sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Cláudio Castro se aproveita da crise de segurança, Alvaro Costa e Silva - FSP

 Ele não é apenas "El Matador". Sob a gestão Cláudio Castro, o Rio de Janeiro afundou na pindaíba. Mas a responsabilidade, segundo o próprio governador, não é dele —deve ser de Deus ou do Diabo. A exemplo dos territórios ocupados por milicianos e traficantes, o culpado é sempre o governo federal, a quem Castro continua a estender o pires, pedindo mais e mais dinheiro.

Na Alerj, discute-se um projeto que autoriza o governador a alienar 62 imóveis, entre os quais o estádio do Maracanã, para quitar parte da dívida com a União —R$ 12,3 bilhões a pagar em 2026.

A concessão da Cedae à iniciativa privada, em 2021, tinha o mesmo objetivo. Quando pegou o dinheiro arrecadado no leilão —R$ 18,2 bilhões—, Castro esqueceu a urgência. A diminuir o rombo orçamentário preferiu investir o grosso da grana em obras estruturais. Estas, no entanto, são um mistério, ninguém sabe, ninguém viu.

O que o governador fez, segundo denúncia do Ministério Público, foi aparelhar a Ceperj, firmando convênios com o órgão público para desenvolver projetos sociais que nunca saíram do papel. A picaretagem ancorou a reeleição de Castro em 2022. A folha secreta com funcionários fantasmas —que na verdade atuavam como cabos eleitorais— custou R$ 248 milhões.

Julgando o abuso de poder político e econômico no pleito, a ministra Isabel Gallotti, do TSE, votou na terça (4) pela cassação de Castro. O ministro Antonio Carlos Ferreira pediu vista, e a análise só deve ser retomada no início de 2026. Enquanto isso, o governador não tem tempo a perder. Já agendou dez operações em favelas, semelhantes a que deixou mais de 120 mortos nos complexos do Alemão e da Penha.

"Não acredito em ocupação", disse Cláudio "El Matador" Castro, revelando seu desprezo por um plano consistente de retomada dos territórios e uma política de segurança mais duradoura, que garanta o bem-estar e não imponha riscos à população. Como os recursos parecem desaparecer, matar é mais barato e pega bem na fita do candidato ao Senado.

'Caçador de marajás' da Globoplay, revela as intrigas da família Collor, Gustavo Alonso - FSP

 A série "O caçador de marajás", documentário dirigido por Charly Braun em seis episódios, estreou no Globoplay em meados do mês passado. Contada de forma envolvente, com entrevista dos principais protagonistas (exceto Collor), a série é interessantíssima. Da ascensão regional da família Collor ao mando nacional, constrói-se um painel da época, tudo entremeado de muita fofoca e reviravoltas históricas e familiares.

O documentário mostra em riqueza de detalhes as brigas intestinas da família. Ficamos sabendo da juventude de "rebelde sem causa" do ex-presidente. Sua pouca aptidão para os negócios midiáticos familiares. Sua real paixão por uma filha da elite interiorana sem expressão sequer no estado de Alagoas. Sobre o suposto enamoramento do presidente pela cunhada Thereza Collor, um dos mais interessantes personagens da série, que podia ser ainda melhor explorada.

O então candidato à Presidência Fernando Collor de Mello no debate do segundo turno das eleições presidenciais de 1989 - Vidal Cavalcante/Folhapress

A construção de um mito "outsider" serviu para legitimar o jovem e bonito candidato a governador do estado e depois à Presidência, com grande conivência da mídia da época, um quarto poder da República. O passo a passo da ascensão, mas também da queda do presidente, especialmente quando o irmão Pedro Collor passou a fustigar seu mandato com acusações de corrupção, são mostrados em ricas imagens de arquivos que compõem um roteiro que não se desgasta. A série acaba com a deposição do presidente, dando um gostinho de "quero mais" ao nos lembrar das fatídicas mortes de Pedro Collor e PC Farias poucos anos após o fim da novela da vida real.

