terça-feira, 2 de junho de 2026

PCC e CV ameaçam mais a soberania brasileira do que os EUA, diz pesquisador, Fernanda Mena, FSP

 Fernanda Mena

São Paulo

Parte da classe política brasileira acusa de ameaça à soberania nacional a reclassificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos de Donald Trump. Para o pesquisador de terrorismo Christian Vianna, no entanto, existe uma ameaça já instalada. E ela tem CEP brasileiro.

"Quando PCC e CV conquistam territórios onde o Estado não entra, eles usurpam a soberania do país. E isso vai para além do terrorismo. Ameaçam muito mais a soberania brasileira do que os EUA", afirma ele, que passou 25 anos na Polícia Federal atuando em áreas como inteligência, contrainteligência, combate ao crime organizado transnacional e antiterrorismo.

Vianna, que desde 2021 é subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, enxerga a medida anunciada por Washington como uma decisão essencialmente política, mas capaz de produzir efeitos concretos, para o bem e para o mal.

Homem de meia-idade veste terno azul escuro e camisa social azul clara, posando com braços cruzados contra fundo preto.
Agente da Politica Federal por 25 anos, pesquisador de terrorismo e subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna é especialista em terrorismo e crime organizado transnacional - Divulgação

Na sua avaliação, o principal aspecto positivo da reclassificação é o fato de os EUA assumirem publicamente o enfrentamento das duas maiores facções brasileiras como prioridade, ampliando possibilidades de cooperação internacional e de asfixia financeira de organizações que já operam muito além das fronteiras nacionais.

O principal risco, por outro lado, ele diz estar no impacto da medida sobre empresas e instituições financeiras que, mesmo sem saber, podem ter sido utilizadas por PCC ou CV em esquemas de lavagem de dinheiro.

Vianna reconhece a possibilidade sanções econômicas. E considera improvável qualquer tipo de intervenção operacional americana em território brasileiro, a despeito de temores diante tanto das recentes movimentações militares de Trump na região, incluindo a prisão de Nicolás Máduro na Venezuela, quanto pela memória nem tão distante do apoio dos EUA ao golpe de 1964.

Para ele, porém, a discussão central está em outro lugar. Mais do que decidir se PCC e CV são ou não terroristas, o desafio é reconhecer que as facções hoje presentes em quase todo o país já ultrapassaram há muito tempo os limites tradicionais da segurança pública e exigem uma resposta coordenada do Estado brasileiro.

"Não dá para colocar isso apenas na conta da polícia, do Ministério Público ou da Justiça. Debelar organizações como PCC e CV é um projeto multidimensional de longo prazo. Não é uma lei nem uma classificação que vai resolver o problema."

O que a nova classificação americana muda no combate ao crime organizado e ao terrorismo?
A classificação pelos Estados Unidos em si não muda nada do que a gente faz usualmente: enfrentamento ao PCC, ao CV, ações de polícia judiciária, processos criminais. Também não muda o que a gente faz em relação à investigação de terrorismo pela Polícia Federal e Ministério Público Federal sob o manto da lei antiterrorismo.

O que muda, olhando mais para frente, são as possibilidades de cooperação internacional. Com essa designação, os EUA mostram que têm interesse no enfrentamento dessas facções. E, agora, elas poderão ser enfrentadas num ambiente que o Brasil não controla, da extraterritorialidade, ou seja, enfrentar essas facções operando no exterior.

Ao apontar isso como prioridade, os EUA podem ser um parceiro internacional principalmente na asfixia financeira dessas organizações. O dinheiro que eles lavam no exterior, seja nos próprios EUA, Caribe, África ou Europa.

Se não existe definição consensual de grupo terrorista, a decisão de Trump em relação a PCC e CV é uma medida política?
Quando um país decide classificar um grupo como terrorista, geralmente não é uma decisão técnica, mas política acima de tudo. É uma forma de o país dizer: eu quero enfrentar esse tipo de organização por meio da classificação como terrorista.

Os americanos têm uma definição mais ampla de terrorismo. Organizações que tenham fins econômicos mas utilizem a disseminação do medo e do terror social podem ser classificadas como terroristas.

