quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Decisão de Dino sobre fim dos supersalários pode destravar reforma administrativa, diz relator, OESP

 BRASÍLIA – O deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ), relator da reforma administrativa disse ao Estadão que a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF) de determinar a suspensão de pagamentos de penduricalhos pelos Três Poderes, poderá fazer acelerar a tramitação da proposta na Câmara.

Ele, que estava descrente que o tema pudesse sequer entrar em pauta neste ano, agora crê que há uma razão para o Parlamento votar a matéria.

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“O ambiente que você tinha no passado, que você tinha ontem, da política querendo empurrar para frente, ‘vamos falar depois da eleição’, a decisão do ministro Dino pode ir ao contrário e acelerar essa discussão”, afirmou.

O texto da reforma administrativa prevê o fim dos penduricalhos e um limite no salário de funcionários públicos. Benefícios fora do teto deverão ser transitórios e pagos em situações excepcionais, e não mais a todos os servidores de uma categoria de forma indistinta e generalizada, como acontece hoje. Nesse caso, as verbas que podem ser pagas fora do limite deverão ser aprovadas em lei pelo Congresso Nacional.

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O placar do Estadão revelou que 217 dos 513 deputados federais são favoráveis à extinção de remunerações pagas acima do teto salarial do funcionalismo público, os chamados supersalários, presente no texto da reforma administrativa.

Pela decisão, os pagamentos de adicionais que não estão previstos em lei devem ser suspensos após 60 dias. Até lá, os Três Poderes deverão rever todos os itens pagos como adicionais salariais e que acabam contribuindo para que vencimentos no funcionalismo ultrapassem o teto que é o salário de um ministro do STF, equivalente hoje a R$ 46,3 mil.

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Dino defendeu que o Congresso regule uma lei que defina quais são as verbas indenizatórias “realmente admissíveis como exceção ao teto e ao subteto”.

Ele intimou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para que tomem as medidas políticas para suprir a omissão inconstitucional.

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A decisão de Dino foi bem recebida por Pedro Paulo. Ele acredita que uma ação “excepcional, moralizadora, provoca o debate e é corajosa”. “Fiquei feliz que ele traz no texto elementos que tratei na reforma”, afirmou. “Essa decisão reflete a indignação da sociedade.”

Para o parlamentar isso também é fruto da indisposição da elite do funcionalismo público em dialogar com o Congresso para encontrar uma solução pelo consenso no Legislativo.

“Essa negativa da política (por representantes da elite dos servidores públicos brasileiros) em negociar dá nisso. Veio aí uma decisão extemporânea. Se não foi por bem, vai à força, ao invés de fazer no ambiente do Parlamento. A negativa desses segmentos não quererem negociar acaba nisso”, afirmou.

Ele acredita que haverá reação e por isso a determinação é “corajosa”. “O ministro jogou uma granada. Jogou uma bomba com efeito nuclear. A quantidade hoje dessa elite do servidor que recebe esses penduricalhos é muito grande. Vai ter uma fortíssima reação. Por isso é corajosa. Aliás a decisão é mais radical que um texto, que tem um aspecto negociado”, disse.

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Antes da determinação, Paulo acreditava que a reforma dificilmente avançaria na Câmara, e que em ano eleitoral dificilmente os parlamentares vão querer tratar de temas espinhosos que envolvem corte de supersalários e penduricalhos do funcionalismo público.

Entre os governistas, a determinação do ministro do STF foi celebrada. “Nós aplaudimos a decisão do ministro Flávio Dino, e ele na verdade se antecipa a uma decisão que o presidente Lula já tinha tomado, de vetar todos os aumentos acima do teto, seja do Judiciário, do Legislativo. Essa coisa o presidente ia fazer. Nós da bancada temos uma proposta, para que nenhum servidor ganhe acima do teto e a sociedade vai aplaudir”, afirmou Lindbergh Farias (PT-RJ), que foi líder do PT na Casa até o final de janeiro.

