segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Geração Z: marmita em casa, Louboutin na rua, OESP

 

Por Eva Roytburg (Fortune )

Quando o economista Thorstein Veblen cunhou o termo “consumo conspícuo” em 1899, ele descrevia um novo tipo de exibição social: aquele em que as pessoas compravam bens não por necessidade, mas como “troféus de sucesso”. Para Veblen, a emergente “classe ociosa” provava sua superioridade não pelo trabalho ou pela contribuição, mas por sua aparente isenção de esforço e seu poder de desperdiçar. A classe média, ansiosa por demonstrar essa distinção também, gastava uma parte desproporcional de sua renda em vestidos brilhantes e outras compras feitas para serem vistas pelos outros.

Mais de um século depois, a teoria de Veblen não desapareceu. Mas os consumidores mais jovens estão cortando cada vez mais pequenos prazeres diários e redirecionando essas economias para peças de destaque. Chipotle e Cava registraram vendas mais fracas neste outono, atribuindo a desaceleração aos jovens clientes que agora levam marmitas em vez de comer fora. Já a Tapestry — empresa-mãe da Coach — afirmou que a Geração Z já representa cerca de 35% de seus novos clientes, ajudando a marca a superar as expectativas de Wall Street e a elevar sua previsão de resultados anuais.

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“Estamos atraindo consumidores mais jovens em um ritmo mais rápido”, disse a CEO Joanne Crevoiserat à CNBC. “O consumidor da Geração Z é altamente engajado com a moda, gastando uma parte ligeiramente maior de seu orçamento com ela.”

Esse novo padrão de consumo se assemelha ao que Veblen chamava de “lazer vicário”, uma forma de exibir discernimento em vez de riqueza. Uma bolsa Coach de US$ 400 comprada no lugar de uma semana de refeições fora se torna ao mesmo tempo recompensa e reafirmação: prova de autocontrole e estilo.

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Para você

Outro exemplo é o ressurgimento dos sapatos Christian Louboutin, os saltos-agulha vermelhos que foram símbolo do poder feminino nos anos 2000. As vendas em sites de revenda como o The RealReal cresceram 82% entre novos compradores da Geração Z, segundo o New York Times, impulsionadas por influenciadoras como Addison Rae. Para muitas jovens, o desconforto do salto é parte do apelo — uma prova de que o esforço e o glamour ainda têm valor em uma era dominada por tênis casuais. A sola vermelha é uma dor visível suportada pelo privilégio de ser vista suportando-a.

E não são apenas as mulheres. Homens da Geração Z adotaram relógios suíços de luxo como símbolos de status, exibindo-os no TikTok e no Instagram. A Sotheby’s estimou que quase um terço de suas vendas de relógios em 2023 foi para compradores com 30 anos ou menos, garantindo-lhes uma valiosa moeda social.

Opulência acessível

Um relatório recente do Boston Consulting Group e da WWD constatou que a Geração Z e a Geração Alpha — hoje entre 1 e 13 anos — serão responsáveis por mais de 40% dos gastos com moda nos Estados Unidos na próxima década. Eles já destinam 7% a mais de sua renda discricionária a roupas e calçados do que os adultos mais velhos.

A mudança é visível nas redes sociais. No TikTok, “Natal Ralph Lauren” se tornou a estética aspiracional do ano: fitas xadrez, castiçais grandes e cortinas de veludo recriados com achados de lojas populares. As buscas pelo termo aumentaram mais de 600%, e as pesquisas por decorações relacionadas no Etsy cresceram 180%. A tendência expressa uma espécie de opulência acessível — o desejo de evocar a elegância da riqueza sem pagar por ela.

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Os consumidores mais jovens estão, como diria Veblen, exibindo bom gosto com eficiência. Ainda buscam distinção, mas agora o meio é a criatividade no reaproveitamento, e não o fluxo de dinheiro.

cultura dos influenciadores turbinou esse ciclo. O que Veblen via como exibição pública de riqueza transformou-se em performance de aspiração — agora filmada, editada e impulsionada por algoritmos de recomendação. Influenciadores do TikTok e do Instagram atuam como curadores e vendedores ao mesmo tempo, oferecendo depoimentos de cinco minutos que fazem o luxo parecer ao mesmo tempo acessível e indispensável.

De acordo com o relatório da BCG, 65% dos consumidores da Geração Z afirmam que as redes sociais são sua principal fonte de descoberta de moda — mais do que o dobro de qualquer geração anterior. Quase metade diz ter comprado produtos diretamente por tê-los visto no TikTok ou no Instagram, e 40% já usam ferramentas de recomendação com inteligência artificial para comparar estilos e preços. O resultado é uma geração cujos padrões de consumo são moldados menos pela lealdade às marcas e mais pela sugestão algorítmica.

Isso significa que o marketing nunca se desliga; ele vive nas páginas “Para Você”, personalizado por dados que despertam novos desejos diariamente. Muitos jovens consumidores, já sobrecarregados com altos custos de alimentação, aluguel e educação, e enfrentando um mercado de trabalho pouco acolhedor, entram na vida adulta com um orçamento de autocuidado digno de uma socialite com o dobro da idade.

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E tudo começa cada vez mais cedo. Crianças de dez anos estão economizando suas mesadas para comprar hidratantes de US$ 70 e séruns de US$ 90, imitando rotinas de influenciadores adultos. Meninas de apenas oito anos já sofreram queimaduras químicas e irritações por usarem em excesso produtos antienvelhecimento cujas embalagens em tons pastéis e o marketing do “brilho” as tornam irresistíveis no TikTok. Mesmo antes da adolescência, os jovens já estão performando sofisticação — uma iniciação precoce à estética do consumo conspícuo.

Para Veblen, essa busca constante nunca foi sobre os produtos em si. Era sobre a reafirmação social.

