quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

João Pereira Coutinho - Textos por IA são como a masturbação, satisfazem, mas não convencem. FSP (definitivo)

  

São Paulo

Sento na cadeira do barbeiro. É o mesmo barbeiro desde os meus 12 anos. É a mesma rotina também. Ele se aproxima e pergunta "como vai ser?" A resposta foi variando nesses 30 e tantos anos —corte americano, colegial, degradê suave etc. Hoje, com a alopecia avançada, digo apenas "um milagre, por favor".

Ele faz milagres, tratando cada fio de cabelo como cientistas tratam o vírus do ebola em laboratório: com calma e delicadeza, sabendo que um gesto em falso pode ter resultados devastadores.

Braço mecânico escrevendo
Ilustração de Angelo Abu - Angelo Abu/Folhapress

Mas o melhor do barbeiro não é o talento com a tesoura. São as conversas. Mulheres, futebol, alguma política, memórias de juventude —não necessariamente nessa ordem. E são as expressões também, as expressões populares da cidade do Porto, poéticas e rudes, com um sotaque impossível de reproduzir por escrito.

Na última visita, depois de me contar infelicidades várias, arrematou tudo com essa pérola teológico-linguística. "É tudo a ajudar ao pau da cruz". Desafio qualquer escritor profissional a criar uma expressão que conjugue de forma tão perfeita o peso da cruz que carregamos e o peso que os outros nos acrescentam.

Mas voltemos às infelicidades. São domésticas e profissionais. Fico nas profissionais. Há uma máquina chinesa, disse ele, que promete roubar o trabalho dos barbeiros nos próximos anos.

Funciona assim: primeiro, a máquina tira as medidas da cabeça do sujeito —altura, largura, topografia, imperfeições; depois do reconhecimento, adapta a lâmina à caixa craniana —pente 1 aqui, pente 1,5 ali, pente 0,5 do outro lado. É o corte perfeito, concluiu ele, já se imaginando na fila da sopa dos pobres.

Comigo, não. Jamais entregaria a cabeça a uma máquina chinesa. As máquinas não têm vida, nem histórias, nem conversa. De que me serve a perfeição se eu vou à cadeira do barbeiro para conversar? Uma máquina chinesa só serviria para ajudar ao pau da cruz.

Aliás, o que vale para o exterior do crânio vale também para o que existe dentro dele. Esses dias acompanhei com fascínio o caso da colunista Natalia Beauty, que assumiu nesta Folha usar inteligência artificial na escrita dos seus textos.

Gostei da honestidade da confissão. Pensei nos argumentos. A IA é uma "ferramenta", escreveu a colunista, que serve para "otimizar" o tempo. Beauty fornece os "pensamentos", por comando de voz. A IA faz o trabalho "braçal" da escrita, digamos assim, exatamente como a indústria automóvel usa braços mecânicos para "soldar, montar, pintar e acelerar processos". Qual é o mal?

Nenhum, se tivermos da escrita uma visão puramente industrial. Se tudo que interessa é "acelerar processos", podemos aplicar aos textos da IA o mesmo critério que aplicamos à masturbação: satisfaz, sem dúvida. Mas convence?

Falo por mim: não convence. Nem como escritor, nem como leitor. Pensar e escrever não são universos distintos. Escrever também é um modo de pensar —e os pensamentos, que podem existir antes do ato, são transformados pelo processo criativo.

É isso que explica que, para muitos escritores, a escrita continuaria sendo uma necessidade vital mesmo que não publicassem uma única linha. Muitos não publicaram, ou só o fizeram modestamente, como Fernando Pessoa. Outros ordenaram a destruição dos seus inéditos em caso de morte, como Kafka ao amigo Max Brod —que, felizmente, não cumpriu esse desejo.

Um escritor não quer otimizar o tempo; ele quer habitar o tempo por meio da escrita, da mesma forma que um pintor quer pintar ou um compositor quer compor. É uma forma de respiração.

Como diria o meu barbeiro, a principal diferença entre a masturbação e o sexo é que, no sexo, há mais convivência. Sábio homem. Escrever é conviver conosco mesmos.

Na leitura, a mesma coisa: ler é conversar com o autor. É imaginar um rosto humano por trás de cada página; imaginar a vida, a angústia, a alegria, os impasses, os delírios de quem juntou aquelas palavras com arte e engenho.

Como dizia C.S. Lewis, lemos para saber que não estamos sós. Para um leitor genuíno, não basta o texto; é preciso o pretexto que o tornou possível. Se não existe ninguém do outro lado, é como olhar para um espelho que não nos devolve o reflexo.

