domingo, 25 de dezembro de 2022

Bolsonaro deve ter mau começo de ano, Elio Gaspari, FSP

 

A partir do dia 1º de janeiro, todas as despesas de Jair Bolsonaro deverão caber na sua aposentadoria de R$ 80 mil por mês.

O Partido Liberal de Valdemar Costa Neto está com seus fundos congelados por ordem do ministro Alexandre de Moraes. De lá, não sairá um centavo.

Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia militar no Rio de Janeiro - Tércio Teixeira- 23.dez.2022/AFP

OBRAS PARADAS

A julgar pela precisão estatística da equipe da transição, Jair Bolsonaro quase cumpriu sua promessa de acabar com o "ativismo" no Brasil. O vice-presidente eleito informou que há 14 mil obras paradas no país.

Retomar obras paradas é um bordão de todo governo que pretende alfinetar o antecessor, mas em 2016, quando Michel Temer assumiu, encerrando o primeiro ciclo petista, as obras federais paradas eram apenas 1.600.

TRUMP MENTIROSO

A Comissão da Câmara dos Estados Unidos aprimorou a forma de expor um mentiroso, fritando o ex-presidente Donald Trump pela sua conduta depois da eleição de 2020.

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Pelo sistema convencional, quando um sujeito mente, mostra-se a verdade. A comissão valeu-se de uma nova tática. Mostrou 18 episódios nos quais Trump foi informado da verdade por colaboradores e, dias depois, mentiu dizendo o contrário do que lhe havia sido dito.

Dois exemplos: 1. No dia 15 de dezembro de 2020, antes do ataque ao Capitólio, Trump havia dito que um vídeo mostrava o transporte de votos falsos numa mala. O vice-procurador-geral Jeffrey Rosen corrigiu-o: "Não era uma mala. Era uma caixa. É o que se usa para transportar votos. Coisa benigna".

Sete dias depois, Trump voltou ao tema: "Na Georgia, uma câmera de segurança registrou quando funcionários mandaram que os escrutinadores saíssem da sala e despejaram sobre a mesa votos que estavam numa mala."

2. No dia 1º de dezembro de 2020, o procurador-geral Bill Barr disse-lhe: "Alguém já lhe contou que o senhor teve mais votos em Detroit do que na eleição passada? Em suma, não há indícios de fraude em Detroit".

No dia seguinte Trump insistiu: "Todo mundo viu o tremendo problema de Detroit... Lá apareceram mais votos do que eleitores".

Saudades da transição de FHC para Lula, Elio Gaspari, FSP

 Há 20 anos, Fernando Henrique Cardoso passou a faixa a Lula numa transição que podia sinalizar um processo civilizado para o futuro.

FHC levou caneladas antes, durante e depois da eleição. Passou o governo a Lula com a marca da elegância durante um período de incerteza econômica.

Convidou Lula e Marisa Letícia, sua mulher, para um encontro no Alvorada e, dias depois, FHC e Ruth Cardoso jantaram na Granja do Torto, colocada à disposição do presidente eleito.

Está nas livrarias "Eles Não São Loucos", do repórter João Borges. Ele conta os bastidores das iniciativas que garantiram a paz nacional.

Agora, sem maiores piripacos na economia, a transição civilizada revelou-se uma ilusão. Ninguém sabe como Jair Bolsonaro se comportará. Restará apenas a amargura de uma tensão inútil.

Cinco pessoas brancas aparecem na imagem. Um home de cabelos grisalhos e terno azul coloca a faixa verde e amarela em outro homem de cabelos grisalhos, barba e terno escuro. Atrás deles, um homem calvo observa sorrindo. No canto, uma mulher com cabelos curtos e loiros, com um vestido vermelho de manga na altura dos cotovelos, sorri. Ao lado dela, outro homem calvo, cabelos e bigode branco, observa a passagem da faixa
Fernando Henrique Cardoso passa a faixa presidencial para o presidente Lula, em Brasília. Da esquerda para a direita: Marisa Letícia, primeira-dama, José Alencar, vice de Lula, e Marco Maciel, vice de Fernando Henrique - Moacyr Lopes Junior - 01.Jan.2003/Folhapress

MINISTÉRIO DE LULA

Até agora, o ministério de Lula parece-se com um automóvel que sai da oficina depois que o mecânico desmontou o motor, fez alguns acertos e trocou peças. Parece-se também com a salada de frutas de centro-direita que na política de Portugal denominou-se de "geringonça".

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Lá, só se conseguiu avaliar a máquina quando ela começou a funcionar, e funcionou por quatro anos. Cá, só se vai saber se o carro com 37 ministros funciona direito quando ele estiver na estrada.

