sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Bill Gates flerta com negacionismo climático às vésperas da COP30, Laura Greenhalgh, FSP

 O memorando que Bill Gates divulgou às vésperas da conferência do clima em Belém revela algo novo sobre o autor. Intitulado "Três Verdades Duras sobre Clima", tendo como subtítulo "O que eu quero que todos saibam na COP30", o documento sugere a intenção de quem planejou falar primeiro. Feita a leitura, resta a dúvida: Gates escreve como investidor ou como filantropo?

Num texto de 5 mil palavras, a mensagem que o dono da Microsoft passa é a de que ele chegou a novas visões. Suas verdades duras são as seguintes: a mudança climática não será o fim da humanidade; temperatura não é a melhor medida para aferir o progresso a ser feito no clima; saúde e prosperidade são as defesas mais eficazes num planeta em aquecimento. Gates garante que "as pessoas serão capazes de viver e florescer em muitos lugares da Terra no futuro" e ataca a "perspectiva de fim do mundo".

Homem idoso com cabelo grisalho e óculos, vestido com terno preto, camisa branca e gravata azul com listras, está em pé próximo a uma parede escura e uma cortina clara, olhando para o lado direito da imagem.
O empresário Bill Gates durante evento na Dinamarca - Mads Claus Rasmussen - 6.mai.24/AFP

Daí emerge um raciocínio depurativo. Hoje, 900 milhões de humanos vivem em áreas altamente vulneráveis ao aquecimento global, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Se uma parte deles vier a desaparecer, e serão majoritariamente pobres, outros florescerão em áreas seguras. E a raça, assim como o mercado, será mantida. Não à toa o documento foi recebido com reservas por ambientalistas, que notam modulações no discurso de Gates neste segundo mandato de Donald Trump.

Dar ar de novidade ao velho negacionismo climático tem a ver com o estágio atual da desinformação. O que a humanidade vive é realidade comprovada. O recente furacão Melissa, com dezenas de mortos e milhares de desabrigados pelo Caribe, repete um roteiro conhecido: aquecimento global, degelo maciço, elevação do nível do mar, formação de tormentas que arrasam regiões costeiras e o que estiver pela frente. Há uma nova explicação para isso?

Algo a ser equacionado na COP30, onde Gates promete presença, seria a relação intrínseca entre mudança climática e vulnerabilidade climática. Um milionário que assista à erosão do terreno sobre o qual assentou a sua mansão de praia pode construir um esplêndido chalé na montanha, garantir o lazer da família e, ainda assim, achar que é um refugiado climático. Só que esta não é a alternativa para milhões de indivíduos, passíveis de exclusão da humanidade florescente a que Gates se refere.

Parece inegável o efeito de Trump sobre o debate climático atual. Do púlpito da ONU, ele qualifica tudo como mentira. Acha torres eólicas e placas solares horríveis, além de feitas na China. Interrompe programas de energia renovável. Pede mais perfuração de petróleo. Insiste que o carvão é limpo e lindo. Corta a ajuda americana a lugares do mundo já muito afetados por distúrbios da natureza.

Gates justifica essa estupidez quando afirma que "o que é bom para a prosperidade pode ser ruim para o ambiente". De que serve alimentar uma falsa dicotomia a partir de premissa tão óbvia?

Não nos esqueçamos que estas "visões evolutivas" vêm de um investidor arrojado que parece ignorar os milhões de metros cúbicos de água necessários para resfriar os seus data centers. E vêm do filantropo reconhecido mundialmente que se indaga se é mais relevante financiar ações climáticas ou garantir vacinas. No fundo, o problema colocado por Gates reside no raciocínio "ou uma coisa, ou outra".


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Pornografia política é atrativo da direita, Sergio Rodrigues -FSP

 A extrema direita desempenha na política um papel análogo ao que a pornografia tem na representação da sexualidade humana: é descomplicada, mentirosa, excessiva, desumanizadora e, no fim das contas, frustrante.

A descomplicação é o atrativo mais vistoso, logo na entrada. Na pornografia, meia dúzia de palavras —ou nem isso— são preâmbulo suficiente para que duas ou mais pessoas procedam a se comer.

Não há solução mais básica para o problema muitas vezes complexo dos encontros sexuais humanos, o que bastaria para tornar a pornografia um modelo das políticas públicas da extrema direita.

O negócio aqui é vender respostas muito simples —falsas, mas atraentes— para questões complicadas. Desemprego? Culpa dos imigrantes. Violência urbana em alta? Arme-se o cidadão. Pandemia? Vida normal —e cloroquina!

Ou ainda: facções criminosas substituem o Estado em grande parte do território urbano? A solução é o extermínio do maior número possível de seus bagrinhos, com desprezo pelas baixas colaterais.

O ganho para a extrema direita é duplo: o povo aplaude, por estar de justo saco cheio da violência do crime organizado; e desvia-se o foco dos chefes reais do negócio, entre os quais há até "gente de bem".

Aí vem o segundo atributo da lista: para sustentar tanta "descomplicação", a pornografia mente à beça. Pouca gente tem aqueles corpos, aquele furor, e quantidade não é o mesmo que qualidade.

Crise do clima? Falácia. O nazismo era de esquerda. Se os bilionários forem taxados, a economia entra em colapso. A mamadeira de piroca existiu mesmo, eu vi. Chega-se a extremos tolos de insanidade: a Terra é plana!

(Mas o que é a mentira quando o deep fake ameaça o próprio tecido da realidade, condenando a gente a desconfiar de nossos sentidos para sempre?)

Terceiro atributo compartilhado: o excesso. A pornografia tem peitos gigantes, paus imensos, ejaculações em catadupas. Corpos são grandes máquinas. Sua lógica hiperprodutiva desumaniza, tornando obsoleta qualquer subjetividade.

A extrema direita é adepta do mesmo gigantismo super-humano. A quantidade de cocô que aquele Trump de IA despejou do avião sobre seus compatriotas do No Kings encheria o Maracanã. Um punhado de mortes por vez já não basta? Que tal montanhas de cadáveres?

Por fim, a pornografia só pode ser frustrante, pois o alívio que dá é precário, incompleto, deixando a seus adeptos uma única saída: consumir mais pornografia.

No fundo, não há nela sentido maior que o da autoperpetuação —como também nos políticos da extrema direita. Depois que todas as suas propostas se revelam picaretas, equivocadas ou doidas, resta o poder. Precisa mais?

Quem já não aguenta "tudo o que está aí" —com bastante razão, diga-se— é a vítima preferencial da pornografia política, cujo trabalho, claro, é manter intocado "tudo o que está aí".

Não se nega que seja esperta. Como a pornografia propriamente dita, seu apelo aos baixos instintos do público garante sucesso de audiência —e urna. Quer dizer, a princípio. Até vir um Mamdani da vida.