segunda-feira, 14 de julho de 2025

O tempo da política: ainda é cedo para servir o café frio ao presidente Lula, Lara Mesquita, FSP

 Nas últimas semanas, tornou-se comum encontrar articulistas anunciando o fim da era Lula (PT).

Matérias sobre desempenho do governo na aprovação de sua agenda legislativa e sobre as disputas em torno do Orçamento da União corroboraram essa leitura, sugerindo que a carreira eleitoral do presidente estava próxima do fim, que Lula não teria chances de reeleição e, por isso, já seria tratado com certa desconsideração na corte política de Brasília. Chegou-se a dizer que o café do presidente já era servido frio.

Não sei se é ansiedade ou se, nesses casos, fala mais alto a simples aversão ao governo, mas a experiência e a prudência indicam que, faltando mais de um ano para a eleição presidencial, ninguém deveria se arriscar a vaticinar seu desfecho.

Um homem sorridente, com barba e cabelo grisalho, está fazendo um gesto de positivo com a mão. Ele usa um boné azul com a frase "O BRASIL É DOS BRASILEIROS" e uma bandeira do Brasil. O fundo é desfocado, sugerindo um evento ou uma cerimônia.
Lula durante evento no Espírito Santo - Ricardo Stuckert - 11.jul.2025/Divulgação

Em outubro de 2017, o então ex-presidente Lula —já condenado, mas ainda não preso— aparecia nas pesquisas do Datafolha com o dobro das intenções de votos de Jair Bolsonaro (PL). Em cenários sem Lula, Marina Silva (Rede) figurava à frente de Bolsonaro. Todos nós sabemos que o resultado foi bastante diferente.

O mesmo vale para o ciclo eleitoral de 2014. Em 2013, muitos também sentenciaram o fim de Dilma Rousseff (PT), por ocasião das manifestações de junho daquele ano. Ainda assim, a ex-presidente venceu Aécio Neves (PSDB) no segundo turno de 2014.

Nunca se sabe se eclodirá uma guerra ou se um desastre climático acometerá o país, se o governo acertará o tom na comunicação de sua agenda ou se o presidente dos Estados Unidos escolherá o país como alvo, ajudando a melhorar a popularidade e a avaliação positiva do governo e do presidente —como aconteceu no Canadá recentemente.

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É justamente por conta das incertezas do cenário político e econômico nacional e internacional, e da existência de práticas eleitorais legítimas e justas, que não oferecem vantagens desproporcionais a nenhum candidato, que arriscar previsões sobre o desfecho do governo e as chances do ocupante da cadeira presidencial com tanta antecedência é uma aposta de alto risco.

Pouco mudou nas últimas duas semanas na relação entre o presidente e o Congresso. Os pontos de conflito seguem presentes, mas o discurso de que o governo está nocauteado praticamente desapareceu.

Agora, o noticiário se concentra na bem-sucedida estratégia de comunicação do governo, tanto no caso do IOF quanto na defesa da soberania nacional e na responsabilização da família Bolsonaro pelo aumento da alíquota de exportações brasileiras anunciado pelo governo Trump.

Lula tem chances em 2026? Sim. Analisando retrospectivamente, todos os presidentes que disputaram a reeleição se apresentaram como candidatos competitivos. Lula vencerá a eleição? É cedo para dizer. Ainda não sabemos nem quem serão seus adversários. E, muitas vezes, o resultado não depende apenas do desempenho do candidato, mas também da performance dos oponentes.

No tempo da política, ainda é muito cedo para servir café frio ao presidente. Como mostram eleições passadas, muitos acontecimentos com potencial de interferir no jogo eleitoral ainda estão por vir até 2026. Por ora, o mais sensato é não sentenciar o fim do governo ou das chances de sucesso eleitoral do presidente.

Tarifaço de Trump é uma oportunidade para governo Lula acertar a comunicação, FSP

 

Na última semana, o tarifaço anunciado por Donald Trump contra produtos brasileiros transformou-se em uma nova onda de polarização digital. Nos mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram monitorados pela Palver, a repercussão da medida disparou a partir da quinta-feira (10), que registrou o maior volume de mensagens sobre o tema.