E faz sentido classificar PCC e CV como terroristas?
Para os EUA, dentro do arcabouço legal deles, faz sentido. Além disso, PCC e CV mantêm relações com cartéis mexicanos, com os quais triangulam operações para envio de cocaína para a África e Europa, e isso deve ter chamado a atenção dos EUA.

Agora, para nós, classificar como terrorista não tem um grande significado se não tratarmos essas organizações com a importância que elas têm. O mais relevante é entender qual é a ameaça que elas representam para o nosso país. Para mim, é nítido: elas são uma ameaça à nossa soberania.

Quando PCC e CV conquistam territórios onde o Estado não entra, eles usurpam a soberania do país. Vão além de uma organização criminosa e conseguem penetrar o serviço público, como revelaram as investigações do Ministério Público paulista em relação a prefeituras no estado. Conseguem cooptar e corromper agentes públicos, se articular nacional e internacionalmente, criar esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e disseminar o medo na população que querem dominar. São todas formas de erodir a soberania do Estado brasileiro.

Isso vai para além do terrorismo. PCC e CV ameaçam muito mais a soberania brasileira do que os EUA.

Quais são os problemas na forma como o Brasil tem combatido essas organizações?
A gente tem um caminho longo de integração doméstica e internacional para fazer. Essas organizações estão em quase todos os estados do Brasil. Não temos ainda um mecanismo uniforme de investigação nem de repressão. Cada estado conduz sua estratégia.

Falta coordenação e integração suficientes entre Receita Federal, inteligência, Polícia Federal, Banco Central, ministérios públicos, Justiça, polícias estaduais e sistemas prisionais. Todos caminhando na mesma direção. Falta compartilhamento de informações em nível nacional para que possamos ter uma percepção da ameaça desses grupos em termos de país.

Durante muito tempo, o PCC foi visto pelo Estado como grupo de ladrões de banco, e CV como bandido pé de chinelo. Para ambos, utilizaram a ferramenta de sempre: colocar a polícia atrás.

Não dá para colocar o enfrentamento a essas organizações só na conta da segurança pública e do sistema de Justiça porque eles não são suficientes para lidar com isso. A gente tem que envolver a sociedade, o governo, o Estado lato sensu, órgãos e concessionárias, cada um chamado à sua responsabilidade.

Debelar uma organização como um CV, um PCC, é um projeto multidimensional holístico de longo curso. Não é uma lei que vai resolver isso. Nem tomar o território para depois abandoná-lo novamente. Também não será uma designação como terrorismo que vai resolver o problema.

Existe algum nexo entre crime organizado e terrorismo?
Sim, e ele tem dois pilares. As organizações criminosas que se utilizam de táticas terroristas para conseguir os seus fins lucrativos. E as organizações terroristas que se utilizam de práticas criminosas ou de parcerias com organizações criminosas para atingir seus fins ideológicos.

Por exemplo, uma organização terrorista precisa obter passaportes falsos para deslocar seus integrantes de um país para o outro contrata os serviços de uma organização de contrabando de imigrantes.

Outro exemplo é o de organizações criminosas que usam grupos terroristas na África para fazer o translado e a guarda da droga da costa do Atlântico até o mar Mediterrâneo.

Marcola ficou preso com o terrorista chileno Maurício Hernandez Norambuena nos anos 2000, e a troca de informações e de práticas entre eles desaguou nos episódios em que o PCC instalou em São Paulo um carro bomba próximo ao fórum criminal da Barra Funda, em 2002, e planejou um ataque a bomba à Bolsa de Valores de São Paulo, em 2022, além dos ataques generalizados de 2006.

Alguns especialistas avaliam que essa designação pode prejudicar a cooperação entre Brasil e EUA no combate às facções. O Sr. concorda?
Não vejo dessa forma. Vou dar um exemplo: a PF tem uma divisão antiterrorismo e investiga Hezbollah, Al-Qaeda, ISIS e o que for considerado terrorismo no âmbito da nossa lei antiterrorismo. Nos EUA, a inteligência lida com isso, e o FBI conduz as investigações porque a CIA não pode fazer investigação policial. Isso nunca impediu que PF e FBI cooperassem em terrorismo. A investigação da Operação Trapiche, por exemplo, de 2023, partiu de uma informação compartilhada pelo FBI e identificou o recrutamento de brasileiros pelo grupo terrorista libanês Hezbollah.

