satisfação com usuários. Extratos bancários mostram que ao menos R$ 1,5 milhão foram pagos. 

Segundo o contrato, ao qual o Intercept teve acesso, caberia ao ICB, na figura de contratante, fornecer os contatos dos usuários do serviço para a realização das entrevistas para a pesquisa de satisfação. 

No acordo com a Orbis, ICB também se compromete a “fornecer os contatos dos usuários” (Foto: Reprodução)

Nós procuramos a Orbis para comentar sobre o acordo firmado com a ONG comandada por Karina Ferreira da Gama, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

Tribunal de Contas alertou sobre problemas no edital

Em um relatório preliminar de acompanhamento de edital datado de abril de 2024, o Tribunal de Contas do Município, o TCMSP, identificou ao menos 20 irregularidades no edital de contratação para a operação do sistema de Wi-Fi e recomendou pelo não-prosseguimento do processo.

Uma das irregularidades dizia respeito à “ausência de especificação de forma objetiva das disposições necessárias no tocante à proteção de dados pessoais exigidas” pela LGPD. 

Após as pontuações feitas pelo TCMSP, a Smit modificou o edital e incluiu menções aos dispositivos da LGPD, como a proibição de que os dados obtidos pudessem ser usados para outras finalidades que não as que justificaram seu acesso. 

Outra mudança no edital foi impedir o compartilhamento dos dados obtidos com terceiros “fora das hipóteses permitidas em lei”. As correções satisfizeram o TCMSP, que não fez mais observações.

Embora o edital tenha sido ajustado para seguir as recomendações do TCMSP, isso não foi cumprido na prática. Afinal, mesmo com a proibição expressa nas regras do acordo que firmou com a prefeitura, o ICB assinou contratos com ao menos duas empresas terceirizadas que previam o compartilhamento de dados de usuários.

Procurado pelo Intercept, o TCMSP confirmou que há um processo em tramitação no tribunal envolvendo o edital do Wi-Fi Livre, aberto antes da etapa de seleção da entidade que assumiu o contrato, e que existem “apontamentos” ainda “em tramitação” para “futura apreciação e decisão de mérito”.

O órgão ainda destacou que, diante das notícias sobre o caso veiculadas nos últimos dias, determinou que a prefeitura envie com urgência “informações sobre a execução do contrato, para instruir processo fiscalizatório que também será submetido ao Plenário”.

Atualização:
2 de junho, 18h14
O texto foi atualizado para incluir o posicionamento da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, a Smit, da Prefeitura de São Paulo, que foi enviado após a publicação da reportagem.