A decisão do presidente dos Estados Unidos gerou reações intensas de todos os campos ideológicos. Mas, mais do que discutir os impactos econômicos da medida, os grupos se engajaram em uma disputa de narrativas sobre quem seria o verdadeiro responsável pela taxação.

A imagem é dividida em duas partes. À esquerda está lula, um homem com cabelo grisalho e barba, vestindo um terno escuro e uma gravata azul, olhando para a direita. À direita está Trump, um homem com cabelo loiro e liso, com uma expressão séria, também vestindo um terno escuro. O fundo é desfocado, destacando os rostos dos dois homens.
Os presidentes Lula e Trump - Evaristo Sá -29.jan.2025/AFP e Andrew Caballero-Reynolds -10.fev.2025/AFP/AFP

No dia 7 de julho, Donald Trump fez um post em sua rede social, Truth Social, defendendo Jair Bolsonaro (PL) e pedindo que o ex-presidente seja julgado pelas urnas, e não pela Justiça. No mesmo dia, Eduardo Bolsonaro (PL) gravou um vídeo comentando a postagem de Trump e informando que outras medidas deveriam ser anunciadas ainda na semana passada.

Quando a taxação imposta sobre os produtos brasileiros foi divulgada, Eduardo Bolsonaro, que se licenciou do mandato de deputado federal para morar nos Estados Unidos, aproveitou a oportunidade para argumentar que a única saída possível para o impasse é que seja dada uma anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro.

A reação tanto da população como dos setores que serão altamente afetados com as tarifas, como é o caso do agronegócio, foi bastante negativa, e Eduardo foi direcionando seu discurso para a narrativa de que o Brasil está sendo punido por conta das ações do STF e do ministro Alexandre de Moraes.

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Um levantamento da Palver realizado no dia 10 de julho aponta que as conversas orgânicas sobre o tema, ou seja, naquelas em que não houve disparos ou mensagens virais sendo compartilhadas, 60% dos usuários nos grupos de mensageria criticaram Trump e as medidas impostas contra o Brasil. Quando a análise considerou os vídeos, imagens, áudios mais compartilhados, pouco mais de 60% destes conteúdos procuraram culpar o governo Lula ou o STF.

Nos grupos alinhados à direita, houve um esforço para redirecionar a culpa para Lula. A tese mais comum sugere que o atual governo teria abandonado o alinhamento automático com os EUA para se aproximar de regimes antiamericanos, como Rússia e China, por meio dos Bricas.

Já nos grupos de esquerda e também naqueles em que não há um alinhamento ideológico, a leitura é oposta. As mensagens mais populares culpam diretamente Bolsonaro e seu filho Eduardo pelo aumento das tarifas. O argumento central é o de que Eduardo usou seu afastamento do mandato de deputado para morar nos Estados Unidos e conspirar contra o Brasil, e que a decisão de Trump é uma afronta à soberania nacional.

O governador Tarcísio de Freitas também foi levado ao centro da discussão após se reunir com o encarregado de negócio dos Estados Unidos para negociar as tarifas e também por ter solicitado ao STF que Bolsonaro possa viajar para Washington para ajudar nas negociações. Nos grupos de direita, ele aparece de maneira ambígua: ora como um político hábil tentando manter pontes com os EUA, ora como um aproveitador tentando se desvencilhar do bolsonarismo. Já na esquerda, Tarcísio é retratado como parte do mesmo projeto de submissão aos interesses bolsonaristas.

O governo Lula ganhou um presente de Donald Trump, uma razão para unificar o país e direcionar sua comunicação em defesa da soberania da nação e dos interesses brasileiros. A resposta adotada pelo governo será fundamental para conquistar o apoio da população. Um erro de cálculo pode entregar de bandeja a popularidade do tema para que seja explorada pela oposição. A bola está em jogo!