Há risco de ações militares americanas no Brasil?
Pessoalmente, acho isso muito pouco provável. Brasil e EUA são parceiros, como México e EUA também são. Desde a designação dos cartéis mexicanos como terroristas pelos EUA, não houve nenhuma ação das forças americanas no México. O que houve foi cooperação de inteligência para localizar lideranças. E os cartéis representam uma ameaça aos EUA muito maior do que PCC e CV.

O caso da Venezuela é diferente porque não havia diálogo diplomático. E, com o Brasil, esse diálogo existe.

E se essa boa relação diplomática mudar?
Só se a relação diplomática descambasse e se tornasse muito ruim, o que é muito improvável. Temos uma herança cultural muito forte com os EUA, e presidentes brasileiros, seja à direita seja à esquerda, sempre prezaram essa relação.

A prerrogativa da CIA de realizar investigações internacionais secretas não é um problema?
Uma vez que esses grupos estão designados como terroristas, a inteligência americana vai colocá-los no radar. Mas não acredito que os EUA vão atuar em solo brasileiro. A CIA vai continuar fazendo o que sempre fez, independente de uma designação de o país ter organização terrorista ou não.

Se PCC e CV não têm os EUA como mercado prioritário, qual é a preocupação dos EUA quando estabelece essa classificação para elas?
Hoje a cocaína que abastece os EUA sai majoritariamente da Colômbia e do Peru e passa por Venezuela, Colômbia ou México.

O PCC tem como grande foco hoje o mercado europeu, que é o mercado que mais cresce. A África é um trampolim para a droga chegar à Europa.

Não tenho notícia de fluxo relevante saindo atualmente do Brasil para os EUA. Então, vejo como principal questão para os americanos a lavagem de dinheiro e a utilização de sistemas, empresas e estruturas americanas para isso.

Há uma preocupação de que a reclassificação vá prejudicar o sistema financeiro brasileiro porque permitirá aos EUA tomarem medidas de congelamento de ativos de empresas do Brasil que operam lá.
O PCC já tem suas próprias fintechs, seu próprio arcabouço financeiro internacional. E os EUA vão ter alcance a isso.

O congelamento de bens é feito, no Brasil, via judicial. E às vezes é um processo longo. A Lei Antifacção (15.538/2026) agilizou bastante, mas ainda tem que passar pelo crivo do Judiciário. Nos EUA, há um mecanismo célere que permite congelar ativos de forma administrativa.

Com isso, toda transação em dólar feita por um grupo do PCC, uma empresa do PCC ou uma pessoa física ligada ao PCC já pode ser congelada.

Desde 2021, o PCC é designado pelos EUA como organização criminosa transnacional. O Ministério Público de São Paulo já fez umas duas operações com o Tesouro americano em que conseguiram bloquear contas do PCC e de empresas ligadas a ele fora do Brasil.

Agora, com a designação extra de terrorismo, surge mais uma camada, e entra o CV, que não era designado como organização criminosa transnacional pelos EUA. Isso nos põe numa situação de fragilidade porque existem empresas e bancos que são utilizados pelo PCC e pelo CV de forma inadvertida ou involuntária. Essas empresas precisarão criar novas formas de conhecer melhor seus clientes.


RAIO-X

Christian Vianna de Azevedo, nascido em 1973, é subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, doutor em Relações Internacionais pela PUC Minas e pesquisador do Instituto Inter-regional de Pesquisa sobre Crime e Justiça das Nações Unidas (Unicri). Agente da Polícia Federal, atuou por 25 anos em áreas como inteligência, combate ao crime organizado transnacional e antiterrorismo.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O custo do clima - Por Caio Mello e Yasmim Restum, MEIO

 O custo do clima

Por Caio Mello e Yasmim Restum

No filme O Dia Depois de Amanhã, de 2004, o climatologista Jack Hall (Dennis Quaid) tenta convencer líderes globais de que o colapso climático poderia estar mais próximo do que imaginávamos. Durante décadas, a crise ambiental foi retratada exatamente assim: como uma ameaça futura, distante e quase abstrata. Nos anos 2000, manchetes alarmistas e imagens de ursos polares isolados em pequenas ilhas de gelo ajudaram a consolidar a ideia de um planeta à beira de um colapso. Mas um colapso futuro.

