segunda-feira, 30 de março de 2026

Lula está tonto, Elio Gaspari, FSP

 "Tudo a gente vai comprando. É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas, quando chega no final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente começa a ficar zangado. ‘Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí quem vocês xingam? O governo."

Homem de cabelos grisalhos e barba branca veste camisa branca e segura microfone com a mão direita enquanto levanta a mão esquerda. Ao fundo, outras pessoas estão sentadas, desfocadas, contra um fundo azul.
O presidente Lula (PT) participa de evento do governo em Niterói (RJ) - Eduardo Anizelli - 26.mar.26/Folhapress

Culpar a população por um problema é a marca dos governantes tontos. E Lula não está tonto porque o endividamento das famílias aumentou. O que o leva a culpar o povo são as pesquisas. Segundo a Atlas/Bloomberg, a desaprovação do governo chegou a 54% e, além disso, uma simulação do segundo turno da eleição mostrou-o tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro. O presidente tem 46,6% das intenções de voto e Bolsonaro 2 ficou com 47,6%. Diferindo de seu pai, que aproveitava qualquer oportunidade para fazer campanha, seu filho está jogando parado. Não apresentou plano de governo e mal opina sobre as questões relevantes da vida nacional. De certa maneira, alimenta-se do mau humor dos eleitores com o desempenho do governo.

Lula 3.0 completou três anos de governo sem que tenha fixado uma marca. A fila do INSS arrisca bater a marca dos 3 milhões de vítimas antes de outubro. Apesar do programa Pé-de-Meia, as matrículas de jovens no ensino médio encolheram 6,3%.

Pode ser que o mau humor tenha a ver com o cansaço, com os escândalos que não partiram do governo, com má marquetagem ou também com salto alto.

Um exemplo dos perigos do salto alto veio do ministro da Previdência, Wolney Queiroz, e do presidente do INSS, Gilberto Waller Junior. Apesar das promessas do governo e a fila de vítimas aumentando, Queiroz sustentou que os segurados deverão ser atendidos "no menor tempo possível". O doutor perdeu uma oportunidade de explicar por que três anos de promessas atolaram.

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Os estrategistas do Planalto surpreenderam-se com a erosão da popularidade de Lula no andar de baixo. Não poderia ser de outra forma, os aposentados foram roubados e os segurados não conseguem atendimento. Waller Junior ofereceu um número que pode explicar a ruína: em 2022 (governo Bolsonaro) o INSS tinha 36 mil funcionários e em 2025 (governo Lula), esse número caiu para 18 mil. O presidente do INSS comporta-se como um analista que nada tem a ver com a gestão do governo.

O ministro pediu que se faça uma "boa propaganda" da Previdência. Ganha um fim de semana em Teerã quem souber como isso pode ser feito.

Lulinha

Abril vem aí e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, defende-se com o silêncio. É tudo que a oposição precisa.

Há um mês ele entrou na frigideira da CPI do INSS e já está entendido que viajou com o Careca a Portugal para prospectar um negócio. Agora sabe-se que ele prestou serviços de consultoria à Fictor, jogada na frigideira do bando Master y otras cositas más.

Enquanto o negócio do Careca do INSS em Portugal era essencialmente privado, na Fictor Lulinha era ligado ao empresário Luiz Rubini, um ex-sócio da empresa, que passou a integrar o Conselho do Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão. Esse plenário tem nome comprido e atribuições nulas. Apenas enfeita os currículos dos seus integrantes.

O Planalto ainda tem tempo para desativar essa bomba-relógio, armada para explodir na campanha eleitoral.

Lula tem dezenas de parentes e, desde que o marechal Deodoro encrencou-se pela parentela, ele foi um dos presidentes que menos misturaram a família com negócios do Estado.

Ameaça de aposentadoria de juízes por redução de penduricalhos é blefe, Elio Gaspari, FSP

 

Com a decisão do Supremo Tribunal Federal de limitar parcialmente os penduricalhos da magistratura, ressurgiu a ameaça de provocar pedidos de aposentadoria.

É blefe. Noves fora os penduricalhos, os doutores têm gabinetes, secretárias e carros com motorista.

Ministros sentados em semicírculo no plenário do Supremo Tribunal Federal, com público e advogados na plateia. Parede de pedra com cruz e brasão ao fundo.
Plenário do Supremo Tribunal Federal durante sessão - Pedro Ladeira - 12.fev.26/Folhapress

Fora da folha de pagamento da Viúva, essa infraestrutura custa em torno de R$ 50 mil.

Aposentados, para manter o padrão de vida, os doutores ficarão com essa conta.

Urucubaca fluminense

Em outubro, os eleitores do Rio de Janeiro irão às urnas. Esse eleitorado reelegeu Sérgio Cabral e Cláudio Castro com mais de 60% dos votos.