O líder do PDT na Câmara, Mário Heringer (MG) vê com bons olhos a decisão do ministro Flávio Dino e crê que pode dar impulso para a reforma administrativa neste ano. “Eu acredito que pode ajudar a avançar a reforma administrativa. Agora é um texto difícil, porque interesses de tudo quanto é Poder. E quando tem muito interesse, tem muita dificuldade de concatenar interesses e sair uma coisa razoável. Mas de certa forma possibilita avanço”, afirmou.

A determinação teve boa repercussão até mesmo na oposição. “É uma avaliação correta, da transparência, da moralidade e do cumprimento daquilo que está previsto na Constituição. Sempre se cria uma artifício para furar esse limite”, disse o deputado federal Mendonça Filho (União-PE), que fez críticas ao governo. “O governo do PT nunca olhou pra isso, deixou isso de lado.”

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Já o senador Carlos Portinho (RJ), líder do PL no Senado afirmou que é uma “decisão que tem que ser elogiada”. “Temos cobrado, eu pessoalmente na CCJ, em todas as reuniões, o avanço do fim dos penduricalhos”, afirmou. Um projeto sobre o tema tramita nessa Casa – essa matéria já tinha sido aprovada na Câmara em 2021 e está travada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) desde aquele ano.

“A decisão vem em boa hora e obriga o Parlamento a se manifestar, a avançar num projeto de lei. Não dá”, disse o senador.

A avaliação inicial de outros líderes da Câmara é que não deverá haver maior reação do Parlamento dada a popularidade do tema do fim dos supersalários e pelo entendimento que o Congresso Nacional não é o maior beneficiário disso.

Apesar dos pontos elencados, nesta última terça-feira, 3, um projeto de lei que concede reajuste “fura-teto” no salário de servidores da Câmara e outra proposta que estabelece um novo plano de carreira para servidores do Senado, também com reajustes na remuneração.

A centenária usina hidrelétrica Henry Borden ainda é estratégica- V icente Vilardaga- FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

Não há quem não tenha visto, ao ir ou voltar da Baixada Santista, um conjunto de oito grandes tubulações que se fundem à paisagem e desce uma encosta íngreme de 720 metros da Serra do Mar, desembocando em Cubatão. É uma imagem impactante. Intriga os adultos e impressiona as crianças. Fica fácil perceber que se trata de uma obra de engenharia grandiosa.

A usina hidrelétrica Henry Borden, cuja primeira unidade entrou em operação em 1926, foi construída pela Light para atender à demanda imediata e futura por energia em São Paulo. A cidade crescia velozmente, se aproximava de 700 mil habitantes e todos queriam luz elétrica.

Vista de um morro coberto por vegetação densa com várias linhas de transmissão de energia elétrica descendo em paralelo pela encosta. O céu está nublado e há árvores e arbustos na base do morro.
A água da Billings passa pela casa de válvulas da usina, desce do alto da serra e chega em Cubatão. - Zanone Fraissat/Folhapress

No artigo "São Paulo às Escuras", publicado no site do Centro da Memória da Eletricidade no Brasil, o historiador da UFF (Universidade Federal Fluminense) Paulo Brandi diz que, naquela época, São Paulo havia ultrapassado o Rio de Janeiro como maior centro industrial do país e o número de consumidores da Light na cidade já passava de 55 mil, entre residências, estabelecimentos comerciais e industriais. No final da década chegou a 140 mil.

A Henry Borden foi a resposta da Light a uma crise de energia causada por uma estiagem prolongada em 1924 e 1925. A cidade ficou no escuro e houve um longo racionamento. Brandi conta que, em abril, "São Paulo estava à beira do colapso energético":

O reservatório de Guarapiranga registrava apenas 10% de sua capacidade e o de Itupararanga, 4%, tendo a vazão do rio Sorocaba baixado 62%. As duas hidrelétricas da Light, Parnaíba e Itupararanga, e a termelétrica Paula Souza conseguiam gerar somente 43 MW para uma demanda de quase 60 MW.

Usina Henry Borden
Vista da usina em 1966 mostra o declive acentuado da Serra do Mar e a sequência de tubulações - Correio da Manhã/Arquivo Nacional

A nova hidrelétrica veio no momento certo. A empresa já vinha estudando o projeto desde 1920 e ele foi concluído em tempo recorde. Estava muito acima do padrão das usinas que já alimentavam São Paulo, tinha dez vezes mais potência. Era a maior obra do seu tipo feita no Hemisfério Sul. Em 1932, na Revolução Constitucionalista, foi bombardeada.

