domingo, 9 de novembro de 2025

É fácil mentir sobre segurança, Celso Rocha de Barros, FSP

 O governo Cláudio Castro subiu o Complexo do Alemão com mandado para prender cem criminosos do Comando Vermelho. Desses cem, 80 fugiram. Tanto o nome da operação ("Contenção") quanto a ideia de novas operações de "retomada" se referem a um movimento recente de conquista pela facção de áreas do Rio de Janeiro que antes eram controladas pelas milícias; parte do debate, portanto, deveria ser sobre a estratégia do poder público diante dessa guerra de facções.

Quantos brasileiros sabem disso? Suspeito que muito poucos, apesar de termos passado duas semanas falando sobre o Alemão.

Dois policiais armados patrulham uma rua estreita em área urbana com casas simples. Ao centro, barricada queimada bloqueia parcialmente a via. Fios elétricos cruzam o céu nublado, e morros aparecem ao fundo.
Policiais militares passam por barricada com veículo em rua da Vila Cruzeiro, no complexo da Penha, no Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli - 28.out.25/Folhapress

Ao invés de divulgar imediatamente o número de mandados de prisão cumpridos durante a operação, o Governo do Rio de Janeiro passou dias levantando a ficha criminal das pessoas que ele conseguiu prender e das que morreram, até achar mandados pendentes que não tinham nada a ver com a operação.

Justiça não autorizou mobilizar 2.500 policiais, quatro dos quais morreram, para prender quaisquer cem moradores do Alemão que estivessem devendo alguma coisa.

Aqueles cem, em tese, eram importantes o suficiente para que corrêssemos o risco de terror no Alemão, caos na cidade e um número recorde de mortos. Os que foram presos eram?

Como disse na última coluna, Castro lidou muito inteligentemente com o fracasso: quando viu que não tinha prendido ninguém que tinha que prender, apertou o botão "ativar polarização política" e assistiu ao caos se instaurando no debate público brasileiro.

Deu certíssimo: quando os números do fracasso foram divulgados, as redes sociais já haviam sido inundadas com imbecilidades como "narcoterrorismo".

Uma semana depois, enquanto as pesquisas registravam forte apoio popular à operação, o secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos, deu entrevista para esta Folha dizendo que o foco "nunca foi prender líderes".

Não era isso que as autoridades diziam uma semana antes. Procure as reportagens daquela terça-feira: elas estão cheias de nomes como Doca, BMW, Gardenal e Pedro Bala, apontados como líderes criminosos cuja prisão justificaria a incursão da polícia.

Cláudio Castro já anunciou que novas operações vêm por aí, com os mesmos objetivos de longo prazo mal-explicados.

A do Alemão se chamava "Contenção", porque visava conter o avanço do Comando Vermelho, que vem se dando sobre áreas que eram das milícias. Segundo o jornalista Lauro Jardim, as próximas operações ocorrerão em Jacarepaguá, nas áreas que o CV tomou dos milicianos, para "retomada de territórios".

Retomada para quem? Para o Estado de Direito? Como? O governo Castro já deixou claro que não acredita em ocupação de favela pelas forças policiais. Por que Jacarepaguá não voltaria ao controle das milícias depois do CV ser expulso pela polícia?

Se houver bons motivos para alistar a polícia do Rio na guerra de facções, o governo deveria explicá-los. É porque o CV é mais cruel que as milícias? É para evitar a formação de uma quadrilha que domine o estado inteiro, como o PCC faz em São Paulo?

O sucesso político da matança no Complexo do Alemão ajuda a entender por que ninguém resolve o problema da segurança pública no Brasil. É fácil demais para o político brasileiro mentir que está resolvendo.


Marcus André Melo - Como choques redefiniram o terceiro mandato de Lula, FSP

 Lula 3 tem sido marcado por choques de natureza singular. Ao historiador do futuro não escapará esta singularidade embora alguns desses choques sejam eventos de grande importância histórica per se. Penso em choques não como em referência a variações conjunturais ou à volatilidade inerente ao sistema político, mas a mudanças estruturais — alterações nos parâmetros do jogo político que produzem efeitos duradouros ao longo do mandato e não decorrem da ação direta do governo ou de suas lideranças. São, portanto, choques exógenos, cujo impacto, positivo ou negativo varia conforme o evento.

O primeiro choque foi a invasão e depredação da praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, logo após a posse presidencial. Episódios dessa magnitude, ocorrendo no início de um mandato, são raros. A principal consequência foi a produção de um efeito de união nacional, que gerou ganhos políticos significativos para o governo e impôs custos consideráveis a setores da oposição. O bolsonarismo foi particularmente atingido.

Homem idoso com cabelo e barba grisalhos, vestindo camiseta preta, com a mão direita próxima ao rosto, em expressão pensativa. Fundo desfocado com cores verde, branco e vermelho.
O presidente Lula durante evento de posse de Guilherme Boulos como ministro da Secretaria-Geral da Presidência, no Palácio do Planalto, em Brasília - Gabriela Biló - 29.out.25/Folhapress

O segundo choque resultou das revelações sobre a conspiração militar. A sociedade assistiu, perplexa, à exposição de detalhes de uma tentativa de golpe. Diferentemente do 8 de janeiro, cujos efeitos principais se dissiparam em cerca de um ano, a divulgação da conspiração teve um impacto mais profundo e prolongado, alterando de modo estrutural a relação entre instituições e atores. A exposição levou ao julgamento dos implicados, com exposição midiática ampla da trama, e condenação inédita dos protagonistas.