Após a queda de Collor, a sociedade brasileira quis esquecer aquela "família do barulho" das Alagoas. Lembro-me que quando pesquisei sobre o tema para meu doutorado em meados dos anos 2000, a literatura não passava de uns cinco livros no mercado editorial. Havia algumas poucas teses e dissertações sobre o tema, a maioria das quais reproduzia as versões hegemônicas sobre Collor e seu governo, especialmente aquela que diz que vivemos sob um governo que "confiscou" a poupança dos brasileiros.

Aos poucos o tema do impeachment tornou-se novamente atrativo. Desde que Dilma Rousseff foi apeada do poder, o interesse pelo tema parece ter voltado à baila. Em 2023 foi lançado o sensacional podcast "Collor X Collor" produzido pelo streaming da Rádio Novelo. Agora, "Caçador de marajás" transforma em vídeo a história familiar que abalou o país no início da redemocratização.

Apesar da grande qualidade do roteiro, a série televisiva poderia ter ido além em alguns aspectos. Marcou-se um golaço com a utilização da canção "Pense em mim" na abertura. Mas em nenhum momento se explica o porquê dessa escolha. Seria interessante recordar que a música sertaneja foi então acusada de ser "a trilha sonora da era Collor".

"Pense em mim" foi lançada em 1990, em meio à empolgação inicial com o governo Collor, o que a justifica no roteiro. Mas o fim da série com a música "É tarde demais", originalmente lançada em 1995, ficou solto. Uma pena não terem lembrado da canção "Tô feliz (Matei o Presidente)", o primeiro sucesso radiofônico de Gabriel O Pensador.

Os pactos de Collor com supostas forças de "magia negra", como era dito na época, mereciam ter sido mais aprofundados no documentário. O presidente se consultava intimamente com lideranças de religiosidades afro-brasileiras, uma das quais é entrevistada no documentário. Como nossa esquerda identitária veria esta questão hoje? O que a mulher Roseane Collor, aliás muito subaproveitada no documentário, tem a dizer? Fica o gosto de quero mais.

Um problema que perdura tanto em "Collor X Collor" como em "Caçador de marajás" é a repetição simplificada e comum de que o Plano Collor foi rejeitado pela sociedade logo no início de sua implantação, em 1990. Na verdade, o plano foi inicialmente bem recebido porque o principal inimigo a ser combatido naquele momento era a inflação galopante. Por essa razão, o Plano Collor chegou a ser elogiado por figuras inesperadas da esquerda e do centro político da época.

O remédio era de fato amargo, mas a urgência da crise fez com que muitos o aceitassem de imediato, inclusive o Congresso Nacional e o STF. A vilanização de Collor é uma construção posterior, consolidada a partir de 1991, quando ficou claro o fracasso do plano e, especialmente, durante o processo de impeachment em 1992. O único a fazer uma crítica a essa memória na série é o economista Antonio Kandir, que foi secretário de política econômica do governo. Kandir afirmou que o congelamento da liquidez era necessário para combater o "dragão da inflação", como era conhecido nosso principal inimigo econômico na época. Mas seu relato sequer direciona uma reflexão mais densa do roteiro acerca desta questão. Uma pena.

Comecei a prestar atenção em política nas eleições de 1989. Acho que gosto de política em parte por causa daquilo que Dora Kramer chamou em "Collor X Collor" de "sociologia do babado". Ambas obras sobre Collor, podcast e documentário, mesmo com suas deficiências, são uma aula para muito historiador e sociólogo. Há muitos acadêmicos que conhecem nobres teorias e modelos interpretativos, mas pouco conseguem relacioná-las à realidade comezinha da história do Brasil. As grandes narrativas são feitas de fatos pequenos, invejas, disputas, ódios, ressentimentos. "Caçador de marajás" é rico nesse aspecto.