No entanto, com a maior incidência de enchentes, furacões e ondas de calor, começamos a perceber um certo “descontrole” na natureza. E quando a imprevisibilidade passou a ser regra, sentimos o impacto, finalmente percebendo que aquele futuro é agora, e que a questão do clima já está por toda parte. “A gente sente que o clima faz parte de absolutamente tudo: da cultura, da comida, da moda, do ar que respiramos, e ainda assim é considerado uma área totalmente científica”, opina Shereen Daver, diretora de inovação da Syli, empresa britânica que impulsiona o jornalismo.

Na conversa com a especialista, que está no Brasil para palestrar no Festival 3i de jornalismo, que acontece neste final de semana no Rio de Janeiro, ela exemplifica. “Quem não ama comer, certo? Você tem orgulho da comida do seu país, e eu quis experimentar essa tapioca maravilhosa. Agora, se secas frequentes ou enchentes inviabilizassem a compra e o preparo dela, isso feriria o tecido social”, argumenta.

Hoje, a geração Z, que nasceu entre 1997 e 2012, enxerga o mundo como um lugar assustador, de acordo com estudo da Universidade de Montclair, nos EUA, e um dos motivos desse estresse existencial é a mudança do clima. Existe até um conceito na psicologia para descrever essa sensação de desesperança: ecoansiedade.

As gerações que estão no mundo há mais tempo também não trabalham com otimismo. Shereen Daver lembra como o clima muda até hábitos mais rotineiros para determinados grupos. “Idosos na faixa dos 70, 80 anos costumavam sentar do lado de fora, nas calçadas, em grupos. Só que está ficando quente demais, então eles ficam no ar-condicionado dentro de casa e mal se sentam com os amigos.” Com isso, não só a conta de luz fica mais cara, mas eles também não se conectam e podem se sentir solitários.

Na opinião dela, não é que a abordagem catastrofista não tenha impacto, mas sim que falar de crise com alarmismo e jargões é um erro de narrativa. Mesmo que 92% dos brasileiros confiem na ciência, engajar o público em assuntos climáticos fica difícil quando o jornalismo não transforma números em vida cotidiana. “Você sofre para sair de casa porque está muito quente, vê um aumento de doenças transmitidas por mosquitos, a conta de luz e o preço de alimentos básicos subirem. Tudo isso são questões econômicas refletidas em situações diárias, e, quando uma pessoa sente isso, ela tende a mudar de opinião e agir”, explica.

Mas qual a melhor forma de agir? O conceito climateXchange (cXc) propõe uma virada na comunicação climática, para que ela possa ser inserida de maneira transversal nas conversas sobre política, moda, economia ou decoração — encontrando pontos de intersecção que importem para os seres humanos. “Ao retratarmos clima como desastre, não trazemos uma história cativante, e assim assustamos as pessoas a ponto de gerar inação”, defende Shereen.

A nova narrativa precisa combinar quatro elementos: crise, soluções, esperança e ação. Ou seja, falar do problema para dar contexto; então, pensar em uma linguagem ou em iniciativas que já estejam lidando com a crise; em seguida, mostrar o potencial ou os resultados já obtidos; e, por fim, demonstrar ou citar maneiras práticas de agir, fazendo com que as pessoas se sintam empoderadas para fazer parte da solução. Aliás, já existem exemplos práticos.

Em uma reportagem do portal Nonada, financiada pela cXc, músicos amazônidas mostram como traduzem jargões técnicos e o tom alarmista para a realidade local, cantando sobre os impactos do clima nas alterações dos rios, e até mesmo na escassez de matéria-prima para a construção de instrumentos.

Pelo mundo, claro, as mudanças climáticas já provocam aumento nos preços e reconfiguram a economia global. Mas será que a população em geral consegue conectar o medo da inflação às mudanças do clima?

A conta chegou?

Na mesa dos brasileiros, a conta climática já chegou há um tempo. Eventos climáticos recentes, como as secas históricas na Amazônia e no Pantanal — que registraram chuvas até 40% abaixo da média — e as enchentes sem precedentes no Rio Grande do Sul, reduziram drasticamente a produtividade agrícola e forçaram o setor a repensar a sua logística de abastecimento.

