quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Qual o papel do gênero na queda das taxas de fecundidade no mundo?, Martin Wolf, FT FSP

 A queda na fecundidade ocorreu em quase todos os países do mundo. Além disso, observa a vencedora do Nobel de Economia Claudia Goldin, no artigo de 2023 "The Downside of Fertility" ("O Lado Negativo da Fecundidade"), todos os membros da OCDE (exceto Israel) têm uma taxa de fecundidade total (número médio de filhos por mulher ao longo da vida) inferior a 2,1 (a taxa de reposição). Isso não é nada novo: "baixos níveis de fecundidade existem em muitas nações atualmente desenvolvidas desde meados da década de 1970".

Essa transformação na fecundidade é o oposto do que Thomas Malthus previu em seu "Ensaio sobre o Princípio da População". A humanidade está mais próspera do que nunca e, ainda assim, tem proporcionalmente muito menos filhos do que antes.

Mulher grávida segurando um bloco de anotações - Viktoriia/Adobe Stock

Examinei as causas em maio de 2024, em "Do baby boom ao baby bust". Uma delas é que um número muito maior de crianças sobrevive até a idade adulta, reduzindo a necessidade de múltiplos nascimentos. Outra é que conseguimos separar os prazeres do sexo dos fardos da criação dos filhos. E outra ainda é que as pessoas passaram a preferir poucos filhos "de qualidade" (em cada um dos quais investem mais) a uma grande quantidade.

No entanto, essas mudanças não explicam totalmente o que está acontecendo, especialmente as taxas de fecundidade marcadamente mais baixas das mulheres com ensino superior e os choques extraordinariamente rápidos na fecundidade em economias de rápido crescimento com normas de gênero tradicionais, notadamente a de que as esposas devem cuidar dos filhos. Nesses países, não apenas os custos de criar filhos tendem a ser altos, mas recaem esmagadoramente sobre as mulheres.

De modo geral, as mulheres com ensino superior nos Estados Unidos (e em outros lugares) são muito mais propensas a se casar do que as sem diploma e têm sido mais propensas a ter filhos dentro do casamento. Assim, para as graduadas, em particular, grande parte da decisão de ter filhos depende de como elas esperam que seus maridos se comportem.

O ponto simples (e óbvio) é que mulheres com educação superior que acabam com a responsabilidade total pelo cuidado de múltiplos filhos têm relativamente mais a perder do que suas pares sem diploma. É por isso que elas são mais propensas a insistir no casamento, e também por isso que tendem a ter menos filhos (embora isso também ocorra porque começam a tentar mais tarde).

Goldin argumenta que mulheres que obtêm renda através de suas profissões estão em melhor situação e têm muito mais autonomia. Mas, para isso, precisam adiar o ingresso no mercado de trabalho para investir na própria educação, o que fazem cada vez mais.

Uma vez formadas e no mercado de trabalho, precisam escolher se e com quem ter filhos. Se quiserem trabalhar com sucesso após ter filhos, dependerão da ajuda ativa de seus parceiros. Mas não há como ter certeza de que eles são confiáveis. Os parceiros podem ser um companheiros dedicados, mas podem abandoná-las. Se o apoio faltar, elas terão dificuldade em sustentar suas carreiras. Então, as mulheres com diploma se protegem. Não apenas insistem no casamento, mas têm poucos filhos, muitas vezes um ou nenhum.

Goldin usa essa análise para explicar o que vem acontecendo nos EUA ao longo do tempo. Assim, "a taxa de natalidade despencou há algum tempo nos EUA... Como as mulheres tinham mais autonomia, tinham mais opções, e como os rendimentos relativos dos trabalhadores com diploma universitário aumentaram muito, suas opções se tornaram mais valiosas... O custo de oportunidade dos filhos para mulheres mais escolarizadas aumentou. As mulheres precisavam de maiores garantias de que o cuidado de seus filhos seria compartilhado com o pai".

Agora considere os casos de países que tiveram enorme crescimento econômico a partir de uma base baixa, como no sul da Europa e no leste da Ásia. Lá, ela argumenta, os costumes sociais frequentemente estão defasados em relação às realidades contemporâneas. Os homens ainda anseiam pelas normas patriarcais de uma sociedade tradicional. As mulheres desfrutam da libertação de uma economia moderna. Goldin observa que países particularmente afetados por esse descompasso de expectativas (como JapãoCoreia do Sul e, suspeito, China) também têm altas taxas de mulheres sem filhos.

Outro fator relevante que ela menciona é a "corrida de ratos". Filhos "de qualidade" são caros em todos os lugares, mas em alguns países o custo é exorbitante. Em sociedades nas quais as aspirações para os filhos são universalmente altas, os pais competem uns com os outros por um número limitado de vagas de destaque para seus filhos. O resultado é a proliferação de aulas particulares, que são uma forma requintada de tortura tanto para os filhos quanto para os pais, e principalmente para as mães. Isso aumenta os custos diretos e indiretos de para as mulheres de ter filhos. Então, muitas escolhem não ter filhos.

