domingo, 30 de agosto de 2026

Ninguém gosta das perguntas incômodas (mas é preciso fazê-las),Alexandra Moraes, FSP

 "O que está acontecendo com o jornalismo? Com a comunicação?", perguntou Gabriela Duarte no vídeo em que se manifestou a respeito da entrevista que deu à Folha ao lado de sua mãe, Regina Duarte.

A conversa foi um grande sucesso viral do jornal na última semana e expôs a dinâmica em que filha e equipe reprovavam a mãe quando esta tentava responder questões sobre política, o que incluía a breve e barulhenta passagem de Regina Duarte pelo governo Jair Bolsonaro, em 2020.

"Sinceramente, acho que a gente não vai entrar nesse assunto. Vai falar da peça, do que a gente tá fazendo agora", disse Gabriela, já que para as atrizes o interesse primordial da entrevista era divulgar a estreia do espetáculo "A Filha da…" em São Paulo.

Gabriela interrompeu a resposta da mãe sobre qual seria o custo da vida política. Regina pediu: "Deixa eu falar". Dali sairia o título da entrevista: "Tem gente que não me perdoa ter ido. Tem gente que não me perdoa ter voltado".

A filha tentou dirigir a conversa apenas para a peça. O repórter da Folha foi didático ao explicar: "É parte do meu trabalho fazer perguntas". E que elas poderiam respondê-las ou não.

"Não vai responder isso", interrompeu Gabriela quando a mãe, em seguida, foi questionada sobre se nutre por Flávio Bolsonaro (PL) a mesma admiração que teria pelo pai dele, Jair. O diretor da peça também fez uma intervenção: "Regina, eu acho que já deu". "Cara, para de querer responder" foi a ordem da filha à mãe quando a questão era se voltaria a aceitar cargo público. "Mas eu não aguento, Gabi." "Aguenta, cê é adulta. Não responda, qualquer coisa que você responder vai…"

Três folhas brancas com gráficos de barras e blocos pretos penduradas em um varal com pregadores, contra fundo azul claro e chão branco.
Ilustraçãol de Carvall para coluna da Ombusman de 30 de agosto de 2026 - Carvall /Folhapress

As redes, como é típico delas, promoveram opiniões divergentes sobre a entrevista. Algumas pessoas dividiram com Gabriela Duarte a avaliação de que a insistência do repórter foi inadequada.

"O jornalismo pode incomodar, contradizer, questionar, mas ele também precisa ouvir e respeitar, inclusive quando a resposta não entrega a manchete que ele queria, a manchete esperada. Quando o entrevistado entra preparado para se defender, como aconteceu comigo, e não para conversar, alguma coisa já se perdeu", disse Gabriela no vídeo-comentário em que repreendeu também o fato de o jornal "insistir em política partidária num caderno de cultura, quando a pauta deveria ser o teatro, a arte".

A questão é que o jornalismo não só pode como deve incomodar, contradizer e questionar, além de ouvir e respeitar.

"Agora, é importante lembrar: a imprensa não precisa ser protegida das críticas, mas sim do sensacionalismo", discorreu Gabriela, no que está certa. Ocorre que o repórter estava fazendo o que se espera de um bom repórter.

O problema da Folha, nesse caso, foi não ter dado ao texto o tratamento que ele merecia para refletir a complexidade de toda a interação. Quem só lê a reportagem perde muito da tensão registrada no vídeo. A situação é mais bem descrita num texto posterior, já sobre a reação de Gabriela: Regina "tentou falar sobre o assunto [política] e chegou a verbalizar a vontade de responder às perguntas, mesmo sob os protestos de Gabriela, do diretor da peça, de sua assessoria de imprensa e de uma biógrafa que acompanhava a entrevista".

A tensão e a aversão às perguntas incômodas apareceram de outras formas também nas entrevistas com candidatos ao Planalto.

No Jornal Nacional da quinta (27), Renata Vasconcellos perguntou ao presidente Lula (PT) quais seriam os planos para o problema fiscal do país num eventual quarto mandato. Na resposta, Lula tentou dar aula à jornalista. "Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar a sua pergunta falando diferente, Renata. Você pode me dizer, Renata, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superávit primário durante oito anos do seu governo."

Flávio Bolsonaro aproveitou o gancho, no dia seguinte, para abrir sua entrevista ao mesmo programa apontado para a "descortesia". "Da minha parte, obviamente, fiquem à vontade para fazer qualquer tipo de pergunta."

Poucos dias antes, porém, o filho de Jair Bolsonaro também demonstrou não ter gostado das perguntas sobre a prestação de contas do filme "Dark Horse". "Olha só, vocês vão parar no tempo?", respondeu quando foi questionado pela Folha se tinha mudado de ideia sobre mostrar o contrato entre Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o filme. "Vocês não vão me colocar na mesma página desse cara. Hoje o governo Lula que deve explicações, vão cobrar explicações dele".

Renata Vasconcellos também perguntou a Ronaldo Caiado (PSD) qual seria sua proposta para a sustentabilidade da Previdência. O candidato foi outro a tentar direcionar o questionamento: "Nós não estamos aqui numa mesa examinadora (...). Não é possível que você queira detalhes...".

Perguntas incômodas costumam ser as que servem aos leitores, aos eleitores e ao interesse público, em especial quando envolvem cargos bancados pelo contribuinte.

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