domingo, 1 de fevereiro de 2026

Samuel Wainer questionou quem falhou em 1954: Vargas ou o povo, FSP 105

 Vinte e cinco anos depois, Samuel Wainer ainda se perguntava: quem falhou em 24 de agosto de 1954? Getúlio Vargas, que apertou o gatilho, ou o povo, que não lhe transmitiu "a mensagem de resistência à luta"?

O jornalista, fundador do jornal Última Hora e amigo próximo de Vargas, escreveu em crônica publicada na Folha, nos anos 1979, sobre os dias que antecederam o suicídio do presidente. E lembrou que o clima de tragédia já estava presente desde a campanha de 1950.

O jornalista Samuel Wainer - 1980/Folhapress

"Se for para o bem do povo, levai-me convosco", exclamou Getúlio ao aceitar a candidatura. E alertou sobre "os perigos e as ameaças que rondavam a sua porta", aventando "o sacrifício eventual de sua própria vida".

Wainer relatou um episódio revelador em Natal (RN), durante a campanha. Quando recebeu um telegrama de Assis Chateaubriand perguntando sobre um suposto atentado, Getúlio ditou pessoalmente a resposta: "Se atentado houvera, só poderia ser por excesso de amor popular".

Eleito com quase 50% dos votos, Vargas tentou um ministério de união nacional. "De nada adiantou essa estratégia conciliatória", escreveu Wainer. A oposição crescia: empresários, militares ressentidos pela deposição de 1945, interesses internacionais temerosos do nacionalismo getulista.

O jornalista terminou com a pergunta que não calava: "Falhou Getúlio, que jamais fora o líder revolucionário que seus adversários procuravam tendenciosamente pintar? Ou falhou o povo, que não soube lhe transmitir a mensagem de resistência à luta?"

Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.

24 de agosto de 1954: falhou Getúlio ou falhou o povo? (24/11/1979)

Quem teve o privilégio de acompanhar de perto o retorno de Getúlio Vargas ao poder, em 1950, sentiu frequentemente o clima de tragédia que acompanhava a marcha do reencontro do ex-ditador com o povo do seu País. No seu patético discurso de aceitação da candidatura à sucessão do general Dutra, por volta de junho de 1950, Getúlio pintou em cores sombrias os dias que o aguardavam. "Se for para o bem do povo — exclamou ele — levai-me convosco". Mas alertou seus correligionários e amigos para os perigos e as ameaças que rondavam a sua porta. E aventou mesmo o sacrifício eventual de sua própria vida, exposta à sanha dos que temiam um eventual revanchismo na sua retomada do poder pelo voto democrático.

Não foi, aliás, sem razão que sua família, especialmente Alzira, sua filha mais atuante politicamente, procurou afastá-lo do desafio que o esperava nas urnas.

Mas, em vão. O crescente clamor nacional do "queremismo", a extensão cada vez mais espalhada do "Ele voltará", acabaram por quebrar as resistências de Getúlio. Provavelmente, a possibilidade de seu mito populista ser absorvido por alguém que ele não considerava digno de herdá-lo — no caso, em especial, Ademar de Barros — também teria influído na sua decisão de reiniciar a sua grande jornada, iniciada em 30, reformulada em 37 e cortada em 45. Mas, sem dúvida, foi seu sentimento de compromisso com o povo e sua convicção de que o povo não lhe falharia mais que pesou definitivamente na sua decisão.

"ATENTADO? SÓ POR EXCESSO DE AMOR"

A esse propósito, recorda-se o repórter de um episódio ocorrido em julho de 50, que marca significativamente os laços emocionais que prendiam Vargas ao povo. Estávamos em Natal, em plena campanha eleitoral. As avassaladoras multidões que percorriam o chão calcinado e seco do Norte ao encontro de Getúlio vinham num crescendo incontrolável à medida que a caravana avançava mais para o Sul. Em certos momentos, o transbordamento passional daquelas multidões fanatizadas, como que tomadas pela presença hipnótica do grande caudilho, faziam lembrar a figura de Gandhi e seu fascínio sobre as massas hindus; tão parecidas fisicamente com o nosso nordestino.

Essa quase apocalíptica explosão de sentimento popular em torno de Getúlio acabaria por chegar ao Sul. Estranhamente ali continuava prevalecendo a convicção de que a máquina oficial eleitoral do PSD, mais uma vez fortalecida pela divisão da classe média que optava, em sua maioria, pelo brigadeiro Eduardo Gomes, acabaria dando a vitória ao seu inexpressivo candidato, o mineiro Cristiano Machado.

