'Acabou a brincadeira!' Veja vídeo da ocupação do Palácio do Planalto

Imagens mostram ação da PM, que neutralizou invadores no domingo, dia 8.
Era 11 de novembro de 2022 quando os comandantes militares foram acionados pelo Ministério da Defesa (MD) para mais uma reunião da Equipe da Forças Armadas de Fiscalização e Auditoria do Sistema Eletrônico de Votação (EFASEV). Durante o ano todo, os chefes das três Forças tiveram seus afazeres desviados da caserna para discutir a eleição, principal preocupação do governo desde que Jair Bolsonaro parecia procurar o que quer que fosse que pudesse confirmar suas suspeitas sobre as urnas eletrônicas.

A descrição do vai e vem das reuniões militares é revelado com toda dramaticidade pelo brigadeiro Carlos Baptista Junior, então comandante da Força Aérea (FAB), no livro Eu disse não: uma trincheira antigolpista (ed. Autêntica, 242 pág), que será lançado em setembro. Nas contas de Baptista Junior, só entre 3 de outubro e 14 de dezembro, os comandantes das três Forças foram chamados doze vezes ao MD.
O brigadeiro e o então comandante do Exército, general Marco Antonio Freire Gomes, tentavam ganhar tempo diante das pressões para que embarcassem em uma aventura golpista. A tática era atrasar o relógio da bomba, que só seria desmontada com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, a fim de que o golpe não explodisse antes.
Em termos militares significava “trocar espaço por tempo”, para que as coisas se resolvessem sem que um enfrentamento direto com Bolsonaro fosse necessário ou sem que Freire Gomes tivesse de prender o presidente. Foi naqueles dias que o brigadeiro testemunhou no Palácio da Alvorada o comandante do Exército dizer, após Bolsonaro contar sua intenção de cancelar a eleição e intervir na Justiça:
“Se o senhor fizer isso, vou ter que lhe prender”. “Não é uma frase capaz de passar incólume à memória dos que estavam presentes. O ambiente foi imediatamente tomado por raro silêncio”, escreveu o brigadeiro, sobre o episódio que ele revelara ao depor no processo do golpe, no Supremo Tribunal Federal (STF).

Entre os dias 3 e 7, a FAB havia sido excluída de reuniões com o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira. Pareciam querer escantear a Aeronáutica, como se para o golpe bastassem as duas outras forças, afinal, se a FAB se opusesse, onde iria pousar seus aviões? A tentativa de quebra da unidade das Forças Armadas foi o que Baptista Junior mais recriminou ao almirante Almir Garnier Santos, comandante da Marinha, que pôs suas tropas à disposição de Bolsonaro.
Esse foi o ambiente em torno da reunião de 11 de novembro. Nela, Baptista Junior reafirmou sua oposição à decretação de Estado de Defesa ou de uma operação de Garantia de Lei e Ordem (GLO) e disse que qualquer dessas hipóteses precisariam ser ratificadas pelo Conselho de Defesa. “Sabíamos que não havia base legal sequer para uma GLO e ver essas opções sendo cogitadas para contornar um resultado eleitoral me incomodava profundamente”, escreveu.

Foi depois dessa reunião que Freire Gomes apresentou a Nota Conjunta dos Comandantes divulgada pelo Blog do Fausto, na qual o comandante da Força Terrestre tentava balizar os limites da legalidade. O documento foi assinado por Garnier e por Baptista Junior, sinalizando uma coesão que já não existiria. Foi após a publicação da nota que Baptista Junior deu o telefonema que definiu, para ele, que o Exército não iria embarcar no golpe.
“Muito preocupado com postura de Bolsonaro e inseguro quanto à coesão do Exército, liguei para o general Sérgio Etchegoyen, com quem desenvolvi uma relação de confiança”, revela. A ligação durou mais de 45 minutos. O brigadeiro expôs suas preocupações. “Dele recebi a confirmação de que ao menos entre os generais mais antigos do Exército havia uma alinhamento completo com a postura legalista do comandante Freire Gomes. Saber aquilo foi um evento crucial para mim.”
A coluna procurou o general Etchegoyen, que confirmou o telefonema e a cena descrita por Baptista Junior. Eis o que disse à coluna o ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), durante a gestão de Michel Temer (2016-2018): “Eu nunca acreditei que isso fosse possível (um golpe de Estado); nunca acreditei pela pretensão de conhecer as pessoas e entender um pouquinho do Exército que eu tinha acabado de sair (o general deixara a chefia do Estado-Maior do Exército em 2016)”.

