quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Rodrigo Tavares - Estrangeiros como eu ficam enciumados com a alegria brasileira, FSP

 "Fica quieto e não faças cara nem de alegre nem de triste", dizia a minha mãe quando eu era criança, na hora da fotografia. Comigo funcionava. Com um país, não. O Brasil é continental demais para caber num único clique e oceânico demais para ficar parado antes de o obturador fechar.

Ainda assim, deixem-me tentar tirar um retrato. Estrangeiros como eu ficam boquiabertos com a alegria brasileira. Enciumados até. Ainda por cima, a alegria no Brasil é mesmo brasileira. Não parece coisa enxertada nem importada. Há nela um travo de origem, como se fosse matéria-prima com selo nacional de autenticidade. É uma forma de sociabilidade, feita de corpo, festa e improviso, mediada por um jeitinho criativo e um humor de malícia leve. Na precariedade, rir e celebrar não são apenas escapismo; são formas de reforçar alianças e proteger a vida em comum. É como se a alegria fosse um seguro contra adversidades, uma espécie de Previdência Social.

Folião se diverte em bloco de Carnaval em São Paulo
Folião se diverte em bloco de Carnaval em São Paulo - Eduardo Knapp - 7.fev.26/Folhapress

Um estudo de 2024 conduzido por um pesquisador da Universidade de Bristol a partir de trabalho de campo em Duque de Caxias (RJ) concluiu que, na rotina de violência, a zombaria se torna uma prática relacional que regula tensões e reforça vínculos entre pares. A comunidade local ridiculariza o medo excessivo ou a reação considerada inadequada de forasteiros, que não sabem "ler" os sons dos tiros.

Renda e sorriso também não se alinham de maneira simples. Em muitos contextos europeus, quando a renda aumenta, crescem também a segurança material e a previsibilidade. Nesses casos, o bem-estar tende a se traduzir em felicidade. No Brasil, a alegria não depende de rendimentos altos. Na edição mais recente do Relatório Mundial da Felicidade, que analisa o estado da felicidade global em 147 países contabilizando indicadores como PIB per capita e expectativa de vida saudável, o Brasil está apenas na 36ª posição, atrás de países que, no imaginário popular, dificilmente seriam descritos como mais "alegres" do que o Brasil. Mas certamente têm mais renda per capita. Finlândia, Dinamarca, Islândia e Suécia estão no topo da lista.

A alegria anda de mãos dadas com o famoso jeitinho brasileiro, uma forma de abrir caminho. A literatura científica descreve-o como "um jeito especial de resolver um problema ou uma situação difícil ou proibida… [que envolve] encontrar uma solução criativa para lidar com as situações, seja na forma de conciliação, astúcia ou habilidade". Pode ser considerado uma característica cultural brasileira, afirma um paper da FGV. O jeitinho, pelo menos na sua forma positiva, se ancora em simpatia, sociabilidade, conciliação e cuidado –mais do que em conforto material, concluiu um estudo de 2019 feito por acadêmicos brasileiros de psicologia.

Até é possível dar um passo em frente. A literatura demonstra que no Brasil, humor compartilhado (piada, ironia, meme) funciona como uma espécie de moeda relacional. Ele ajuda a reforçar pertencimento e afinidades —mecanismos que, na prática, viram laços sociais (redes mais densas) e/ou capital social (prestígio, reciprocidade, confiança, visibilidade). Em outras palavras, o riso não é só expressão emocional; é também infraestrutura social. Quem tem "cara fechada", "cara amarrada", é "emburrado" ou "grosso" (expressões que desconhecia quando fui ao Brasil pela primeira vez) arrisca-se a perder o lugar na roda ou a ter a vida dificultada. Aqui na Europa, a falta de riso pode ser interpretada nobremente como sobriedade, autocontrole e seriedade. Quem se ri "feito parvo" ou "está sempre na galhofa" pode ser inferiorizado, pelo menos em contextos de maior rigor social.

Outros estudos mostram que, no Brasil, festas como Carnaval, Círio, Bumba meu boi, quadrilhas juninas e congados funcionam como rituais que fomentam e renovam esse pertencimento por meio de performance coletiva, e é daí que emerge uma alegria pública, compartilhada e socialmente reconhecida. O Carnaval, em particular, mostra que a diversão é uma forma de vida coletiva. Lógicas semelhantes podem ser aplicadas à sociabilidade na praça e no boteco. São copresenças que produzem microeventos de prazer e alegria.

No último século, consolidou-se a alegria brasileira como selo de identidade e imagem de exportação. Aqui fora, brasileiro é ser "cheerful", "joyeux", é "tener chispa". Mas as expectativas podem desencadear em cada pessoa uma obrigação social ou uma performance nem sempre bem-sucedida. Ainda assim, vale a máxima do "Samba da Bênção" de Vinicius de Moraes, "É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe." Quando eu era criança, a minha mãe, aparentemente, não escutava Vinicius.

Do azeite de oliva à bancarrota do Master, Sergio Rodrigues, FSP

 Todo mundo conhece um caçador de redundâncias. É aquela pessoa que, adepta de corrigir os outros, sente uma excitação quase sexual —o "quase" vai por educação— quando alguém diz ou escreve, por exemplo, "azeite de oliva".

"Se é azeite só pode ser de oliva, oliva é azeitona, de azeitona se faz azeite, entendeu? Falar azeite de oliva é o mesmo que falar entrar para dentro, hahaha."

Sempre à espreita de pleonasmos viciosos, de palavras supérfluas, esse tipo especial de sabichão começa estando certo e logo fica errado, erradíssimo. Como se contenta com as primeiras linhas da história, nem desconfia disso, e acaba por protagonizar cenas constrangedoras.

