O fenômeno Augusto Cury é para valer? O candidato pelo Avante, que em uma semana saltou de 2% das intenções de voto para 11% na pesquisa BTG/Nexus, tem condições de romper a lógica da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro? Como sempre digo aqui, tudo o que não é proibido pelas leis da física pode acontecer. E a tal da terceira via não viola nenhuma das regras da natureza, ainda que suas chances de concretização pareçam diminutas.
A demanda do eleitorado por algo diferente dos dois candidatos que vêm figurando como favoritos nas pesquisas é real. Ela fica patente tanto pela escala das rejeições a Lula e a Flávio Bolsonaro, ambas em torno dos 50%, quanto por perguntas diretas. Uma sondagem da Quaest de maio mostrou que 38% prefeririam eleger um candidato da terceira via, contra 32% que querem a recondução de Lula e 24% que optam pela volta de um Bolsonaro. Cury, mais que os outros pretendentes com mais de 1%, é quem melhor se encaixa no figurino de moderado (em oposição a Renan Santos) e que se afasta um pouco mais da imagem de força auxiliar de Bolsonaro (casos de Ronaldo Caiado e Romeu Zema).
Ainda assim, o avantista tem uma muralha diante de si. É relativamente fácil atrair o eleitor independente ou apenas hesitantemente pró-Lula ou pró-Bolsonaro. Mas, para tornar-se viável, Cury precisaria ameaçar Flávio na disputa por uma das vagas para o segundo turno. E, para que isso aconteça, seria preciso mudar o voto de eleitores mais cognitivamente comprometidos com Lula e com Flávio Bolsonaro. É difícil.
Nossos cérebros são fortemente enviesados para evitar perdas. O medo motiva mais que a esperança, e isso faz com que o eleitor deixe de votar de acordo com as suas preferências reais para reduzir o risco de ver triunfar o candidato que mais rejeita.
O voto estratégico, já foi matematicamente demonstrado, infesta a maioria dos sistemas de votação, fazendo o eleitor falsificar suas preferências. Essa é uma vulnerabilidade que, infelizmente, já vem inclusa no pacote democracia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário