terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Para que serve a 'terceira via'?, Joel Pinheiro da Fonseca- FSP

 O poder de Lula sobre a esquerda brasileira é maior do que o de Bolsonaro sobre a direita. É possível vislumbrar uma direita não bolsonarista; um sonho distante, é verdade, mas os nomes estão aí. Já na esquerda, o pós-Lula encontra apenas o silêncio total.

Dito isso, por mais nomes de direita ou centro-direita que apareçam, Flávio Bolsonaro parece seguro em seu trono. Até agora, segue firme a premissa de que o candidato que disputará o segundo turno contra Lula será aquele apoiado por Jair Bolsonaro. Jair escolheu seu filho Flávio. Será ele, portanto, que irá para o segundo turno. É o que as pesquisas têm mostrado.

Quatro homens vestidos formalmente posam juntos em ambiente interno com fundo claro e código QR projetado. Um deles segura e olha para um celular, enquanto os outros sorriem e observam.
Os governadores Eduardo Leite, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr, em encontro em São Paulo - Eduardo Knapp - 28.jan.26/Folhapress

Uma coisa é certa: se a "terceira via" —que, nesta eleição, significa a direita não-bolsonarista— quiser ter alguma chance de superar Flávio, não pode dividir seu já exíguo potencial de votos entre quatro ou cinco candidatos. Nesse sentido, a ida de Caiado para o PSD é uma boa notícia para a terceira via.

Além deles, Romeu Zema corre por fora, não se sabe se para sair candidato e puxar votos para o partido Novo ou se aliar a Flávio desde já. Se aderir ao bolsonarismo, será menos um nome para dividir os votos da terceira via. Além dele, há Renan Santos apostando na estratégia "Pablo Marçal": mostrar-se mais radical e antissistema que o candidato de Bolsonaro, tentando reacender a chama de revolucionário que, com a escolha do convencional Flávio como representante do movimento, foi definitivamente apagada.

Ainda assim, vendo Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite juntos nesse ato de grandeza que é se comprometer a apoiar a candidatura de apenas um deles, luto para espantar o pensamento de que eles disputam a oportunidade de ter 5% na eleição presidencial.

A não ser que algum dos governadores tenha uma carta bombástica na manga que vire o jogo até outubro, é difícil imaginar uma mudança. Ou alguém acha que as multidões ficarão empolgadas com um "bom gestor" quando a campanha começar?

O Brasil tem hoje muitos governadores muito bem avaliados e que têm conquistas a mostrar. Caiado pode apontar a queda expressiva dos homicídios em Goiás. Zema, o crescimento da economia mineira. Ratinho Jr., a subida do Paraná para o primeiro lugar da Ideb. Isso não se limita à direita. No Espírito Santo e no Piauí, algo similar poderia ser dito. O problema é que o perfil menos chamativo e mais eficaz, que busca moderação e diálogo em vez de conflito constante, falha em capturar a atenção e, portanto, a adesão entusiasmada de parte do público para ter uma base da qual partir para a disputa no primeiro turno.

E, no entanto, é importante a existência de uma terceira via. Primeiro porque, num cenário polarizado, mesmo os 5% dos votos podem ser o fiel da balança no segundo turno. Para conseguir esse apoio, os candidatos mais bem votados precisam ampliar sua frente e caminhar para o centro, como fez Lula ao buscar o apoio de Simone Tebet em 2022.

Além disso, o amanhã colherá aquilo que se plantou hoje. Lula e Bolsonaro em breve deixarão o campo de batalha. O espaço se abrirá para novas lideranças. Já ser conhecido e ter tido um desempenho respeitável é um primeiro passo. Todo mundo que gostaria de ver um Brasil menos refém de militâncias polarizadas torce um pouquinho por uma terceira via.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Projeto tira trecho do córrego do Sapateiro das sombras, FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

O córrego do Sapateiro tem suas nascentes no bairro Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, uma delas entre as ruas Lutfalla Salim Achoa e Rino Pieralini. Desce em direção ao parque Ibirapuera, onde forma os três lagos artificiais. Depois alcança a avenida Juscelino Kubitschek para desaguar no rio Pinheiros na altura da Vila Olímpia. Tem 6,6 km de extensão e é mais um córrego da cidade escondido pelo concreto.

Segundo mapeamento do Instituto Rios e Ruas, o município tem 800 rios, córregos e corpos d'água na sua área urbana, uma grande parte soterrada como o Sapateiro. Sempre para favorecer o transporte rodoviário, a cidade cresceu com ruas e avenidas construídas em cima dos rios, associados com enchentes, esgoto, mau cheiro e doenças. A primeira canalização em São Paulo foi a do córrego Anhangabaú, no começo do século 20.

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Ponte sobre um dos lagos formados pelo córrego do Sapateiro no parque Ibirapuera - Zanone Fraissat/Folhapress

Muitas pessoas ignoram ou desprezam os rios urbanos; são vistos apenas como algo sujo. Muitos moram em cima deles, mas não sabem de sua existência. Córregos que fizeram parte da cultura dos bairros e, inclusive, ajudaram a moldar seus perímetros correm hoje em obscuras galerias de águas pluviais.

"O que o Rio e Ruas faz é levar para a população o que foi sonegado, o que foi escondido", diz o arquiteto José Bueno, um dos idealizadores do Instituto, surgido em 2010. "Os rios são fios condutores da experiência, da reflexão e da conversa: são a plataforma para pensar a cidade. A gente poderia dividir em São Paulo em bairros hídricos, orientados pelas bacias hidrográficas."