A Henry Borden nasceu com capacidade instalada de 469 MW, número de metrópole. Ao longo dos anos 1950 foram feitas obras de ampliação. A usina ganhou seis condutos subterrâneos e teve sua capacidade elevada para 889 MW, suficiente para atender uma cidade de dois milhões de habitantes.

Para conseguir água para mover sua usina, a Light fez um projeto que envolveu a inversão do curso do rio Pinheiros.Em vez de desaguar no Tietê, passou a se dirigir para a represa Billings, por meio das usinas elevatórias da Traição e de Pedreira, e fornecer água para o sistema. A represa também foi projetada pela empresa. Por causa da poluição, desde 1992, o Pinheiros só pode se conectar com a Billings em razão das cheias.

Sala de controle com painéis de instrumentos analógicos e digitais alinhados na parede. Um operador sentado de costas em cadeira preta monitora telas de computador em mesa clara, com equipamentos e copos ao redor. Ambiente interno com iluminação artificial e piso claro.
Central de controle da Henry Borden pode elevar produção de 19 MW para 889 MW em 10 minutos. - Zanone Fraissat/Folhapress

A usina continua tendo função estratégica para o sistema elétrico da Região Metropolitana de São Paulo e da Baixada Santista. Até os anos 1970, fornecia metade da energia da cidade e hoje garante a segurança energética e atende demandas de pico de consumo regularmente. É uma usina de emergência, um backup do SIN (Sistema Interligado Nacional), capaz de sair de 19 MW para 889 MW em cerca de 10 minutos.

A primeira usina a abastecer São Paulo com eletricidade foi a de Parnaíba, hoje conhecida como Edgard de Souza, no rio Tietê. Inaugurada em 1901, tinha capacidade inicial de produção de 2 MW. Foi construída pela Light para movimentar seus bondes, que começaram a funcionar na cidade um ano antes.

Entre 1911 e 1914, a Light ergueu a usina de Itupararanga, que tem três unidades geradoras, com capacidade instalada de 37,5 MW. Ela aproveita o potencial energético do Salto do Itupararanga, no rio Sorocaba.

O aumento de capacidade das usinas da Light que atendem São Paulo ao longo do tempo, de Parnaíba a Henry Borden, reflete a expansão vertiginosa do consumo de eletricidade em São Paulo na primeira metade do século. Também é um importante indicador de desenvolvimento urbano.

Ministério Público denuncia Sidney Oliveira, da Ultrafarma, sob acusação de corrupção, FSP

 Ana Paula Branco

São Paulo

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) apresentou denúncia criminal contra o empresário Sidney Oliveira, dono da rede Ultrafarma, e dois ex-auditores fiscais da Sefaz-SP (Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo), aprofundando a acusação de um suposto esquema de corrupção envolvendo a liberação e o inflacionamento de créditos tributários de ICMS.

É a primeira vez que o empresário é denunciado formalmente pelo Ministério Público nesse caso. Preso temporariamente em agosto de 2025 na deflagração da Operação Ícaro, ele foi solto dias depois, e teve todas as medidas cautelares revogadas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, justamente porque ainda não havia acusação formal apresentada contra ele naquele momento.

A imagem mostra uma grande placa publicitária com um homem sorridente, vestindo um terno escuro e uma gravata clara. Ele está com a mão sobre o coração e tem óculos. Acima dele, está escrito 'MAIS PERTO DE VOCÊ' em letras grandes e amarelas. Ao fundo, pode-se ver o interior de uma loja com prateleiras cheias de produtos.
Fachada de unidade da Ultrafarma, na avenida Jabaquara, na zona sul de São Paulo, com imagem do seu fundador, Sidney Oliveira - Rafaela Araújo -13.ago.25/Folhapress

Agora, o MP-SP sustenta que reuniu provas mais robustas da participação direta do empresário no esquema, incluindo mensagens, dados de geolocalização e detalhamento da dinâmica dos pagamentos de propina em dinheiro a auditores fiscais.

