segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Soluções baseadas na natureza transformam cidades, FSP

  

Juliana Baladelli Ribeiro

Bióloga, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário e especialista em SBN (Soluções Baseadas na Natureza)

Diante do aumento das chuvas intensas, das ondas de calor e de outros eventos climáticos extremos, o modelo de desenvolvimento urbano baseado quase exclusivamente em concreto e infraestrutura cinza já não responde aos desafios das cidades.

O crescimento urbano é necessário, e incorporar a natureza ao planejamento convencional facilita a adaptação climática. Integrar ecossistemas às obras públicas amplia a eficiência da infraestrutura, fortalece a resiliência à mudança do clima e gera benefícios para a população.

Entulho jogado nas margens do rio dos Bugres, que divide as cidades de Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo - Danilo Verpa - 7.fev.2025/Folhapress

As SBNs (Soluções Baseadas na Natureza) representam esse caminho. São estratégias que utilizam a própria natureza para enfrentar problemas urbanos, por meio de iniciativas como arborização, parques lineares e jardins de chuva.

Além de reduzir riscos de inundações e alagamentos, essas soluções contribuem para o conforto térmico, conservação da biodiversidade, oferta de áreas de lazer e a melhoria da qualidade de vida.

Apesar dessas vantagens, o conhecimento sobre o tema ainda é limitado. A pesquisa "Natureza e Cidades: a relação dos brasileiros com as mudanças climáticas", realizada pela Fundação Grupo Boticário em parceria com a Unesco, mostra que 90% da população desconhece o conceito de SBN.

Quando informados sobre o que são essas soluções, 98% dos entrevistados se mostram favoráveis à sua implementação. Parques, praças, bosques, telhados verdes e o plantio de árvores aparecem entre as iniciativas mais valorizadas.

Além do desconhecimento público, há outro obstáculo para a implementação dessas soluções: a escassez de profissionais capacitados na temática de SBN. Projetos urbanos com soluções baseadas na natureza exigem integração entre engenharia, planejamento urbano, ecologia urbana e gestão pública.

Não se trata de ampliar áreas verdes de forma estética, mas de compreender qual problema urbano e social precisa ser resolvido.

Engenheiros, arquitetos, urbanistas, biólogos, geógrafos e gestores públicos ainda encontram poucas oportunidades de formação nessa área. Como consequência, estados e municípios enfrentam dificuldades para viabilizar projetos de Soluções Baseadas na Natureza.

Enquanto a demanda por essas competências cresce, a formação profissional continua voltada, na maioria, ao modelo tradicional de infraestrutura cinza.

Ampliar a capacitação é essencial para que a adaptação climática seja incorporada às políticas públicas. Iniciativas desenvolvidas pela Fundação Grupo Boticário, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Fundação Getúlio Vargas e a agência alemã Giz (Agência Alemã de Cooperação Internacional), já oferecem formações gratuitas voltadas à integração de ecossistemas ao planejamento urbano e à gestão pública.

Em uma delas, 1.275 gestores federais receberam orientações sobre adaptação baseada em ecossistemas.

Outro desafio é o financiamento. Embora as SBNs sejam reconhecidas por seus benefícios, ainda representam uma parcela pequena dos investimentos em infraestrutura urbana. Todos os anos, mais de R$ 200 bilhões em empréstimos são destinados aos municípios, principalmente para obras convencionais.

Direcionar parte desses recursos para projetos que integrem natureza e infraestrutura ampliaria a capacidade de adaptação das cidades sem comprometer seu desenvolvimento.

Construir cidades com a natureza significa superar a falsa oposição entre desenvolvimento e conservação. Rios, solos permeáveis, árvores e outros ecossistemas também são infraestrutura.

O país já sabe que precisa mudar, agora precisa formar pessoas capazes de fazer essa mudança acontecer, transformando o desafio da crise climática em oportunidades de inovação, segurança e bem-estar para o presente e o futuro.

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