Nessa oportunidade, este repórter recebeu um telegrama urgente de Assis Chateaubriand, o todo poderoso comandante dos "Diários Associados", para os quais fazia a cobertura da campanha de Getúlio. Pedia Chateaubriand confirmação ou desmentido de que teria ocorrido no capital do Rio Grande do Norte um atentado contra a vida de Getúlio Vargas. Mas, este, ao ler o despacho, ditou pessoalmente a sua resposta: "Informe o Assis, de que não houve atentado algum. Mas se atentado houvera, só poderia ser por excesso de amor popular".

Carregado nos braços do povo, eleito por quase 50% do povo, enquanto os outros 50% pulverizavam-se entre o brigadeiro Eduardo Gomes, Cristiano Machado e votos nulos e em branco. Getúlio sabia que não poderia contar com a tolerância e a compreensão de seus velhos adversários. E aos quais agora se aliavam novos e poderosos interesses monopolistas internacionais, temerosos da linha nacionalista e de justiça social que Vargas havia prometido na sua campanha.

A criação de Volta Redonda e a nacionalização das riquezas minerais do subsolo, a primeira em 42 e a segunda ainda em 1939, faziam temer justamente uma extensão menos controlável das tendências emancipacionistas de Getúlio. Além do mais, o fato de ser candidato oficial do PTB atraía contra ele a feroz oposição dos grupos empresariais mais conservadores do País, especialmente os da área do comércio. Finalmente, o surgimento do peronismo na Argentina, em plena ascensão nos anos iniciais da década de 50, contribuía para aliar com seu "justicialismo" que Perón dizia inspirado em Vargas, as inquietações das classes dirigentes menos esclarecidas do Brasil. Que não hesitaram, como pôde comprovar a UDN, em tentar sob sofismas jurídicos, mais absurdos inclusive do que tentaram abolir a impossibilidade de reconhecimento da vitória eleitoral de Getúlio.

AMPLIA-SE A FRENTE ANTI–VARGAS

Finalmente, não deve ser minimizada larga parcela das Forças Armadas que, depois de conspirar contra Getúlio Vargas durante largos anos, conseguiu finalmente sua deposição em 1945.

A exacerbada oposição civil naturalmente não deixou de capitalizar ressentimentos militares nascidos pela volta de um homem por eles deposto. Volta que era explorada como uma humilhação e uma revanche contra os vitoriosos de 29 de outubro de 45. A frente anti–Vargas se consolidava e ampliava suas ambições.

Assim, depois da posse de Getúlio, que representou um doloroso parto político, partiu ele à busca da consolidação do seu governo. E constituiu como meta um ministério de união nacional. Dele faziam parte o PSD, representado por homens como Horácio Lafer; a UDN, por dirigentes como João Cleofas, mitos nacionais como Osvaldo Aranha. E naturalmente homens do PTB, além de franco atiradores como Simões Filho, o todo poderoso dono de "A Tarde", da Bahia, e Ricardo Jafet, o industrial e financista mais chegado a Ademar de Barros, o líder do PSP.

De nada adiantou essa estratégia conciliatória de Getúlio. Talvez tenha sido até mesmo prejudicial, enfraquecendo a sua autoridade e debilitando os seus laços com o povo. Além do mais, durante 15 anos de poder contínuo, ora como ditador, ora como presidente, indiretamente eleito pelo Congresso em 34, novamente como ditador em 37 e finalmente como presidente, esmagadoramente consagrado pelo eleitorado em 50, Getúlio deixou em sua esteira ódios e apoios incandescentes.

Mas, os que conheciam a sua ação e o seu pensamento, sabiam que ele era um homem tranquilo. A sua maneira, tão contraditória e imprevisível quanto a própria natureza do povo que o idolatrava, Getúlio parecia ter consciência de que apesar dos zig-zags de sua ascensão, queda e retorno ao poder ele nunca se afastara dos rumos que o levaram a chefiar a primeira revolução popular do Brasil. Algumas vezes mencionava a Revolução Mexicana de 1910, a primeira revolução popular deste século. E não escondia certo desdém pelo precipício do autoritarismo e o monopólio partidário que enterrou num passado obscuro; sem glória, nem culto, os verdadeiros heróis populares da derrubada da oligarquia feudal e clerical mexicana, os Pancho Villa e Zapatas.

FALHOU GETÚLIO OU FALHOU O POVO?

Getúlio, nos raros momentos de confidência que concedia aos que o cercavam, deixava transparecer que sua decisão de retornar ao poder, em 50, era um corolário lógico dos compromissos que o levaram a chefiar a Revolução de 30. E cuja bandeira politicamente reformista, socialmente progressista e anticolonialista economicamente, ele desejaria manter em suas mãos até o fim de seus dias.