Quando as safras quebram, ocorre uma disparada na volatilidade dos preços dos alimentos frescos, o que empurra populações mais pobres para produtos ultraprocessados. A desigualdade de renda é, então, evidenciada e aprofundada. Gabriel Junqueira, sócio e gestor da Santa Fé Investimentos, cita mudanças na dieta das pessoas. “A demanda por um tipo específico de proteína é altamente sensível ao preço relativo. Qualquer alta na carne bovina leva o consumidor a substituir por opções mais baratas, e foi exatamente isso que impulsionou o consumo de frango nos últimos anos”, explica.

Aliás, para Junqueira, os eventos climáticos extremos já mudaram estruturalmente a dinâmica da inflação de alimentos. “É uma mudança estrutural, não um choque pontual. Quando olhamos para o arroz na prateleira do supermercado, esquecemos que por trás dele existe uma cadeia inteira: desenvolvimento de sementes, defensivos, fertilizantes, a operação agrícola em si, transporte e armazenagem”. No entanto, ele lembra que o clima é um amplificador desse quadro, não a causa isolada.

Além disso, o especialista cita que a margem do produtor está “apertadíssima”. O contexto econômico marcado por custo de capital alto, risco elevado e preços de commodities em queda formam o cenário atual. Para Junqueira, fica difícil até mesmo para o mercado financeiro precificar a crise climática. Isso porque o impacto é altamente regionalizado, podendo chover demais numa região e de menos em outra.

Juros não fazem chover

Se a inflação sobe, os Bancos Centrais, por prerrogativa, precisam tentar combatê-la, mas o desafio não tem sido trivial. Isso porque subir juros ataca a inflação de demanda, ou seja: quando muitas pessoas, com renda disponível, procuram um item de forma mais elevada do que as empresas têm capacidade de produzi-lo. Mas a inflação de alimentos é de outra natureza. Por ter a chamada “demanda inelástica” — isto é, as pessoas precisam continuar comprando comida, mesmo mais cara, pois não podem simplesmente parar de comer — a inflação não é a de demanda, mas a de oferta. O analista pontua que, pela ótica da política monetária, a crise climática é um choque de oferta, e os juros são um instrumento desenhado para conter excesso de demanda, não para fazer chover.

Por isso, os BCs tendem a olhar os chamados núcleos de inflação, que são as métricas que excluem itens voláteis, como alimentos e energia, do número cheio da inflação. “O problema é quando o choque deixa de ser pontual e contamina expectativas e os demais preços, gerando os chamados efeitos de segunda ordem”, diz Junqueira.

Neste caso, o Banco Central é obrigado a reagir, mesmo que o choque seja de origem climática. Aliás, o clima já está formalmente no balanço de riscos. A autoridade monetária brasileira integra uma rede global de Bancos Centrais para o tema climático e, desde 2021, exige que as instituições financeiras gerenciem riscos físicos e de transição, afinal uma quebra de safra vira inadimplência no balanço dos bancos.

Em meio a um cenário de tamanha desesperança, a principal virtude a ser preservada é justamente a esperança. Shereen argumenta que não é como se falar de meio ambiente tivesse de se tornar apenas notas positivas ou reportagens sobre soluções. A decisão de abandonar o catastrofismo é incentivar a ação diante das consequências climáticas que já enfrentamos. Uma abordagem transversal é, portanto, o reconhecimento da nossa habilidade adaptativa. “Se você pensar em como evoluímos ao longo dos séculos, temos uma capacidade incrível de nos adaptar. Então, é esse o papel que o jornalismo climático tem que assumir”, ela atesta.



Suspeita de lavagem e confusão patrimonial: o que levou a polícia até a produtora de ‘Dark Horse’, OESP

 Por Marcelo Godoy e Fausto Macedo

Atualização:

Além das supostas fraudes no contrato de Wi-Fi da Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil, a Polícia Civil também investiga a suspeita de “desvio de finalidade e confusão patrimonial” para a lavagem de dinheiro envolvendo Karina Ferreira da Gama e a empresa Go Up Entertainment. Karina recebeu R$ 1 milhão de uma emenda parlamentar do deputado federal Mário Frias (PL-SP).