A água milagrosa de Santa Cecília, FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

Quem olha o bairro de Santa Cecília, na zona central da cidade, todo impermeabilizado e sem córregos, não pode imaginar que outrora ele foi uma espécie de estância hidromineral. Havia ali um conjunto de chácaras de onde jorravam fontes de água pura, com gás natural e propriedades medicinais que atraiam moradores locais e viajantes em busca de cura para seus males desde meados do século 18.

"Acreditava-se que a água era milagrosa e tinha poderes para tratar doenças do estômago, fígado e problemas de pele, comuns na época", diz o pesquisador e escritor Lincoln Paiva, que resgatou a história no Arquivo Municipal de São Paulo e na Hemeroteca na Biblioteca Nacional. "E o mais interessante é que a crença popular acabou se confirmando." Paiva prepara o lançamento de um livro sobre a cidade nos séculos 16 e 17 chamado "Cosmovisão Paulista" (Editora Afluente), em agosto.

Bairro de Santa Cecília no início do século 20
Bairro de Santa Cecília há 100 anos: águas sulfurosas atraiam peregrinos desde o século 18 - Divulgação

O local onde as fontes brotavam estava onde hoje ficam as ruas Doutor Jaguaribe, Dona Veridiana, Martinico Prado e Aureliano Coutinho. Nessa área, que era o caminho para o município de Jundiaí, havia pelo menos dez mananciais. Diante do grande interesse que o lugar despertava, em 1867, o proprietário de uma das chácaras da região passou a vender água em barris para doentes e curiosos.

Trinta anos mais tarde, o médico Domingos Jaguaribe, especialista em hidrologia médica, decidiu analisar a água no Instituto Pasteur em Paris para confirmar se as crenças tinham fundamento. Segundo Paiva, amostras foram enviadas à França e o laudo técnico confirmou que ela tinha alto teor de enxofre, ferro e bicarbonato de sódio, minerais com reconhecido potencial terapêutico.

Água Vitalis
A água Vitalis era consumida pelo barão do Rio Branco e considerada a "Vichy brasileira" - Divulgação

Diante da conclusão positiva, Jaguaribe decidiu comprar um grande terreno e instalou ao lado da Santa Casa de Misericórdia seu Instituto Psycho-Physiológico, onde oferecia serviços completos de hidroterapia, eletroterapia, fototerapia e massagem. Ele classificava sua clínica como um "estabelecimento modelo, fundado sob as normas modernas".

Também transformou a água de Santa Cecília num negócio bastante lucrativo. Cobrava mil réis por um banho simples quente ou frio com direito a salão e toalha. Um banho de cachoeira com tanque de natação saia por 800 réis. Já os banhos medicamentosos sulfurosos saiam por 5 mil réis. Ao mesmo tempo, criou sua água engarrafada, a Vitalis, que fez fama no começo do século 20 e era classificada na propaganda como a "Vichy brasileira". A rua Martinico Prado se chamava Vitalis.

Instituto Psycho-Physiologico do doutor Jaguaribe
Instituto Psycho-Physiologico do doutor Jaguaribe: hidroterapia e "normas modernas" - Divulgação

Uma circular do Ministério da Fazenda do começo do século 20 autorizava a venda da água mineral da fonte de Santa Cecília, sujeita a imposto de consumo, e a reconhecia como muito sulfurosa e com gás carbônico. A fonte Vitalis chegou a produzir 10 mil litros diários, segundo Paiva, e foi premiada internacionalmente. Sua garrafa era elegante, com um rótulo decorado e lacrada. Era apelidada de "água santa" e consumida pelo Barão do Rio Branco, como mostram os anúncios da época.

Mas a Vitalis sofria com ataques de concorrentes. Em um anúncio encontrado por Paiva, Jaguaribe diz que a Vitalis "é uma potência sujeita às calúnias dos invejosos". Para contrapô-los ele cita os prêmios recebidos pela água nas exposições de Buenos Aires, Anversa, Milão e Rio de Janeiro e cita que foi proclamada a melhor do Brasil no 6º Congresso Médico. Infelizmente, as fontes de Santa Cecília não jorram mais. E o bairro não guarda nenhuma reminiscência desse passado remoto.