segunda-feira, 30 de março de 2026

No balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente, Muniz Sodré ,FSP

 

Há algo de salutar no escândalo do Banco Master, pois toda grande crise (do grego "krinein", descriminar, ver nas fissuras) revela aspectos despercebidos da realidade. No caso do Master, mais do que revelar, trata-se de expor: quando não se conhecem detalhes, ao menos se sente o peso do poder paralelo de entidades corruptivas na dinâmica nacional. Na exposição, incrementada nas redes por mobilização neural, o argumento dá lugar à cenografia, como num conto moral. As massas veem o que sentem de coração.

Desse modo, a visibilidade do fato privilegia palavras e imagens projetivas: festa de noivado na Sicília orçada em R$ 21 milhões, R$ 363 milhões em celebração em Taormina, também na Itália, passeio de R$ 10 milhões em iate, jato transatlântico, champanhe e caviar inesgotáveis, beldades eslavas.

Por trás, o azeitamento corruptivo da máquina do poder em Brasília, efeito da falência da política positiva (homóloga à historicidade da ordem e do progresso), ultrapassada por organizações econômicas (bancos, grupos de finanças, agronegócio), direita e centrão.

Logotipo do Banco Master com as palavras 'BANCO' e 'MASTER' em letras maiúsculas pretas, apresentando um efeito de desfoque e duplicação, sobre fundo branco.
Logo do Banco Master exibido em tela - Mauro Pimentel - 4.mar.26/AFP

Nessa crise, fenômenos e movimentos suscitam interrogações relevantes sobre as relações do poder com a sociedade, mas também com a mutação do sentimento de existência nas classes dirigentes.

São diversos os modos de realização da democracia liberal quando os caminhos sociais se decidem por elites abrigadas em protocolos entre formais e obscuros, à sombra do Estado. É o caso dos estamentos burocráticos que ganham autonomia decisória na debilitação político-institucional. Por exemplo, Judiciário e Legislativo vulneráveis a círculos financeiros e empresariais.

Um sentimento de existência permeável à sua própria exposição pública leva um capo fraudulento como Vorcaro à enunciação de verdades escandalosas: "Esse negócio de banco é uma máfia", "eu sou a anarquia do sistema". E como a mafialização é também evangélica, alega-se parceria com o "Senhor dos Exércitos" em desavenças pessoais. Algo correlato ao vaticínio bíblico sobre os que desprezam a palavra do Santo de Israel: " Por isso, o furor do Senhor se inflama contra seu povo, apodera-se dele e o castiga; os montes tremem, seus cadáveres, como carniça, jazem nas ruas" (Isaías, 5-25). Pequena lagoa de ódio que respalda a milícia particular destinada a agredir a imprensa e ameaçar de morte os dissidentes.

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A exposição do escândalo levanta a suspeita de que um outro Brasil tenha nascido e se alojado nas vísceras federais como um chupa-cabra de energias do trabalho produtivo. Dinheiro é o sangue vital, corrupção o modo operatório. Nesse balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente, um "brilho de aluguel" (João Bosco/Aldir Blanc).

Não é fenômeno exclusivo, mas aqui a desigualdade social e o desprezo das elites no poder pelo território dão à fraude estatuto de cataclisma moral e cívico. Por isso, ao sentimento público de justiça pouco satisfazem, expostos, uniforme, chinelão e a cela exígua do mestre corruptor, por mais que bata nas paredes a cabeça tosada. Uma delação verdadeira, essa, sim, mostraria o conteúdo da caixa de Pandora chamada Brasília. Aí então, seria um verdadeiro salve-se quem puder.

Kant, uma revolução no pensamento, Helio Schwartsman, FSP

 É difícil dizer se "Kant: a Revolution in Thinking", de Marcus Willaschek, deve ser classificado como um comentário da obra do filósofo ou como uma biografia. Qualquer que seja o veredicto, Willaschek faz as duas coisas muito bem.

É impressionante como o livro consegue tornar claras as ideias de Kant, uma tarefa em que muitas vezes o próprio filósofo prussiano fracassava. E não porque Willaschek fuja dos pontos mais desafiadores. "Kant..." cobre praticamente toda a obra, sem nos poupar das passagens mais abstratas e difíceis da "Crítica da Razão Pura". É claro que especialistas poderão apontar lacunas, mas o livro resolve bem os problemas de leitores comuns, movidos só pelo "sapere aude!" (ouse saber) e sem pretensão de escrever uma monografia sobre o filósofo de Königsberg.

Ilustração de Annette Schwartsman - Annette Schwartsman

Mais do que apenas explicar, Willaschek também procura mostrar em que medida o pensamento de Kant, um autor do século 18, mudou a filosofia europeia e por que, em certos temas, como ética, direitos humanos e relações internacionais, conserva relevância até hoje.