A denúncia também quantifica o suposto benefício indevido, estimado em R$ 327 milhões em créditos de ICMS, e descreve a atuação de Sidney como dirigente do esquema, com ordens repassadas a subordinados e interlocução direta com os fiscais.

Folha não localizou a nova defesa do empresário. Os advogados que o acompanhavam durante a operação no ano passado informaram que deixaram o caso.

Diante da "elevada gravidade concreta das condutas", o MP-SP pediu nova prisão preventiva dos auditores fiscais Artur Gomes da Silva Neto —atualmente preso em Potim (SP)— e Alberto Toshio Murakami, foragido.

De acordo com os promotores, há fortes indícios de que Murakami tenha fugido para os Estados Unidos, onde possuiria um imóvel de alto padrão avaliado em cerca de US$ 1,3 milhão (cerca de R$ 6,8 milhões) no estado de Maryland. O MP-SP solicitou sua inclusão na Rede de Difusão Vermelha da Interpol.

A reportagem entrou em contato com a defesa de Gomes Neto, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. Os advogados de Murakami não foram localizados.

Para Sidney Oliveira e demais envolvidos, como um diretor fiscal e um assistente da Ultrafarma, foram pedidas medidas alternativas, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e a apreensão de passaportes.

A investigação, feita pelo Gedec (Grupo Especial de Repressão a Delitos Econômicos), aponta que os auditores teriam recebido propina para favorecer a Ultrafarma entre 2021 e 2025, período já investigado em denúncias anteriores apresentadas pelo MP.

Segundo a promotoria, os profissionais atuavam como uma espécie de assessoria tributária paralela da Ultrafarma, agilizando procedimentos administrativos e ampliando valores de ressarcimento de ICMS na modalidade substituição tributária (ICMS-ST), em troca de pagamentos feitos em dinheiro vivo.

O ESQUEMA

De acordo com os investigadores, os pedidos de ressarcimento dos créditos fiscais seguiam as regras da portaria CAT 42/2018, que estabelece um rito técnico e demorado para a devolução de créditos tributários. Esse gargalo administrativo teria sido explorado pelos fiscais para oferecer facilidades indevidas à Ultrafarma.

A substituição tributária permite ao governo recolher o imposto antecipadamente na indústria ou no importador, mas abre espaço para pedidos de ressarcimento quando o valor pago supera o efetivamente devido. É nessa brecha que, segundo os investigadores da Ícaro, empresas e escritórios de consultoria tributária estruturaram esquemas fraudulentos para inflar créditos e reduzir artificialmente tributos.

Gomes Neto, que ocupava cargo estratégico na Difis (Diretoria de Fiscalização), era responsável por autorizar a cessão dos créditos a terceiros, o que permitiria à Ultrafarma transformar o ressarcimento em liquidez imediata. Já Murakami, lotado no posto fiscal onde os pedidos eram protocolados, emitia pareceres técnicos favoráveis que viabilizavam a liberação dos valores, segundo a denúncia do MP-SP.

Para os promotores, os créditos obtidos ilegalmente funcionavam como um ativo financeiro, ampliado artificialmente e comercializado após o deferimento administrativo.

A nova denúncia se apoia em quebras de sigilo telemático e em dados de localização de celulares. Conversas extraídas do WhatsApp de Sidney Oliveira mostram sua assistente pessoal organizando a entrega de valores aos fiscais.

Nas mensagens, a propina aparece codificada como "vinho", enquanto Gomes Neto é chamado de "amigo" ou "King". Em um dos trechos citados na denúncia, a assistente informa que o "amigo" havia acabado de recolher "250", referência, segundo o MP-SP, a R$ 250 mil em dinheiro.

De acordo com o MP-SP, dados de geolocalização indicam que, nas datas mencionadas nas mensagens, Gomes Neto esteve fisicamente na sede da Ultrafarma, reforçando a suspeita de pagamentos presenciais. Sidney Oliveira, afirma a investigação, não apenas acompanhava o funcionamento do esquema, mas também o dirigia, dando ordens diretas aos seus subordinados, que as repassavam ao fiscal.