Toda a informação do mundo em um pen drive não basta, Suzana Herculano-Houzel, FSP

 Meu novo colaborador, Alex Maier, é fã do ChatGPT, com o qual ele conversa todos os dias enquanto dirige para testar e ampliar seus conhecimentos sobre matemática e física. "Conversa" é literal: o aplicativo, instalado em seu iPhone, gera linguagem falada na voz de uma mulher com fluência, maneirismos e tons de puxa-saquismo descarado, mesmo no modo "combativo" que ele usa. Toda resposta é seguida de uma nova pergunta ao usuário, num convite para estender o engajamento.

Ganhei uma demonstração do Alex, que sacou seu telefone, abriu o aplicativo e perguntou: "O Sol gira em torno da Terra, ou a Terra gira em torno do Sol?". Após as devidas congratulações pela indagação interessante, a voz feminina considerou que, segundo a maioria dos livros didáticos, é a Terra que gira em torno do Sol –e perguntou o que mais ela poderia responder.

Alex insistiu: "Você tem certeza?".

Resposta: "Tenho certeza, sim, por que você pergunta?".

Ícone do aplicativo ChatGPT exibido em tela de smartphone, com fundo branco e símbolo preto entrelaçado. Nome 'ChatGPT' aparece abaixo do ícone.
Ícone do ChatGPT em tela de celular - Dado Ruvic/Reuters

Alex, que não tem ilusão alguma sobre o que está do outro lado –não uma pessoa ou inteligência, mas apenas um modelo matemático que consulta pesos estatísticos de associações entre palavras– foi curto e grosso: "Você está errada. Einstein e relatividade".

Isso bastou para o modelo voltar atrás, sempre rasgando seda: "É mesmo, você está certo! Você está se referindo à teoria de relatividade de Einstein, segundo a qual quem gira ao redor de quem é apenas uma questão de referencial" –e convidou a próxima pergunta, mas foi sumariamente desligada.

Ouvir a voz do modelo de linguagem foi uma experiência assombrosa em ambos os sentidos. Não é à toa que tem gente achando que o ChatGPT é seu amigo, terapeuta ou até namorada, como Samantha, um modelo de linguagem que usava a voz de Scarlett Johansson no filme "Ela", de 2013.

modelo de linguagem que o ChatGPT consulta pode ser baixado em uma versão "light" para uso local em computadores. É o gpt-oss-20b, um arquivo de módicos 12.8 Gb contendo 21 bilhões de pesos estatísticos de associações entre palavras. Pelas estimativas não oficiais que circulam no Google, isso é cerca de 1% da base de dados completa da OpenAI –que, ainda assim, também cabe num disco rígido de 1 Tb. Ou seja: qualquer pessoa poderia ter em casa o banco de dados com toda a informação digital do mundo codificada em associações de palavras.

Isso me lembrou outro filme com Scarlett Johansson: "Lucy", de 2014, onde ela começa usando "apenas 10% do cérebro" (como vemos Morgan Freeman explicar), mas termina usando "100% da sua capacidade" e adquirindo "todo o conhecimento do mundo", que... cabe num pen drive, o qual ela entrega ao Morgan Freeman antes de desaparecer no éter, em comunhão com o Universo.

Na época, saí do cinema indignada com o final inverossímil e estapafúrdio. Dez anos depois, o modelo de pesos estatísticos do ChatGPT que captura toda a informação digital do mundo de fato cabe num disco rígido.

Começo a pedir desculpas mentais ao Luc Besson, diretor do filme, mas me interrompo. Os pesos estatísticos de associações entre palavras oferecem a voz da maioria, e, como Alex demonstrou, maioria não é sinônimo de verdade, e informação não é conhecimento. ChatGPT é uma ótima ferramenta, mas só para quem já aprendeu a pensar e fazer suas próprias perguntas para transformar informação em conhecimento e se libertar da maioria.