Se o item mais valioso em "Kant..." são as explicações, a parte mais divertida está nos apontamentos biográficos. A passagem dos séculos legou a Kant a imagem de um filósofo impenetrável, sisudo e metódico, que morreu virgem. Metódico ele era. Willaschek conta como surgiu a lenda segundo a qual a população de Königsberg acertava seus relógios pela hora em que Kant saia para seu passeio. Mas ele também era, contra as expectativas, uma figura sociável, que chegou a ser perseguido pelas mulheres. Também era um bom contador de piadas. O livro reproduz algumas, mas já alerto que o humor do século 18 não envelheceu muito bem.

Willaschek resiste à tentação de endeusar seu objeto de estudo. Ele não se furta a levantar pontos fracos de Kant, que aparecem em declarações antissemitas, racistas e misóginas. Não cai nos anacronismos típicos de nossa época, mas observa que são um problema para quem defendia uma noção radical de igualdade.

Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade - David Nemer FSP

David Nemer

Antropólogo da tecnologia e professor na Universidade da Virginia


Nas favelas brasileiras, as apostas online não chegam como entretenimento. Chegam como promessa de renda. Em mais de dois anos de pesquisa, ouvi repetidamente: "Quem diz que joga por diversão está mentindo. Você joga por dinheiro, dinheiro fácil."

Essa frase desmonta a ideia de lazer digital. O que emerge é outra coisa: uma economia informal mediada por plataformas. Pix instantâneo, depósitos mínimos de poucos reais, bônus de entrada e influenciadores exibindo ganhos. O cassino não se apresenta como um cassino. Se apresenta como oportunidade. Mas oportunidade para quem?

Pessoa com camiseta azul e calça clara sentada em pedra segura smartphone com tela exibindo vários ícones de aplicativos coloridos.
Jovem manuseia sites de apostas no celular, em Brasília - Pedro Ladeira - 12.jan.24/Folhapress

Pedro, de 32 anos, começou com pequenas apostas. Ganhou no início e teve a sensação de ter "entendido o sistema". Quando perdeu, tentou recuperar. Apostar mais parecia lógico. Insistir parecia uma estratégia. O raciocínio era simples: continuar até reverter. Ele perdeu as economias da família.

Endividado, pegou dinheiro de alguém ligado ao tráfico. Sem conseguir pagar, passou a trabalhar para quitar a dívida, vendendo drogas. O que começou como promessa de renda terminou em violência, ruptura familiar e vergonha. O jogo saiu da tela e atravessou a vida.

A história de Roberta, de 40 anos, revela outro tipo de impacto. O dinheiro do mês começou a desaparecer em pequenos valores: Pix de dez, quinze, vinte reais. Isoladamente, pareciam irrelevantes. Somados, desorganizaram o orçamento.

O responsável era o neto, "o menino que entende de tecnologia". Ele tinha acesso à conta, conhecia os aplicativos, os bônus e os horários de promoção. A curiosidade virou uma retirada constante de recursos essenciais. O impacto foi também relacional: a confiança familiar se rompeu.

Esses casos não são exceção. São padrão. As plataformas são desenhadas para manter os usuários. O primeiro ganho cria a sensação de possibilidade. O saque exige novos depósitos. Os bônus aparecem nos momentos certos. As perdas são reconfiguradas como aprendizado. Sempre há a promessa de recuperação.

Em contextos de precariedade, essa arquitetura encontra terreno fértil. Muitos dizem apostar apenas o dinheiro que sobra. Trata-se de fechar o mês, pagar contas, aliviar a pressão. Apostar vira estratégia de sobrevivência em um cenário de trabalho instável e de renda insuficiente. Mas essa estratégia aprofunda o problema.

As bets funcionam como infraestruturas financeiras paralelas. Não se aposta capital excedente, mas dinheiro de mercado, aluguel, remédio. Pequenas quantias que fazem falta concretamente.

O discurso dominante individualiza o risco: perdeu porque errou, ganhou porque mereceu. Essa lógica oculta que as probabilidades são estruturadas por algoritmos opacos, concebidos para garantir lucro às plataformas.

Enquanto isso, clubes exibem marcas de apostas; influenciadores lucram com cadastros e monetizam links. Entre jovens homens, apostar também se torna uma identidade. Demonstra capacidade de prover.

O resultado raramente é estabilidade. O que aparece são dívidas, conflitos familiares, depressão. Pequenos depósitos que corroem o orçamento. Pequenos empréstimos que viraram grandes dívidas. Pequenas mentiras que abalam relações.

Tratar isso como um vício individual é insuficiente. O que vemos é uma transformação estrutural: plataformas convertendo precariedade em especulação cotidiana. Ninguém aposta porque gosta de perder dinheiro. Aposta porque o salário não basta, a mobilidade parece distante e a promessa de ganho rápido se torna visível.

O problema é que a probabilidade raramente favorece quem já começa em desvantagem.
O cassino está no bolso. Cada notificação é uma nova chance de transformar necessidade em risco.

No fim, o prejuízo atravessa casas e comunidades. As bets não são apenas jogos. São um modelo de negócios que transforma vulnerabilidade em lucro. E, quanto mais difícil é sobreviver, mais sedutora se torna a aposta.