domingo, 25 de novembro de 2018

Nossa grande depressão, Samuel Pessôa, FSP

A crise que se iniciou no segundo trimestre de 2014 é a maior perda de PIB, a segunda maior de PIB per capita e a mais longa desde 1900.
A queda de termos de troca foi pequena, 11% para uma janela de quatro anos de 2015 até 2018 ante os quatro anos anteriores, e o nível dos termos de troca encontra-se relativamente elevado, 46% acima do que se seguiu à crise da dívida externa nos anos 1980. Adicionalmente esse tem sido um período de juros internacionais anormalmente baixos.
Nossa depressão é resultado do esgotamento de duas dinâmicas —contrato social da redemocratização e intervencionismo petista vigente entre 2006 e 2014—, agravado por situação cíclica muito desfavorável.
Entre 1995 e 2017, o salário mínimo real cresceu 165%, e o gasto primário da União subiu de 11% do PIB para 20%. Adicionalmente, a conta da Previdência atingiu 14% do PIB, superior às economias europeias demograficamente maduras.
Esse equilíbrio gerou permanentemente juros reais elevados e inflação pressionada.
O contrato social passou a gerar problemas maiores a partir de 2011, quando a velocidade de crescimento da receita tornou-se normal, isto é, passou a acompanhar o crescimento da economia, e não a superá-lo sistematicamente, como fora o padrão anterior por um período razoavelmente longo.
No primeiro mandato de Dilma, essa dissintonia entre receita e despesa foi resolvida com quatro expedientes transitórios que empurraram e agravaram os problemas em 2015: seguidos planos de refinanciamento de dívidas, distribuição excessiva de dividendos de estatais, antecipação de dividendos e pedaladas fiscais.
Adicionalmente, para esconder os problemas dos estados, entre 2012 e 2014, o Tesouro liberou mais de R$ 100 bilhões em avais da União à contração de dívida pelos estados.
A partir de outubro de 2013, a perspectiva de insolvência do Estado brasileiro passou a pressionar os prêmios de risco e contribuiu para que o investimento iniciasse sua queda já no quarto trimestre de 2013. Até hoje o problema fiscal trava a recuperação do investimento.
A segunda dinâmica que resultou em nossa depressão foi o esgotamento de um longo ciclo de investimento liderado pelo setor público --subsídios dos BNDES, Tesouro e estatais—, que gerou forte endividamento com sobreinvestimento de diversos setores: toda a cadeia de petróleo e gás, indústria naval, setor sucroalcooleiro, automobilístico e construção civil. Os investimentos, mal concebidos e mal executados, resultaram em prejuízos.
Em consequência, o investimento desses setores foi reduzido pesadamente, agravando, portanto, a depressão.
Além das causas estruturais, a depressão foi agravada pela posição cíclica que tínhamos em 2014.
A taxa natural de desemprego —a que mantém os salários crescendo no mesmo ritmo da produtividade do trabalho— é no Brasil entre 8,5% e 9,5%. Entramos na crise com hiperemprego de uns dois ou três pontos percentuais. Demorou muito tempo para que a recessão começasse a ter seus efeitos desinflacionários.
Adicionalmente, havia atraso das tarifas públicas de 20%, que adicionou quatro pontos percentuais na inflação de um ano; e atraso cambial de uns 40%, o que adicionou uns dois pontos percentuais na inflação de um ano.
O enorme déficit externo de 4,5% do PIB em 2014 e o atraso tarifário contribuíram para manter a inflação artificialmente contida em 6,5% ao ano em 2014.
É trágico, mas, dada a nossa trajetória até 2014, não havia muito a ser feito. A crise resulta de medidas tomadas antes de 2015.


    Samuel Pessôa
    Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e sócio da consultoria Reliance. É doutor em economia pela USP.