Assim, quando a tempestade que não lhe deu uma noite de paz desde que voltou ao poder assumiu as proporções de avalanche em fins de 1953, Getúlio não pareceu surpreendido.

São hoje amplamente divulgadas algumas de suas frases no apogeu da campanha que a grande frente nacional anti-getulista, com a UDN no comando de Carlos Lacerda na sua linha de frente, conseguiram levar ao ponto de uma aparente iminente insurreição armada.

"O tiro no Lacerda é uma punhalada nas minhas costas", disse Getúlio quando soube do atentado da rua Toneleros, em que tombou morto o Major Rubens Vaz. "Quando eles tomarem assento à mesa do banquete, puxarei a toalha"; foi seu malicioso comentário quando sua deposição já parecia inevitável. Comentário feito horas antes do tiro fatal no seu coração, às 8h25 de uma manhã cinzenta de agosto de 54.

Chegamos finalmente a uma etapa em que interpretações e comentários pela era getuliana vêm finalmente despertando nos nossos atuais círculos de ciência política do conviver com Getúlio desde 1949, em seu auto-isolamento na Fazenda do Itu, até o dia de sua morte no Palácio do Catete, limitou-se a oferecer aqui apenas algumas informações objetivas sobre acontecimentos concretos que teriam levado Vargas ao suicídio. Espero que sejam úteis ao debate.

Sobre uma pergunta, cuja resposta o repórter sobre que a ciência política procure: O que falhou na ação getuliana pós-1950, que o levou ao mais dramático holocausto da história latino-americana depois do massacre heróico de Salvador Allende?

Falhou Getúlio, que jamais fora o líder revolucionário que seus adversários procuravam tendenciosamente pintar? Ou teria ele apenas um reformista conservador, incapaz portanto de operar, em 24 de agosto, o "botão" que levaria o País inevitavelmente à guerra civil? Ou falhou o povo, que não soube lhe transmitir a mensagem de resistência à luta, como lhe comunicara com tanta intensidade a mensagem de amor e ternura na sua épica jornada eleitoral de 1950?

Hélio Schwartsman - Qual é o nosso problema?, FSP

 "What´s Our Problem?", de Tim Urban, é um livro ambicioso. Tenta explicar o que há de errado com a sociedade americana e, a meu ver, acerta na mensagem central, que é a de que é preciso restaurar o liberalismo que já a caracterizou. Receio, porém, que Urban erre na dose dos ingredientes com os quais opera.

Gostei bastante dos capítulos iniciais, em que o autor faz uma espécie de faxina conceitual. Para ele, não podemos considerar a política só seu eixo tradicional de esquerda e direita, que ele chama de horizontal. Além da ideologia, há a questão dos métodos, que ele chama de eixo vertical. Nos degraus mais altos, estão esquerdistas e direitistas que debatem em cima de fatos, aceitam a ciência e respeitam instituições.

Nos degraus mais baixos, temos os zelotes, que defendem suas ideias com máxima convicção e usam todos os meios para derrotar os oponentes. No meio da escada temos um bom número de pessoas que se comportam como torcedores de futebol. Têm uma visão enviesada em favor de sua própria tribo, mas ainda reconhecem fatos básicos.

O esquema de Urban gera bons insights. No eixo horizontal, Trump é mais moderado, por exemplo, do que Ronald Reagan. O atual presidente nem parece se opor genuinamente ao aborto. E se Reagan estava ideologicamente muito à direita de Trump, no eixo vertical o ex-ator se punha nos degraus superiores. Ao menos em discursos, Reagan pregava a união de todos os americanos e defendia as instituições.

Acho que Urban perde a mão na segunda parte do livro, em que se põe a criticar o identitarismo, ao qual ele atribui, se não todos, a maior parte dos problemas políticos dos EUA. O fundamentalismo trumpista não seria mais do que uma reação de eleitores ao fundamentalismo da esquerda identitária. Até acho que esse movimento apresenta fragilidades teóricas e é uma das muitas causas do crescimento da direita, mas não na proporção sugerida pelo autor. Basta ver que a Europa, onde o identitarismo avançou bem menos, também tem problemas com a ultradireita.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Mauricio Portugal Ribeiro - A nova política ferroviária e o discurso que a acompanha, FSP

 A política ferroviária recentemente anunciada após quase três anos de governo, apesar de tardia, tem vários méritos, particularmente quando comparada ao Pro Trilhos, programa de investimentos em ferrovias por meio de autorizações ferroviárias, criado em 2021, e que deu origem às ironicamente chamadas "ferrovias de papel". Mas é preciso ajustar o discurso que a acompanha a nova política e apressar o passo.

