quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Lúcia Guimarães- Apoio de jovens foi decisivo para eleger Mamdani, e Partido Democrata deve prestar atenção ,FSP

 A eleição de Zohran Mamdani para prefeito de Nova York é um alerta para a liderança da oposição democrata, que tenta se opor ao controle republicano da Casa Branca e do Congresso. E, ao contrário do que quer a preguiçosa e tosca imprensa política americana —incapaz de distinguir entre um socialista democrata e um espantalho comunista da propaganda adversária—, o significado da vitória do jovem muçulmano não pode ser resumido a clichês de ideologia.

Não que o prefeito eleito tenha tentado se esquivar de sua identidade. No passional discurso de vitória no final da noite de terça-feira (4), Mamdani declarou: "Sou muçulmano. Sou socialista democrático. E, o mais condenável de tudo, recuso-me a pedir desculpas por qualquer uma dessas coisas."

Homem fala em púlpito com placa azul que diz 'A NEW ERA for NEW YORK CITY'. Microfones estão posicionados à frente, e fundo mostra relevo arquitetônico.
O prefeito leeito de Nova York, Zohran Mamdani, em uma entrevista coletiva após sua vitória - Kylie Cooper - 5.nov.25/Reuters

Um exame da coalizão eleitoral que levou o ugandense-americano de origem indiana à prefeitura deve apontar para uma nova diversidade demográfica ainda não explorada pelos democratas em Nova York. Mamdani é o primeiro candidato a receber mais de 1 milhão de votos na cidade desde 1969. Sua oposição à guerra na Faixa de Gaza fez com que a maioria dos 1 milhão de judeus nova-iorquinos desse o voto ao ex-governador Andrew Cuomo, segundo pesquisa de boca de urna CNN —o ex-governador é um colérico defensor de Binyamin Netanyahu.

Nova York abriga também uma vasta e multinacional população muçulmana, mal contada pelo Censo e que inclui imigrantes da África e da Ásia, especialmente do sul asiático. Seria difícil rotular nova-iorquinos originários de países como Bangladesh e Paquistão como pró-socialistas.

Mas estes imigrantes não se esquecem do recém-eleito membro da assembleia estadual que, em 2021, ao longo de 15 dias, fez greve de fome com motoristas enfrentando ruína financeira com o colapso do preço das licenças de táxi e os ajudou a obter o perdão das dívidas avaliadas em US$ 350 milhões.

A vitória do candidato simboliza também uma reparação pelo tormento enfrentado por muçulmanos em Nova York após o 11 de Setembro, quando Mamdani tinha 9 anos e foi retirado da sala de aula na escola para ser recolhido pelo pai. Dos crimes de ódio aos excessos na espionagem de cidadãos e mesquitas, os anos seguintes aos atentados foram marcados por insegurança cotidiana e por um clima de islamofobia que, como ficou demonstrado nos ataques de campanha, ainda não foi superado.

Esta eleição nova-iorquina é talvez a primeira transformada pela pandemia. O registro em massa de novos eleitores e a mobilização de milhares de voluntários jovens para bater de porta em porta seduziram uma geração deprimida pelo isolamento da quarentena. É a geração Z, de 28 anos ou menos, cuja rotina solitária foi ainda mais afetada pelo alto custo de prazeres como ir a um bar nesta cidade.

A estratégia de Mamdani, que conheceu sua mulher Rama Duwaji no aplicativo de namoro Hinge, reuniu voluntários em noites para solteiros, partidas de futebol e bailes de salsa que misturavam política e atividade social. O clima de pertencimento fez lembrar os comícios de Donald Trump em 2024. "Meu dia gira em torno de Mamdani," disse ao New York Times uma voluntária que chegou para cursar faculdade pouco antes do lockdown de 2020 e teve a vida social transformada pela adesão à campanha.

A gerontocracia democrata que passou o ano esnobando Mamdani faria por bem prestar atenção no susto que levou em Nova York.