Etchegoyen continuou: “Depois tem o seguinte: quem tinha um pouquinho de noção da realidade, estudasse um pouquinho, ia saber: uma quartelada não duraria uma manhã”. O general conhecia os comandantes do Exército não apenas por tê-los promovido, enquanto estava no Alto Comando, mas por uma vida inteira na caserna.
“O Freire Gomes foi quem eu levei para ser meu secretário executivo no GSI quando assumi o GSI (em 2016). Então, eu acho que conhecia um pouco ele, né? O (general Valério) Stumpf, que era o chefe do Estado-Maior (em 2022), ele e o Freire Gomes foram meus cadetes (na Academia Militar das Agulhas Negras).”
Etchegoyen detalhou ainda mais sua relação com Stumpf. “O Stumpf serviu comigo como capitão e, depois, quando eu estava no Departamento Geral do Pessoal, eu o escolhi para uma função importante, que era para ser diretor de avaliação e promoções comigo. E foi quem escolhi para substituir o Freire Gomes, quando ele foi promovido a quatro estrelas (general de exército). Então, os dois foram meus secretários executivos no GSI.”

O ex-ministro-chefe do GSI afirmou que não teve nenhum protagonismo no episódio. “Eu não quero dizer que eu tenha feito a cabeça de homens maduros, não. Mas eu os conhecia, sabia como eles pensavam e imaginava como iam agir. Mas eu não sou protagonista nisso não. Eles são pessoas com luz própria.”
Etchegoyen concluiu que, algumas vezes, as pessoas confundem firmeza de princípios com o radicalismo. “Uma coisa é ter convicção e ser firme nos princípios; outra coisa é tu seres radical. O sujeito que é firme nos seus princípios, firme nas suas convicções, ele age de acordo com elas. O sujeito que é radical transgride a lei para manter ou para impor os seus pensamentos.”
É por isso que o general conta que se “surpreenderia muito” se houvesse “alguma coisa” na caserna em 2022, o que não acontecera em 1992, nem em 2016, durante os impeachments de Fernando Collor e de Dilma Rousseff. “Ninguém foi ao quartel perguntar se a gente concordava. Houve um amadurecimento da sociedade.”

O relato do brigadeiro sobre o telefone para Etchegoyen ajuda a jogar luz sobre os fatos. Seu depoimento ainda vai ser alvo de muita polêmica, assim como o próprio oficial-aviador desperta até hoje dentro da FAB. Ele reconhece que perdeu amizades de décadas, mas não se arrepende de suas decisões. Assim como Freire Gomes, o brigadeiro enfrentou uma hora capital durante os meses em que alguns tentavam impedir, por meio de operações psicológicas e de planos de assassinatos, a posse do presidente eleito.
É verdade que o papel do comandante do Exército foi capital. Se ele tivesse decidido abraçar a aventura golpista, o próprio Baptista Junior sabe que não haveria o que fazer. Em O Soldado e o Estado, Samuel Huntington escreveu que “sobre os soldados, defensores da ordem, recai uma pesada responsabilidade: se abjurarem o espírito militar, destroem primeiro a si mesmos e, depois, à Nação”.
Em face das investidas golpistas, o brigadeiro Baptista Junior se viu diante dessa escolha – escolha que define uma vida. Impossível não se lembrar da advertência de Huntington ao ler o seu livro. Mais do que um testemunho, ele é um documento histórico.







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