A principal sugestão de Goldin é que os homens precisam mudar de atitude, embora ela também recomende maior apoio estatal aos pais. Mas nada parece capaz de elevar as taxas de fecundidade das sociedades modernas acima da reposição. Onde concordo é que a ideia da direita reacionária de que a resposta é colocar as mulheres de volta na cozinha e no berçário é perversa e estúpida. Só o Talibã acha inteligente privar as mulheres de educação.

Além disso, se nem o Partido Comunista Chinês consegue forçar as mulheres a ter filhos que não querem, ninguém consegue. E mais, só um imbecil suporia que se conseguiria mais filhos argumentando que as mulheres devem tratar seus maridos como seus senhores, mais uma vez. Teríamos ainda menos casamentos e menos filhos.

As normas de gênero precisarão ser ainda mais igualitárias e a ajuda da sociedade com os custos dos filhos ainda maior se houver alguma esperança de elevar as taxas de fecundidade. Mas um grande aumento parece improvável. Um declínio populacional parece inevitável em um grande número de países ricos, se a imigração em massa for descartada. Isso seria realmente o desastre que alguns temem? Não. Mas esse é um tema para outra coluna.

Mauricio Stycer - Os protestos estão sendo televisionados -FSP

 A performance de Bad Bunny no show do intervalo do Super Bowl no último domingo (8) será lembrada como um dos grandes momentos de crítica a um governo que lida muito mal, não raro de forma belicosa, com opiniões contrárias.


Antes de prosseguir, vale reiterar que o evento, incluindo toda a repercussão posterior, deixou mais uma vez explícito o lugar que a velha televisão ainda ocupa como ferramenta de comunicação ultrapopular e o seu potencial como arma política.

O jogo decisivo da liga de futebol americano, a NFL, é transmitido em sistema de rodízio pelas quatro grandes redes de televisão do país. Em 2026, coube à NBC e nos próximos três anos será exibido, nesta ordem, por ABC, CBS e Fox.

Artista vestido de branco está em pé no teto de uma caminhonete antiga durante apresentação ao ar livre. Ao redor, dançarinos e músicos se movimentam, enquanto grande público assiste ao evento em estádio ou arena.
Bad Bunny no show no intervalo do Super Bowl, no estádio Levi, em Santa Clara (Califórnia) - Mike Blake - 8.fev.26/Reuters


Além de sempre registrar a maior audiência da TV americana, a final é também o evento mais lucrativo do ano. O Super Bowl de 2026, na NBC, teve uma média de 124,9 milhões de telespectadores, um pouco abaixo da transmissão do ano passado, na Fox, que atraiu uma média de 127,7 milhões de pessoas.

A apresentação de Bad Bunny, falada quase inteiramente em espanhol, louvando a cultura latino-americana, trazia uma mensagem aparentemente pueril num painel ao fundo: "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor". Depois de citar os nomes de mais de duas dezenas de países das Américas, segurando uma bola de futebol americano, o cantor disse uma única frase em inglês: "Juntos, somos a América".


Nada mais sintomática foi a reação do presidente Trump sobre a apresentação: "Absolutamente terrível, uma das piores de todos os tempos". Também disse que foi "uma afronta à grandeza da América" e que "ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo".

Uma semana antes, ao vencer o Grammy, o rapper havia sido bem mais explícito na crítica à violenta política governamental de combate à imigração ilegal no país: "Fora ICE (sigla do serviço de imigração e controle de fronteiras). Não somos selvagens, animais ou alienígenas. Somos seres humanos e somos americanos", disse o cantor ao receber o prêmio da indústria musical.


Artista mais tocado do mundo no ano passado segundo o Spotify, Bad Bunny foi anunciado em setembro de 2025 como a atração do show do intervalo do Super Bowl 2026. Pouco depois, uma organização conservadora americana, Turning Point USA, informou que iria produzir um "show do intervalo alternativo".

O evento, descrito como uma opção de entretenimento que celebrava "a cultura americana, a liberdade e a fé", foi exibido em plataformas de streaming no mesmo momento da apresentação do cantor porto-riquenho na NBC. O elenco, formado por artistas que apoiam Trump, tinha como principal atração o cantor Kid Rock. O show foi um tributo ao ativista Charlie Kirk, assassinado no ano passado, que fundou a entidade em 2012.

Por seu caráter divisionista, o evento musical trumpista me lembrou um fato polêmico, ocorrido em 4 de outubro de 2018, no Brasil. Na ocasião, a Record exibiu uma entrevista exclusiva com o então candidato à presidência Jair Bolsonaro no mesmo momento em que a Globo apresentava o último debate eleitoral com outros sete candidatos. O PT questionou a Record por suposto favorecimento a Bolsonaro, mas o TSE arquivou a ação no ano seguinte.

A apresentação de Bad Bunny no intervalo do jogo teve uma média de 128,2 milhões de telespectadores, superior à audiência total da partida. A crítica ao governo americano ganhou, com o show do cantor porto-riquenho, uma imagem definitiva. Enquanto houver registros dos protestos há esperança.