    Bolsonaro no apocalipse estatal, FSP, Vinicius Torres Freire

    A esquerda dizia que o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) era "neoliberal". A esquerda, petistas inclusive, dizia até que o primeiro governo de Lula da Silva (2003-2006) se rendera ao "neoliberalismo". Que nome vai dar ao projeto de governo da economia de Jair Bolsonaro?
    Sim, projeto, pois sabe-se lá o que vai Paulo Guedes "entregar", como diz o anglicismo horrível dos mercadistas.
    Guedes levou para o governo seus companheiros de escola, mercado, conselhos empresariais e dos institutos Liberal e Millenium, as bestas do apocalipse, aliadas do Satanás da conspiração liberal globalizada, segundo a demonologia de esquerda.
    Desde que há um Estado com derramamentos importantes pela economia (isto é, depois de Getúlio Vargas), não houve no governo do Brasil equipe liberal como esta de Guedes. Relaxando as dificuldades de comparação, mesmo quando o Estado era uma merreca, sob o governo dos fazendeiros de Império e República Velha, jamais houve essa unanimidade liberal radical.
    Sim, ainda é projeto, é ambição, restritos desde o início porque a Casa Militar e o velho espírito de Bolsonaro acham que o "Petróleo é Nosso" e que bancos públicos têm funções sociais e estratégicas. Sabe-se lá o que Jair Bolsonaro vai pensar desse projeto, se e quanto dele for implementado, se e quando compreendê-lo, se ou quando houver revolta antiliberal (de servidores a industriais, passando por políticos e o povo das aposentadorias).
    Assim como a esquerda não tem nome para a coisa, Bolsonaro não sabe e, aparentemente, não quer saber do sentido e do tamanho da coisa. Gosta mesmo é de cruzadas, para as quais nomeou essas pessoas que vão comandar Itamaraty e Educação, as quais também mal conhece, no entanto.
    O presidente eleito converteu-se a alguma ideia vaga liberal em algum momento do governo Dilma Rousseff, uma história que ainda se está a apurar. Conheceu Guedes de fato apenas no ano passado.
    Jamais teve ligação com grupos organizados da elite econômica, menos ainda de grupos de estudo ou de pensamento da elite econômica, liberais ou outros. A julgar pela sua incompreensão quase total do que seja um Banco Central, do que se passa com a dívida pública ou o que são estatísticas econômicas, deve ter remota ideia das consequências do que propõe Guedes, se alguma.
    No entanto, não parece dar a mínima para isso, como ficou evidente desde que encaminhou todas as questões de programa a Paulo Guedes durante a campanha. Apenas calou seu economista-chefe quando a conversa econômica baixava às redes sociais como polêmica (o caso da CPMF, por exemplo). Como vai ser se houver mais furor nas redes insociáveis?
    Também relevante, Bolsonaro não se importa ou faz questão de ser um estranho no ninho da imensa equipe econômica. O presidente eleito arrendou a economia a Guedes e o insulou do restante do governo ou, melhor dizendo, do seu núcleo palaciano, sob controle maior dos generais, seus amigos de escola, irmãos mais velhos, conselheiros maiores.
    É neles, nos oficiais-generais, que Bolsonaro confia a fundo, com eles compartilha mentalidade e camaradagem, faz mais de 40 anos. São eles que vão coordenar seu governo, formal ou informalmente. No limite, Guedes e seus colegas de mercado são fusíveis que podem queimar. Os militares são a estação de força.
    Vinicius Torres Freire
    Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela 

    Populista também sofre, Clovis Rossi, FSP

    Até ontem, partidos e movimentos ditos populistas e/ou nacionalistas pareciam em marcha triunfal rumo ao poder no mundo todo ou, ao menos, na Europa e nos Estados Unidos.

    De fato, um amplo levantamento do jornal britânico The Guardian mostra, por exemplo, que o voto nos populistas, de esquerda mas principalmente de direita, passou, na Europa, de 7% em 1998 a 26% em 2018.

    Mostra também que cerca de 170 milhões de pessoas vivem em um país em que ao menos um membro de um partido populista participa do governo, dez vezes mais que em 1998.

    Que há uma onda populista em curso não dá para negar. A propósito: o triunfo de Jair Bolsonaro no Brasil pode ser incluído nessa onda, por muito toscas que sejam suas premissas.

    Mas convém matizar algo as coisas. Primeiro, nenhum partido populista conseguiu mais do que um quarto dos votos, o que está bem longe, portanto, da maioria. 

    Segundo, mesmo os que se enquistaram no governo o fizeram graças a coligações, nas quais, de modo geral, não têm peso decisivo na formulação de políticas (a exceção é a Itália).

    Têm, no entanto, peso na determinação da agenda, tanto que puxaram partidos da direita civilizada para posições duras em matéria de imigração, o problema que forneceu combustível para boa parte dos grupos populistas/nacionalistas.

    De qualquer forma, nos últimos tempos começou a entrar areia na roda do carro com que marchavam populistas/nacionalistas.

    O mais vistoso e importante triunfo do nacionalismo (a saída do Reino Unido da União Europeia) é também o mais vistoso exemplo de como esse caminho traz mais problemas que soluções.

    Philip Stephens, colunista do habitualmente comedido Financial Times, prevê "algo pior que a bancarrota" se não houver um acordo para um "brexit" suave, que o nacionalismo exacerbado rejeita.

    Seria interessante, portanto, que Bolsonaro ouvisse mais o general Hamilton Mourão, seu vice, antes de dar corda ao seu nacionalismo. 

    A moderação de Mourão, revelada na entrevista para Mônica Bergamo na sexta-feira (23), seria útil para evitar que o governo aderisse ao Movimento. É a coligação internacional que está sendo impulsionada por Stephen Bannon, o ideólogo da extrema direita.

    Bannon é elogiado tanto por um filho de Bolsonaro como pelo futuro chanceler, Ernesto Araújo, um cruzado do nacionalismo.

    O Movimento fica tão à direita que nem partidos de extrema direita estão aderindo, segundo levantamento também do Guardian. Dos 13 países em que Bannon se movimentou, foi rechaçado em 10.

    Encontrou apoio só na Espanha, mesmo assim no minúsculo e inexpressivo Vox, na Itália e na Holanda. Neste país, o apoio é de Geert Wilders (13% dos votos em 2017), tão tóxico que, apesar de ter sido o segundo mais votado, fica sempre excluído de qualquer negociação para formar governo.

    Na Itália, a Liga, xenófoba, obteve apenas 17,4% dos votos, mas virou governo ao se aliar a outro grupo populista, o Movimento 5 Estrelas, de esquerda.

    Aposto que Paulo Guedes desaconselharia aliar-se à Liga: o grupo italiano propõe aumentar o déficit público, o oposto do que Guedes tenciona fazer no Brasil. Populismo e liberalismo raramente combinam.

    O mundo tem mais cores que o preto-e-branco com que o enxergam nacionalismos toscos.


      Clóvis Rossi
      Repórter especial, membro do Conselho Editorial da Folha e vencedor do prêmio Maria Moors Cabot.