Um dos objetivos do instituto é conseguir colocar sob a luz do sol pequenos trechos de rios da cidade e lembrar que eles existem. Um caso é o do Sapateiro, cuja nascente foi revitalizada. Há um estudo publicado pela Guajava Arquitetura nos cadernos de Drenagem da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras que propõe a abertura de um trecho de cerca de 150 m do córrego na rua Astolfo de Araújo, na Vila Mariana. Na rua, há duas grades que permitem ver a galeria fluvial. Perto delas dá para sentir o péssimo odor.

Nascente do córrego do Sapateiro
Entrada da nascente do córrego do Sapateiro escondida no final de uma rua na Vila Mariana - Vicente Vilardaga/Folhapress

"O que propomos não é abrir o córrego como originalmente ele era porque isso é impossível, mas podemos trazer de volta uma vazão mínima com sua própria água, que a gente pega mais a montante", afirma Riciane Pombo, diretora da Guajava, parceira do Rios e Ruas. "É um fio d'água que a gente traz para cima do asfalto." A iniciativa tem um efeito simbólico.

Outro trecho que pode ser aberto na bacia do Sapateiro fica no canteiro central em frente ao portão 10 do parque Ibirapuera e perto do Obelisco. É um pedaço de 50 metros de um afluente, o córrego Boa Vista.

Embora ainda não haja nada de concreto, as propostas de abertura de rios estão sendo mais bem acolhidas pelo governo municipal pelos seus efeitos positivos para a drenagem e a paisagem. Alguns rios que podem voltar à tona em algum trecho são o Saracura Mirim, afluente do Anhangabaú também canalizado no começo do século 20, e o das Corujas e o do Bexiga.

Rua Astolfo de Araújo
Pequeno canal do córrego Saracura é projeto alternativo de drenagem na rua Astolfo de Araújo - Vicente Vilardaga

Para Bueno, é preciso gerar pequenos episódios para se aumentar a discussão sobre os rios paulistanos. "Não estou falando em botar o Itororó para correr na avenida 23 de Maio. Isso não vai rolar agora. O importante é mostrar quanto a São Paulo ganha com um rio aberto, saneado, uma área regenerada, um parque alagável ou um jardim de chuva", diz. "A gente está a passos lentos, mas é um caminho sem volta com a cidade mudando seu modelo de desenvolvimento e urbanização."

O Rio e Ruas começa neste mês um projeto de expedições aos rios ocultos da cidade bancado por uma emenda parlamentar do gabinete da vereadora Renata Falzoni (PSB) e aprovado pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Serão dez passeios, um por mês e aos fins de semana, incluindo Jardim Pantanal, Território do Jaraguá, Parque Guarapiranga e Bacia do Rio Saracura. O primeiro, dia 28 de fevereiro, será uma pedalada pela ciclovia do rio Pinheiros até o parque Jurubatuba. A participação é gratuita.

Hélio Schwartsman - A mágica de Kassab, FSP

 

São Paulo

PSD de Gilberto Kassab vai mesmo lançar candidato presidencial? Kassab é um operador político competente. Ele praticamente monopolizou o campo dos potenciais postulantes de direita e centro-direita. Estão sob as asas de sua agremiação Ratinho JúniorEduardo Leite e Ronaldo Caiado. Só Romeu Zema corre por fora pelo Novo.

O interessante é que qualquer um deles tem mais chance de derrotar Lula num eventual segundo turno do que Flávio Bolsonaro, o candidato da direita radical. O problema é justamente chegar ao segundo turno, já que há no eleitorado de 15% a 20% de bolsonaristas raiz que votam cegamente em qualquer coisa que o ex-presidente e atual presidiário indicar. Se o sobrenome proposto começar com B e terminar com O, o apelo fica irresistível. A moral da história, se é que essa história tem moral, é que é difícil para um postulante do campo conservador superar Flávio no primeiro turno. Mas difícil não é sinônimo de impossível. E o PSD não reclamaria se aparecesse uma chance de levar a Presidência com candidato próprio.

Homem de meia-idade com cabelo escuro penteado para trás, vestindo camisa polo preta, sentado em cadeira com estofado listrado em tons terrosos. Ao fundo, parede bege com dois quadros coloridos, um com padrão quadriculado multicolorido e outro em preto e branco.
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, durante entrevista em sua casa na zona oeste de São Paulo - Igor Gielow - 28.jan.26/Folhapress

Existem, contudo, limites ontológicos para a atuação dessa legenda. Ao fundar a sigla em 2011, Kassab foi profético ao dizer que ela não seria de esquerda, de direita nem de centro. O PSD é uma espécie de PaSsárgaDa partidária, onde todos podem ser felizes, independentemente da ideologia que abracem. É uma agremiação em que, respeitados os feudos, lulistas e bolsonaristas convivem em relativa harmonia. A agremiação tem ministros no Planalto e Kassab é ele próprio secretário do governador Tarcísio de Freitas, um bolsonarista nada enrustido.

O PSD é também um partido de cooptação. Ele vem crescendo nas urnas, mas em boa medida por atrair para suas fileiras, às vésperas de pleitos, políticos já estabelecidos, mas que estão insatisfeitos com suas legendas. Passárgada tem o seu apelo.

Minha impressão é que a legenda até poderá entrar na corrida presidencial, mas desde que isso não ameace seu DNA desideológico que é, no fim das contas, o segredo de seu sucesso.