Bjorn Lomborg - COP30 deve discutir o bem-estar humano, FSP

 

Bjorn Lomborg

Cientista político, é autor de 'O Ambientalista Cético' (ed. Campus)

Enquanto políticos do mundo todo voam para Belém para a COP30, veio de Bill Gates um insight pertinente: conferências sobre o clima deveriam focar no que realmente melhora vidas, não apenas em cortar emissões. É o retorno do bom senso.

Formuladores de políticas públicas deveriam sempre se perguntar: qual é a forma mais inteligente de gerar o maior impacto positivo com recursos limitados? Para bilhões de pessoas em países em desenvolvimento, desafios imediatos como a pobreza e doenças são mais urgentes que metas de temperatura distantes.

A imagem mostra uma criança sem camisa, de costas, segurando uma tigela de metal. Ao fundo, há uma fogueira com fumaça saindo e um recipiente de metal em cima dela. O ambiente é rural, com vegetação ao redor e um barco parcialmente visível. O chão está coberto por água e plantas.
Criança segura uma tigela com farinha, em Melgaço (PA) - Lalo de Almeida - 18.abr.24/Folhapress

Os países pobres se preocupam com a malária e com a educação, não com 0,1°C a menos em um século. Como Gates observa, "os maiores problemas são a pobreza e as doenças". Todo ano, mais de 7,5 milhões de pessoas em países pobres padecem de enfermidades evitáveis. Investimentos inteligentes em saúde, nutrição e educação podem salvar mais de 4 milhões de pessoas por ano, além de gerar crescimento econômico e resiliência para o futuro.

O realismo de Gates reflete uma mudança global. Por muitos anos, qualquer desvio da ortodoxia climática era tratado com desprezo. As Nações Unidas, além de políticos e celebridades, pregavam que cortes de emissões a qualquer custo eram sagrados. Questionamentos eram rotulados como "negação".

Mas o pragmatismo está voltando. Nos EUA, um senador democrata admitiu que o clima "não está no top 3 das prioridades". O primeiro-ministro do Canadá que já tratou os combustíveis fósseis como "inqueimáveis"— agora apoia as exportações de gás natural e o crescimento energético. Até mesmo o Reino Unido e a Alemanha voltaram a incorporar a lógica econômica à sua política climática.

É hora de superar as narrativas apocalípticas. A mudança climática é um problema real, mas não é o fim do mundo. Caso não seja abordada, estudos econômicos indicam que ela poderia reduzir de 2% a 3% do PIB global até 2100 —ou seja, seríamos 435% mais ricos em vez de 450%.

Ativistas insistem que os gastos climáticos não competem com o combate à pobreza. Mas os bancos de desenvolvimento destinaram, apenas no ano passado, US$ 137 bilhões a projetos na área —recursos que poderiam ter sido aplicados na prevenção de doenças ou no combate à fome. Em todo o mundo, mais de US$ 14 trilhões já foram gastos em políticas climáticas. Apenas no ano passado, foram mais de US$ 2 trilhões. Esse dinheiro deixou de ser investido em educação básica ou saúde materna.

Há quem diga que o clima é a "maior ameaça" aos países pobres. Essa visão é condescendente e ignora a realidade. Pesquisas em 39 países da África classificam o clima em 31º lugar entre 34 preocupações —bem atrás de emprego, saúde e infraestrutura. As pessoas pobres sabem que seus maiores inimigos são a fome e a doença, não as emissões de carbono.

O movimento ambientalista essencialmente defende que cortes nas emissões venham antes do acesso a comida e remédios para pessoas pobres. Gates rebate essa ideia, defendendo que o foco volte ao que faz mais diferença.

Uma cúpula climática voltada ao bem-estar humano deve reconhecer que a promoção da prosperidade é uma das melhores respostas às mudanças climáticas, pois torna as pessoas mais resilientes. Como em qualquer política pública, devemos priorizar o que gera o maior impacto. Isso significa abandonar a obsessão cara e ineficiente pela emissão zero e concentrar esforços em adaptação e pesquisa para acelerar a inovação em energia limpa.

Quando os jatos privados da elite climática pousarem em Belém, será uma boa hora para dar ouvidos ao bom senso.