A política tem sido apresentada como inovadora, inclusive em sua forma de financiamento. Ela tem sido qualificada como um Viability Gap Fund (VGF), evocando experiências internacionais bem-sucedidas e sustentando que esse modelo não produziria impacto fiscal direto. Contudo, desde a Antiguidade se sabe que nomina sunt consequentia rerum: os nomes seguem as coisas, não o contrário. Aliás, Shakespeare expressou a mesma ideia ao lembrar, em Romeu e Julieta, que uma rosa manteria o seu perfume mesmo que recebesse outro nome. A retórica pode ser elegante; a contabilidade pública não se deixa seduzir por ela.

Trem de carga azul com várias locomotivas e vagões segue sobre ponte elevada de concreto que cruza rio de água barrenta. Vegetação densa e área rural cercam a ponte sob céu claro.
Trem passa por ferrovia sobre rio em Rondonópolis (MT) - Zanone Fraissat - 9.nov.25/Folhapress

Trocar o nome do instrumento não altera sua natureza econômica. Chamar o pagamento de VGF não o transforma em algo distinto do que ele é: desembolso de recursos públicos durante a fase de implantação da ferrovia. Trata-se de dinheiro pago enquanto a obra acontece, caracterizando gasto primário.

Além disso, rigorosamente, a política anunciada não se constitui em um VGF. Nos modelos internacionais, o VGF pressupõe orçamento segregado, previamente constituído e institucionalmente apartado. Aparentemente, não é isso que ocorrerá no caso brasileiro. À luz da compreensão hoje dominante do princípio da unidade orçamentária, a criação de um orçamento separado para esse fim não é trivial.

Se a política ferroviária vier a concretizar uma efetiva apartação de recursos do orçamento geral especificamente para investimento em infraestrutura, isso será a realização de um antigo anseio do setor, que jamais conseguiu ser implementado de forma estável e permanente. Por ora, o que se desenha são desembolsos orçamentários ordinários, sujeitos às mesmas restrições fiscais de sempre. Denominá-los VGF não altera sua natureza orçamentária nem seu impacto fiscal.

Também não parece adequado sustentar que esse modelo seja superior às PPPs (Parcerias Público-Privadas). Na prática, trata-se de uma concessão administrativa ou patrocinada com aporte, ainda que sem pagamento de contraprestação ao longo da operação. O Estado antecipa recursos para viabilizar o investimento privado, como faria em uma PPP com aporte. A diferença está menos na economia do arranjo e mais em seu enquadramento jurídico e na narrativa fiscal que o acompanha.

Por não haver contraprestação periódica, o modelo não gera dívida contratual pública nos moldes tradicionais das PPPs. É justamente daí que decorre a afirmação de inexistência de impacto fiscal. Isso não elimina, porém, o efeito do aporte sobre o gasto primário, com incremento do déficit público nos primeiros anos da concessão e com o previsível aumento da necessidade de endividamento do ente governamental. Em um país já bastante endividado, esse efeito é relevante.

Por outro lado, como o endividamento para cobrir os déficits públicos a serem ampliados pela nova política será por meio de títulos soberanos, o custo dessa dívida certamente será menor que o de dívida por meio de PPP, que embute prêmios nem sempre amistosos para compensar o risco de o pagamento público ir parar no regime dos precatórios.

Nada disso é juridicamente irregular ou necessariamente negativo. É perfeitamente possível estruturar essa política com base na legislação sobre contabilidade pública atual, utilizando a categoria de subsídio público ali prevista. Trata-se de solução conhecida no direito financeiro. Aliás, em 2012, eu e Gabriel Galípolo defendemos publicamente, em artigo em coautoria, a realização de pagamentos públicos ao longo da obra em contratos de concessão como subsídio explícito e orçamentariamente reconhecido. Esse debate influenciou o governo na época e levou à criação da lei sobre aporte público em PPPs.

Enfim, a política anunciada é adequada e necessária para enfrentar gargalos históricos da logística brasileira. Mas é preciso apressar o seu ritmo e adequar o discurso que a acompanha. Ferrovias exigem investimento pesado, planejamento de longo prazo e coordenação entre Estado e mercado. Isso não é defeito; é o próprio manual de instruções do setor. O que fragiliza políticas dessa envergadura não é o custo que elas têm, mas a insistência em fingir que ele não existe.