Nem todos os choques, contudo, produziram benefícios líquidos ao governo. A invasão da Ucrânia, por exemplo, teve efeitos profundamente negativos: interrompeu cadeias produtivas críticas, como as de combustíveis e fertilizantes, gerando pressões inflacionárias. Mais importante, as gafes do presidente — percebidas como equívocos diplomáticos — comprometeram relações com parceiros estratégicos, especialmente a União Europeia. Esse terceiro choque foi amplificado pelos eventos em Gaza, que produziram efeitos similares: novas controvérsias diplomáticas, isolamento relativo e custos políticos domésticos.

Outro episódio de caráter exógeno foi o binômio tarifaço e a interferência dos EUA no julgamento de Bolsonaro. Esses eventos deflagraram novo e importante efeito de união nacional e, reverteram a queda na avaliação do governo. Assim, tratou-se de um choque duplamente exógeno — tanto por sua natureza aleatória quanto por sua origem externa.

O quinto choque, a operação policial no Complexo do Alemão, também pode ser interpretado assim pela amplitude de suas repercussões. O episódio redefiniu os termos da competição política em múltiplos níveis: primeiro, dissipou o otimismo gerado pelos desdobramentos positivos das negociações com os EUA e pelo cessar-fogo em Gaza; segundo, reorientou a agenda pública em direção à segurança e ao combate ao crime organizado; finalmente, redefiniu a disputa eleitoral. Essa inflexão coincidiu, entretanto, com a nomeação de Boulos para a Secretaria-Geral da Presidência — movimento em direção radicalmente contrária à contenção de danos que o governo terá que adotar.

COP30, entre 'Casa de Dinamite' e pandemia fatal, Marcelo Leite, FSP

Nunca veremos um filme como "Casa de Dinamite" sobre o desastre do aquecimento global. Eis o impasse no fulcro da COP30 e de todas as 29 reuniões de cúpula sobre o clima que precederam a rave em Belém, desde a Rio92.

A cinematografia de Kathryn Bigelow resulta eletrizante porque lida bem com dois atributos da ameaça nuclear opostos aos da crise climática: uma vez acionado o mecanismo do holocausto atômico, restam minutos para reagir; e, no caso de bombas detonarem, morrerão de imediato milhões de pessoas.

A diretora e o roteirista Noah Oppenheim esticaram os 20 minutos de prazo até a hecatombe em Chicago narrando a história em tempo quase real de três pontos de vista complementares, de modo a preencher 1h52min de projeção. Mas tiveram o cuidado de não confortar o espectador com uma explosão final de resignação.

Mulher de terno cinza fala ao telefone em centro de operações com múltiplos monitores e telefones. Telas ao fundo exibem dados, mapas e gráficos.
Rebecca Ferguson em cena do filme 'Casa de Dinamite, de Kathryn Bigelow - Eros Hoagland/Divulgação

Há convergências, decerto, entre as emergências nuclear e a climática quando deflagradas. Nos dois casos, morrem milhões. Qualquer reação está fadada à impotência, no primeiro por falta de tempo, no segundo por excesso dele.

Duas décadas atrás, o filme "O Dia Depois de Amanhã" tentou imprimir alguma urgência pública ao drama arrastado do aquecimento global acelerando consequências extremas. Ao custo de enorme inverossimilhança, comprimiu em minutos um paradoxal (mas não impossível) retorno da glaciação na América do Norte, que em realidade demoraria décadas ou séculos.

A licença cinematográfica, no caso, distancia-se da minúcia bem pesquisada de "Casa de Dinamite" ao reproduzir situações postas em marcha na Casa Branca, no centro de comando StratCom em Nebraska e na base de mísseis Fort Greely, no Alasca. Mesmo se fosse para tratar da reação de governantes ao clima, haveria que narrar décadas de inação em dezenas de capitais, tiro no pé de qualquer roteiro.

Além do mais, o aquecimento global é um desastre moroso, como uma pandemia de propagação lenta. Não como o coronavírus da Covid, mais como o HIV da Aids.

Suponha que a extração de petróleo ressuscite das profundezas um retrovírus que infecta de início só operários de poços e plataformas marítimas. A partícula viral neste delírio de ficção científica consegue instalar-se nas células do hospedeiro, inclusive as reprodutivas (com alguma licença genômica), e assim se transmite a seus descendentes.

Assim como ocorreu com a Aids, as mortes tardam a acontecer, e a identificação do patógeno também demora. Não para executivos das petroleiras, que logo descobrem o agente e a transmissão entre gerações, porém sem tornar pública a informação.

Quando pesquisadores chegam à mesma conclusão, lobistas das empresas passam a lançar dúvidas sobre seus achados. O contágio é restrito. Os vírus podem ter outra origem, como o desmatamento. Uma vacina poderá combatê-los. Remédios inovadores reduzirão a mortalidade.

Ocorrem mais mortes por armas de fogo. Melhor investir em bloqueio da transmissão vertical. A economia não sobrevive sem petróleo. Precisamos extrair combustíveis fósseis da Margem Equatorial para obter recursos de combate à pandemia.

Já vimos esse filme dezenas de vezes. A COP30 é só mais uma sessão desse purgante que nos deixamos enfiar goela abaixo. Mas nunca é tarde para se levantar e deixar a sala escura.