RECONCILIAÇÃO A IRREDUTIBILIDADE

Enquanto existirem presos e carcereiros alguém se lembrará da história de Nelson Mandela com Christo Brand, que vigiava a cela onde ele passou 18 dos 27 anos de encarceramento. O preso tornou-se presidente da África do Sul e o carcereiro continuou sua vida de humilde servidor público.

Ao encontrá-lo numa sessão do Congresso, Mandela o abraçou e pediu que sentasse ao seu lado para serem fotografados.

Mandiba, como era conhecido Nelson Mandela, queria reconciliar a África do Sul depois de décadas de segregação racial.

Depois de Bolsonaro, em menor medida, o Brasil precisa de paz.


O futuro ministro Flávio Dino desconvidou o futuro chefe da Polícia Rodoviária Federal porque ele exaltava o juiz Sergio Moro e comemorou a prisão de Lula. Se não devia tê-lo convidado, não deveria tê-lo desconvidado.

Dino escolheu o coronel da PM paulista Nivaldo Cesar Restivo para a Secretaria Nacional de Políticas Penais. Há 31 anos, como tenente, ele estava na logística da operação policial que resultou no massacre de presos do Carandiru, onde foram mortos 111 presidiários. Nunca foi acusado de nada. Incriminá-lo por "estar presente" é um exagero.

Atribui-se a Restivo a afirmação, feita em 2017, de que o desfecho da operação foi "legítimo e necessário’’.
O coronel é um servidor respeitado no sistema penal. Acusado, recusou o convite. Poupou Dino de um constrangimento. Christo Brand nunca maltratou o preso Mandela.

O legado do cristianismo, Celso MIng, OESP

 O cristianismo se tornou tão visceral na cultura ocidental que seu impacto tende a passar despercebido, como o ar que se respira.

É o que explica e demonstra com competência Tom Holland em seu livro Domínio: o cristianismo e a criação da mentalidade ocidental, traduzido em português pela Editora Record.

Tudo começa com um absurdo. Um pregador errante dos confins da Judeia, que depois teve morte vergonhosa de escravo, propôs a igualdade entre os homens e o amor ao próximo como conduta, na contramão de tudo quanto pensavam gregos, egípcios, persas, romanos e até mesmo os judeus. E, no entanto, passou a ser reconhecido como Deus entre certos humanos que, no início, eram vistos como esquisitos. Os últimos serão os primeiros e os primeiros, os últimos, o que, por si só, parece incompreensível, posto que aquele que chega a ser primeiro depois de ter sido o último poderia voltar a ser o último, por ter chegado a ser primeiro.

A mensagem de Cristo era absurda quando medida pelos valores de então e mesmo de depois. Tertuliano de Cartago (século 2º D.C.) e Agostinho de Hipona (século 5º D.C.) repetiam para quem os ouvisse: “Credo quia absurdum” (Acredito porque é absurdo).O fato é que a mensagem cristã “pegou”,alastrou-se e foi transformando mentalidades e instituições. O processo não é uma seta com trajetória firme. Seguiu carregado de idas e vindas, de avanços e recuos. A liberdade (ação do espírito) se mescla à imposição de controles, pela geografia e história.

A questão da escravidão é um desses casos. A ideia de que para Cristo não há desigualdades nem senhor nem escravo era incompreensível e repugnante para um romano. E continuou a ser até mesmo para cristãos que depois consagraram a liberdade, a igualdade e a fraternidade nas constituições, mas mantiveram o tráfico e o trabalho cativo até o século 19 ou, em certos bolsões, até hoje. A abolição teve de ser revogada até mesmo pelos muçulmanos, apesar de legitimada pelo Corão. E foi a Inglaterra, um país cristão, ainda que por motivos geopolíticos e comerciais, que obrigou o islam a abolir a escravidão.

"Domínio: o cristianismo e a criação da mentalidade ocidental", do historiador britânico Tom Holland, foi traduzido em português pela Editora Record.
"Domínio: o cristianismo e a criação da mentalidade ocidental", do historiador britânico Tom Holland, foi traduzido em português pela Editora Record.  Foto: Divulgação/Editora Record

Holland observa, também, que, ao pretender construir seu materialismo histórico, no qual os costumes e a moral não passam de superestruturas e a mais-valia não é mais do que o resultado consistente das relações de trabalho, Karl Marx deixa-se trair pelo uso de categorias que apontam para “exploração”, “escravização” ou “avareza” dos membros das classes dominantes sobre as dominadas.

Um romano jamais diria que explorava um escravo. Era propriedade sua, assim como ninguém diz hoje que um humano explora um cavalo ou um burro de carga.

Os iluministas como Voltaire e Diderot e até mesmo os que declararam a morte de Deus, como Nietzsche, adotam pontos de vistas cristãos para impor seu, observa Holland.