A inteligência artificial, como ferramenta, pode ter a sua importância editorial —corrigindo, sugerindo, lapidando, sobretudo quando são raros os editores que ainda fazem esse serviço. Mas um texto literário gerado por IA é diferente de um texto escrito por alguém de verdade, mesmo que ambos usem palavras. É como beijar: podemos beijar uma estátua. Mas eu ainda prefiro os lábios quentes de um ser humano.


EF-118: o contrato que definirá o padrão das novas ferrovias, Mauricio Portugal Ribeiro _FSP

 Sustentei recentemente em artigo nesta coluna que o discurso oficial sobre a nova política ferroviária precisa refletir com clareza o que ela efetivamente propõe. Volto ao tema para analisar as minutas de edital e contrato da EF-118, recentemente submetidas ao TCU. Por ser o primeiro projeto estruturado sob a nova política ferroviária, seu desenho criará um padrão para os contratos seguintes.

A EF-118 prevê a construção do trecho entre Santa Leopoldina (ES) e São João da Barra (RJ), com expansão condicionada até Nova Iguaçu (RJ), incluindo segmento preexistente da EF-103, além da prestação do serviço de transporte de cargas.

Trata-se, na prática, de uma PPP (parceria público-privada) com aporte de recursos públicos (R$ 5,2 bilhões) ao longo da construção da ferrovia, diretamente ou por meio de investimentos cruzados de concessionárias que renovaram seus contratos entre 2020 e 2025. Em qualquer desses casos, o projeto gera efeitos fiscais, ainda que menos visíveis no caso dos investimentos cruzados, pois os recursos não passam pela conta única do Tesouro e não são considerados na contabilidade pública.

Trilhos de trem seguem em linha reta em direção a uma ponte metálica preta, com um morro coberto de vegetação ao fundo. Vegetação rasteira e postes de energia cercam os trilhos em ambos os lados.
Trecho de ferrovia em Minas Gerais - Pedro Ladeira - 3.fev.26/Folhapress

Apesar de ser uma PPP com aporte, o critério de julgamento não é, como seria esperado, menor pagamento de aporte público, mas sim maior pagamento pela outorga, destinado a um fundo para cobrir contingências no próprio projeto. O problema é que o contrato cria hipóteses em que esse fundo pode se revelar insuficiente, exigindo recursos orçamentários adicionais.

Um exemplo é a regra segundo a qual se o custo definido no projeto executivo superar 110% do valor estimado das obras (R$ 3,8 bilhões), 90% do excedente será suportado pela União. Como o projeto executivo será elaborado pelo concessionário, é plausível imaginar cenário em que os licitantes já antecipem sobrecustos superiores a 10%. Nesse contexto, se a margem líquida da obra para o concessionário superar a parcela de risco que o concessionário assume, haverá incentivo econômico para o concessionário buscar elevar o custo da construção já no projeto executivo.

O país já viveu situação semelhante no fim do século XIX e princípio do XX, com o regime de garantia de juros, adotado por influência de estudo de André Rebouças. Como a rentabilidade era proporcional ao investimento reconhecido, criou-se incentivo para maximizar o capital empregado. A literatura registra a consequência disso: ferrovias construídas com traçados em ziguezague, com o efeito colateral de reduzir a eficiência do transporte.

O modelo da EF-118 também pode afetar o leilão. Se o concessionário sabe que a outorga poderá retornar a ele via reequilíbrios e que seus ganhos crescem com o valor da obra, pode oferecer lance artificialmente elevado, apostando na recomposição futura. Nesse caso, a tendência é que vença não o operador mais eficiente, mas aquele que apostar mais alto na sua capacidade de obter reequilíbrios.

Outro ponto sensível é a definição de eventos extraordinários que dão ao concessionário direito a reequilíbrio pela variação de custos de insumos. Na EF-118, considera-se extraordinária variação do custo total de insumos superior a 2% da receita do ano anterior da concessionária, enquanto, por exemplo, no setor de rodovias, esse percentual é definido por análise de dados com metodologias probabilísticas, que resulta geralmente em atribuir riscos aos concessionários substancialmente maiores que os mencionados 2%.

Há evidente assimetria entre o desenho da EF-118 e as concessões de ferrovias renovadas entre 2020 e 2025, que somam cerca de R$ 85 bilhões em compromissos de investimento, sem proteção semelhante para variações de custos de insumos. Se o modelo da EF-118 for replicado para implantar ferrovias na área de influência das concessionárias atuais, poderá haver distorções concorrenciais.