Policiais deixam à Secretaria de Inovação Tecnológica, na Rua Libero Badaró, na região central da capital paulista, carregando documentos apreendidos durante a Operação WI-FI, deflagrada para investigar a suspeita de fraude em uma licitação da Prefeitura de São Paulo, no valor de R$ 108 milhões, vencida pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB)
Policiais deixam à Secretaria de Inovação Tecnológica, na Rua Libero Badaró, na região central da capital paulista, carregando documentos apreendidos durante a Operação WI-FI, deflagrada para investigar a suspeita de fraude em uma licitação da Prefeitura de São Paulo, no valor de R$ 108 milhões, vencida pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) Foto: Werther Santana/Estadao

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A decisão judicial que autorizou a Operação Wi-Fi cita a ligação de Karina Gama com a realização do filme Dark Horse. Há suspeita de repasse indireto de recursos públicos oriundos do programa municipal para financiamento audiovisual para o filme. A Prefeitura já negou que o longa-metragem sobre Jair Bolsonaro tenha recebido recursos municipais.

Em nota divulgada na manhã desta segunda-feira, a administração municipal afirmou que “repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos”, sustentando que o contrato firmado com o Instituto Conhecer Brasil “seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade”.

A reportagem procurou a Go UP, o ICB e Karina, mas não conseguiu localizar suas defesas. Em oportunidades anteriores, Karina, o instituto e a Go Up negaram qualquer irregularidade O espaço segue aberto.

Entre as inconsistências investigadas está a apresentação de quatro faturas emitidas pela empresa Make Onde Tecnologia Digital Ltda, totalizando R$ 8,5 milhões sem a emissão das respectivas notas fiscais ou recolhimento tributário. As faturas têm numeração sequencial, mesma data de emissão e vencimento. Além disso, os valores teriam sido artificialmente fracionados, o que sugeriria possível montagem para justificar saídas ilícitas de recursos financeiros.

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Jim Caviezel, que interpreta o ex-presidente no filme Dark Horse, o deputado e roteirista Mario Frias e o diretor Cyrus Nowrasteh
Jim Caviezel, que interpreta o ex-presidente no filme Dark Horse, o deputado e roteirista Mario Frias e o diretor Cyrus Nowrasteh Foto: Mario Frias via X

A Make One foi uma das empresas contratadas pelo ICB para a execução dos 5 mil pontos de Wi-Fi na periferia da cidade, contrato que está no centro da Operação desencadeada nesta segunda-feira, dia 1.º, pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo. Ela foi um dos alvos das buscas. A reportagem não conseguiu localizar seus sócios bem como sua defesa. O espaço segue aberto.

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Além da Make One, a investigação também apura notas fiscais emitidas pela empresa Complexys Soluções Integradas no valor de R$ 2 milhões, que foram canceladas no mesmo dia da emissão, mas que foram usadas para justificar despesas em prestação de contas apresentada à Prefeitura. Outra empresa que teria sido usada para justificar os gastos do ICB foi a JR Feijão Ltda, com sede no Ceará, que teria recebido R$ 406 mil em 2024.

Haveria ainda a suspeita de autofaturamento por meio de notas fiscais emitidas pelo ICB de mais de R$ 1,4 milhão e duplicidade de faturas no valor de R$ 925 mil, conforme parecer da própria secretaria municipal, que teria concluído pela gravidade das irregularidades financeiras na execução do contrato.

Favela Conectada

Por fim, há suspeitas em relação à subcontratação da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, atualmente denominada Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda. Contratada pelo ICB por R$ 12 milhões, a Favela Conectada teria recebido R$ 2 milhões até dezembro de 2025.

Polícia faz buscas sobre fraude da Prefeitura de São Paulo em prédio da Secretaria de Inovação Tecnológica
Polícia faz buscas sobre fraude da Prefeitura de São Paulo em prédio da Secretaria de Inovação Tecnológica Foto: Werther Santana/Estadão

A polícia chegou a constatar a ausência de dados essenciais no contrato do ICB com a Favela, como o nome completo do representante da empresa contratada, identificado apenas como Alex. A polícia constatou que se trata de Alex Sandro Bispo dos Santos, preso por feminicídio. Após sua prisão, a empresa foi transferida para uma mulher que declarou morar no mesmo endereço do ex-proprietário.

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O Estadão não conseguiu localizar as defesa da Complexys, da JR Feijão, bem como da Favela Conectada e de Bispo dos Santos. O espaço segue aberto.