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Sete governadores do Rio deram-se mal. Moreira Franco, Sérgio Cabral, Anthony Garotinho e sua mulher Rosinha, bem como Luiz Fernando Pezão foram presos. Wilson Witzel foi impedido e seu vice, Cláudio Castro, renunciou para não ser cassado.

Neste século, todos os cidadãos eleitos para governar o Estado do Rio foram presos e/ou impedidos.

Enquanto esquerda debate o sexo dos anjos, direita se prepara para invadir o paraíso, Angela Alonso - FSP (definitivo)

 A culpa é de Eva. Foi ela quem se deixou aliciar pela serpente e induziu Adão a comer a fruta proibida. Se fosse hoje, Adão tentaria a delação premiada para voltar ao paraíso. Mas as punições do Velho Testamento eram bem diferentes das do Judiciário moderno e, em vez de prender, Deus soltou os corrompidos no mundo. Desde o Éden, pecado e corrupção andam de mãos dadas e assim chegaram ao bacanal Daniel Vorcaro, em Trancoso.

A versão tupiniquim da ilha de Jeffrey Epstein era igualmente regada a dinheiro, sexo e poder. Ali, códigos profanos e divinos estavam suspensos, mas apenas após a queda de Vorcaro é que a categoria bíblica "corrupção" passou a descrever esse paraíso de pecadores.

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O dedo em riste para os transgressores da moralidade pública gerou um famigerado PowerPoint, que lembrou outro. A diferença é que o original saiu do cérebro abençoado de Deltan Dallagnol e a cópia, de uma cabeça que já deve ter rolado na Redação da GloboNews.

Esse hiperfoco noticioso em corrupção chegou rapidinho a "o país precisa ser passado a limpo". Os governos de dois prisioneiros domiciliares, Fernando Collor e Jair Bolsonaro, são exemplares do resultado da sanha moralizadora. Ambos acabaram em desmonte de órgãos e políticas de Estado e em problemas com a Justiça. A promessa política de refundação paradisíaca para acabar com a corrupção entrega, em geral, apocalipse.

Se Vorcaro sacudiu a conversa sobre moralidade pública, Erika Hilton (PSOL-SP) puxou o fio mais recente do debate sobre moralidade privada —um fio já bem esticado. Há tempos, marchas pró-vida, secretarias da Família e toda a machosfera denunciam a degradação dos costumes e clamam pelo retorno da hierarquia patriarcal, aquela que não deu certo nem para Adão e Eva.

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Mas a assunção de Hilton à Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados deslocou a discussão do substantivo, os direitos, para uma interminável conversa sobre a quem cabe decidir o sentido genuíno da adjetivação "da mulher". O pessoal de Damares Alves nem precisou entrar em campo: assistiu de camarote às vísceras abertas da esquerda, que briga entre si tanto ou mais que com os movimentos contrários aos direitos das mulheres e de quaisquer minorias.

As duas corrupções, pública e privada, serão um prato cheio para este ano eleitoral. Ronaldo Caiado já a tomou como foco na corrida presidencial.

Cabe perguntar, contudo: a quem interessa tanta celeuma em torno de moralidade?

Uma mulher com cabelo longo e liso, usando uma blusa branca, está falando em um microfone durante uma audiência pública. Ao fundo, é possível ver outras pessoas, algumas com roupas escuras e outras com roupas listradas. A mulher parece estar em um ambiente formal, possivelmente em um espaço governamental.
Erika Hilton em sessão da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados - Antonio Araújo/Divulgação Câmara dos Deputados

Pesquisa Datafolha deste mês atesta que (diferentemente do que sugeria o título da Folha, como bem frisou a ombudsman) os maiores problemas para os brasileiros não são nenhuma das duas modalidades de corrupção. Sua versão "roubalheira" é citada por 9% dos entrevistados. O lado pecaminoso nem aparece.

As pessoas comuns se preocupam com a vida comum: aonde a família vai quando adoece, se é seguro andar na rua, se tem comida na mesa. Saúde (21%), segurança (19%) e economia (11%) preponderam como seus interesses. No topo de tudo, mostrou outro Datafolha, está o apoio absoluto (71%) ao fim da escala 6x1. Os brasileiros querem mais do mais precioso dos recursos, porque o menos disponível da sociedade contemporânea: o tempo.

Não é todo o mundo que se interessa em discutir corrupção, financeira ou de costumes. Há um fosso entre a obsessão moral de partes da elite social e as preocupações mais pedestres da maioria da população.

Hilton armou uma ponte entre a ilha moralizadora e o continente mourejador quando lançou sua bem-sucedida campanha por direito a mais descanso, mas foi depois engolfada em uma briga fratricida. É um pecadilho clássico da esquerda lançar a primeira pedra no olho da facção vizinha, sempre disputando entre si a superioridade moral.

A direita também tem suas rinhas, porque é um saco de gatos. Eles, no entanto, são mais pragmáticos que programáticos e, no final, costumam ficar todos pardos.

Enquanto um lado debate o sexo dos anjos, o outro se prepara para reinvadir o paraíso.