“O objetivo buscado pela acumulação”, escreveu ele, “não é o consumo de bens, mas a evidência de riqueza.”

Esta reportagem foi publicada originalmente em Fortune.com.

Derrite tenta esvaziar PF para dar 'escandaloso presente de Natal a facções', diz Ministério da Justiça, FSP

 Mônica Bergamo

São Paulo

parecer do deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP) sobre o projeto de lei antifacção está sendo considerado um "escândalo" por integrantes do Ministério da Justiça (MJ) que já se debruçaram sobre o texto.

Um dos pontos considerados mais problemáticos é o que prevê que o Ministério somente poderá determinar a atuação conjunta ou coordenada da Polícia Federal (PF) e de forças locais "mediante provocação do governador do Estado".

Um homem em um terno escuro está falando em uma coletiva de imprensa, cercado por jornalistas e câmeras. Ele parece estar respondendo a perguntas, com microfones de várias emissoras de televisão à sua frente. Ao fundo, há outras pessoas ouvindo atentamente, algumas com expressões sérias. O ambiente parece ser um local público, possivelmente fora de um edifício governamental.
Secretário de segurança pública de São Paulo, Guilherme Derrite no velório do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, assassinado após deixar o trabalho na Prefeitura de Praia Grande, em setembro - Allison Sales/Folhapress

"É um escândalo, uma verdadeira bomba para as investigações contra o crime organizado no país", diz o secretário Nacional de Assuntos Legislativos do MJ, Marivaldo Pereira. "Na prática, Derrite quer criar barreiras à atuação da PF, condicionando sua atuação ao crivo de governadores estaduais de forma absolutamente inconstitucional. Ele está dando um presente de Natal aos líderes de facções criminosas", segue.

Procurado, Derrite, que se licenciou da Secretaria de Segurança do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), em SP, para relatar o projeto antifacção, não respondeu às mensagens da coluna.

O secretário Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Mário Sarrubbo, diz que a proposta de Derrite é "inconstitucional".

"A Constituição brasileira, em seu artigo 144, não prevê qualquer limite para a atuação da PF em infrações 'cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme'. Ele não pode impor condições que a Constituição não prevê", diz.

"Há ainda uma lei específica que diz que o Ministério da Justiça pode autorizar a PF a agir de forma integrada com os estados quando o crime investigado tiver repercussão em mais de um estado da federação. Não precisa de provocação de governadores para fazer isso", diz.

Um integrante da PF afirmou à coluna que a proposta "não tem precedentes" e afirma que Derrite e aliados "querem claramente limitar a nossa atuação" para investigar inclusive autoridades.

O secretário Marivaldo afirma ainda que, em outro artigo, Derrite retira da Justiça Federal a competência para investigar crimes em portos e aeroportos.

"A proposta busca afastar a PF, que é a nossa polícia mais especializada, capacitada e dotada de recursos, da investigação de organizações criminosas. Isso traz um risco gigantesco inclusive para investigações em andamento", afirma.

"No mínimo, cria tamanha confusão que possibilitará a advogados questionarem o tempo todo a competência das esferas judiciais, tumultuando investigações já em curso", afirma ele.

O projeto deve enfrentar a resistência de partidos governistas no Congresso.

"Isso é um escândalo. Essa é uma nova tentativa de aprovar o espírito da PEC da Blindagem. O objetivo é blindar a investigação de organizações criminosas pela Polícia Federal com a imposição de condicionante inconstitucional", diz o líder do PT na Câmara dos DeputadosLindbergh Farias (PT-RJ).

O mais inesperado fã dos Beatles,Ruy Castro _FSP

 Você sempre ouviu dizer que o arranjo para "Eleanor Rigby", dos Beatles (faixa 2 do lado A do álbum "Revolver", de 1966), lembrava o respeitadíssimo compositor americano Bernard Herrmann, autor da música para os filmes de Alfred Hitchcock, não? Falou-se muito disso naquele ano. Pela primeira vez, um grupo de rock se atrevia a enriquecer suas guitarras com um naipe de cordas —quatro violinos, duas violas, dois cellos—, fazendo um contraponto dramático às vozes de Paul McCartney e John Lennon sobre a mulher triste e abandonada que morre numa igreja anônima e ninguém vai a seu enterro.

Mas não é que as cordas de "Eleanor Rigby" lembrassem Bernard Herrmann. George Martin, produtor dos Beatles, revelou que, por ideia de Paul, elas foram inspiradas de propósito na cortante música de Herrmann para "Psicose" (1960). (Para mim, não inspiradas, mas uma citação nota por nota.) O fato é que, dali, os Beatles, já vistos como uma exceção num gênero para menores de 13 anos, partiram para a revolução de "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band" e foram descobertos pelos adultos.

Até aí, nada de mais. O surpreendente foi ler no livro "Hitchcock & Herrmann", de Steven C. Smith, de que falei aqui no domingo (26), que Bernard Herrmann, a trabalho em Liverpool em 1961, fora levado a um clube, The Cavern, conhecera um quarteto de rock chamado The Beatles e se empolgara com o que ouvira. De volta a Hollywood, tocou para seus colegas dos estúdios um demo que ganhara deles, contendo a batidíssima "When The Saints Go Marchin’ In", e exclamava: "Veja que modulação! É digna de Beethoven!". Acharam que ele ficara lelé.

Pois Herrmann até levou o demo à CBS e a outras gravadoras, em vão. "Todas riram de mim", disse. "Poderiam ter contratado os Beatles por quase nada. Mas nenhuma se interessou".

Em 1966, o admirado Herrmann ficou maldito nos estúdios porque se recusava a escrever canções de sucesso para os filmes que musicava. Já os Beatles não tinham escolha —tudo que faziam era sucesso.