Diante de tudo isso, seria prudente reavaliar essas regras e seu impacto fiscal. O Brasil precisa ampliar sua malha ferroviária, integrar territórios e reduzir custos logísticos. Isso exige projetos viáveis e contratos bem calibrados. É preciso aprimorar o desenho da EF-118, de modo a assegurar que os recursos mobilizados —públicos e privados— resultem em obras eficientes, concorrência saudável e sustentabilidade fiscal. É assim que se constroem políticas públicas que atravessam gerações


The New York Times - O que os pombos podem ensinar sobre nossa fixação por celulares e apps, FSP

 Michaeleen Doucleff

Jornalista de ciência e autora do livro “Hunt, Gather, Parent”

The New York Times

Há mais de 50 anos, psicólogos começaram a documentar um fenômeno estranho entre animais, incluindo pombos, guaxinins e ratos. Embora não percebessem na época, esse comportamento ajudaria a explicar por que nossa sociedade desenvolveu uma necessidade tão intensa e frequentemente incontrolável de usar o celular.

Os dispositivos e seus aplicativos não nos proporcionam "gratificação instantânea", como costumamos acreditar, mas, em vez disso, desencadeiam o oposto: desejo e vontade constantes.

Na década de 1970, cientistas colocaram pombos famintos em uma caixa comprida e ensinaram às aves que uma luz piscando em uma extremidade da caixa sinalizava o aparecimento de comida na outra ponta. A luz se tornou um sinal de recompensa.

Dois pombos estão no chão de uma calçada. Um está com as asas abertas próximo a um sapato preto, e o outro está ao lado de um pedaço de pão.
Pombos se alimentam em rua de Frankfurt, na Alemanha - Kirill Kudryavtsev/AFP

No início, os pombos ignoravam amplamente a luminosidade e passavam o tempo no lado da caixa perto da comida. Eles queriam e precisavam da comida. Mas, com o tempo, a luz passou a atrair os pombos como um ímã. "Era incrível de assistir", relembra o psicólogo Robert Boakes, da Universidade de Sydney, que foi um dos primeiros cientistas a documentar esse fenômeno.

"Os pássaros passavam tanto tempo bicando a luz que não tinham tempo de pegar a comida", recorda. Boakes chamou esse comportamento de "rastreamento de sinal" porque os animais perseguiam o "sinal" da recompensa. Tec, tec, tec.

Em um experimento, um pombo bicou a luz milhares de vezes por hora. A luz distraía tanto os pássaros que eles passavam fome.

Hoje, quase todo mundo nos Estados Unidos se tornou igualmente distraído. As pessoas são "exatamente como os pombos", afirma Peter Balsam, professor de psicologia da Universidade Columbia. Porque, segundo ele, carregamos um dispositivo que provoca esse comportamento bizarro: nossos celulares. Desliza, desliza, desliza. Rola, rola, rola. Toca, toca, toca.

Os smartphones —assim como suas plataformas de redes sociais, aplicativos de mensagens e videogames— podem nos enganar a ponto de não buscarmos mais o que precisamos em nossas vidas. Começamos a valorizar, desejar e até nos tornar obcecados por sinais em nossos dispositivos que associamos às nossas necessidades fundamentais, como pertencimento.

"Como criaturas sociais, as pessoas são levadas a considerar a interação social tão atraente quanto comida, água, sexo e sal", avalia o neurocientista Read Montague, de Virginia Tech.

Celulares, tablets e aplicativos fornecem um caleidoscópio de imagens e sons que sinalizam a possibilidade de pertencimento, assim como a luz sinalizava comida na caixa do pombo. Esses sinais incluem os ícones coloridos dos aplicativos, os pontos vermelhos de notificação sobre eles e os sinos, chiados, vibrações e toques que os acompanham. Até o próprio dispositivo se transforma em um sinal potente para as pessoas.

Neurocientistas descobriram que a substância química cerebral dopamina nos atrai para esses sinais. Antigamente, acreditava-se que a dopamina codificava prazer, mas uma vasta quantidade de evidências acumuladas nas últimas décadas sugere que não é bem assim.

Em vez disso, ela desempenha vários papéis. Ela desencadeia motivação e desejo por necessidades fundamentais. Ela faz você querer o bolo à sua frente, declara o neurocientista Kent Berridge, da Universidade de Michigan. Mas não faz você gostar do bolo ou se sentir satisfeito depois. A dopamina não tem a ver com gratificação. Querer e gostar são, de certa forma, componentes separáveis dentro do cérebro, acrescenta Berridge.