Azeite de dendê produzido pelo quilombo Kaonge, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano - Rafaela Araújo - 5.ago.23/Folhapress

Se não sabe que a construção "entrar para dentro" pode, em determinadas circunstâncias, traduzir um reforço legítimo ou até necessário, no caso do azeite seu erro é ignorar que a palavra vinda do árabe "az-zayt" nasceu nos olivais, mas ganhou o mundo.

Foi rápido o processo de expansão do sentido de azeite, que logo designava diversos tipos de óleo vegetal —azeite de dendê, por exemplo— e até de origem animal.

Em outras palavras, a azeitona perdeu os direitos exclusivos sobre o azeite, que de óleo extraído dela virou genérico e foi azeitar sentidos variados pelo mundo. Daí a necessidade de um qualificativo, "de oliva", para marcar seu significado primeiro e evitar mal-entendidos.

O nome disso não é pleonasmo vicioso. É só a língua se mexendo em seu espetáculo habitual de metáfora e metonímia, quer dizer, de vida. Como se sabe, nada irrita mais os sabichões.

A imagem mostra várias garrafas de azeite de abacate dispostas em uma prateleira de madeira. As garrafas têm rótulos pretos com ilustrações de abacates e gotas de azeite. Cada garrafa contém 250ml e está rotulada como "Azeite de Abacate 100%" e "Ouro de Abacate".
Azeite de abacate da fazenda Fio de Ouro, em Maria da Fé (MG) - Karime Xavier - 28.mai.25/Folhapress

(Mal se livrou do caçador de redundâncias, o pobre azeite de oliva já precisa encarar, que sina, o maníaco do sentido literal: "Como não é extraído de uma oliva só, o certo é azeite de olivas". Mas esse é outro capítulo no almanaque do sabichonismo.)

Ao afirmar que "embarcar num barco" é uma frase que chove no molhado, pois bastaria dizer "embarcar" e tudo estaria dito, o caçador de redundâncias comete o mesmo erro de quem sustenta que o beijo grego, na Grécia, é beijo só.

Pensa que a língua é um kit de mecânica cheio de peças únicas com funções unívocas, quando uma metáfora mais funcional para ela é um kit de química, com as palavras se entrechocando e gerando uma infinidade de reações, muitas surpreendentes, algumas com cara de magia.

Logotipo do Banco Master - Reuters

Mesmo em seus próprios termos, o caçador de redundâncias precisa melhorar. Neste momento, por insuficiência etimológica, está deixando passar uma oportunidade rara de nos encher a paciência.

Ocorre que o Banco Master foi à bancarrota, o que poderia lhe dar mais munição do que um armazém cheio de tonéis de azeite. A palavra bancarrota chegou ao português no século 16, vinda do italiano "banca rotta" —literalmente, banco quebrado.

Claro que, mais uma vez, esse é só o começo da história. Desde então, como o azeite, a bancarrota transbordou do sentido original para virar sinônimo de ruína ou falência, literal ou figurada, de empresas, instituições, pessoas, patrimônios materiais ou morais. O caçador de redundâncias não sabe de nada.

STJ, que teve ministro afastado, uniformiza interpretação de leis; entenda funções do tribunal, FSP

 A corte é composta por 33 ministros escolhidos pelo presidente da República a partir de uma lista tríplice elaborada pelo tribunal. Cabe ao tribunal resolver disputas civis e criminais que não são da alçada da Justiça do Trabalho, Militar ou Eleitoral.

Constituição fixa que os nomes devem ser de brasileiros com idade de 35 a 70 anos, de notável saber jurídico e reputação ilibada.

A escolha, assim como ocorre com o STF (Supremo Tribunal Federal), precisa ser aprovada pela maioria do Senado Federal.

Um terço das vagas é reservada a juízes dos TRFs (Tribunais Regionais Federais), outro a desembargadores dos Tribunais de Justiça estaduais, e a última parte a advogados e membros do Ministério Público.

Fora do tribunal, ministros do STJ são indicados para a função de corregedor nacional de Justiça no CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Eles também têm direito a duas vagas na composição titular do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

De acordo com o tribunal, a estrutura do STJ é dividida em plenário, Corte Especial, seções e turmas.

O plenário conta com todos os 33 ministros. Ele tem uma competência mais administrativa, como eleição de cargos diretivos e elaboração de listas tríplices.

A Corte Especial é composta pelos 15 ministros mais antigos do tribunal. Ela é responsável, por exemplo, por julgar as ações penais contra autoridades e resolver divergências de entendimento.

Existem ainda as seções e turmas especializadas em direito público, privado ou penal.

Segundo a corte, o principal tipo de caso julgado pelo STJ é o recurso especial. É a partir dessa classe processual que a corte uniformiza um entendimento sobre leis federais. Se o tribunal de um estado tem determinado entendimento sobre o dispositivo de uma legislação, por exemplo, e outra corte estadual segue linha divergente, caberá ao STJ decidir qual linha deve prevalecer.

O tribunal também é responsável por julgar casos criminais de governadores, desembargadores, conselheiros dos Tribunais de Contas de estados, do DF e de municípios, juízes dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Trabalho e membros do Ministério Público da União que atuem perante tribunais.

Também cabe ao STJ julgar recursos em habeas corpus ou em mandados de segurança negados nos tribunais regionais, estaduais ou do DF.

Em caso de grave violação de direitos humanos, o STJ pode federalizar processos, isto é, tirar casos da Justiça comum para a Federal.