18.ago.2026 às 17h00
A música "Rockabye", lançada pelo grupo britânico Clean Bandit em outubro de 2016, é uma das minhas favoritas não só pela melodia, mas também pela letra. A música, escrita por Jack Patterson e Ina Wroldsen, retrata a realidade de uma mãe solo que faz de tudo para sustentar e proteger seu filho. Ina, compositora norueguesa, também é mãe solo.
A realidade brasileira é muito diferente da norueguesa, mas tenho certeza de que ser mãe solo é difícil em qualquer lugar. O trabalho de cuidado é contínuo, muito demandante e, por vezes, exaustivo. No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua para o 1º trimestre de 2026, realizada pelo IBGE, entre as mulheres com mais de 18 anos, aproximadamente 87% dos lares monoparentais são chefiados por mães. Quase 67% dessas mulheres são pretas ou pardas. Entre as mães solo, 63% estão ocupadas. No entanto, 45% estão na informalidade e a renda média corresponde a apenas 80% da renda das mulheres ocupadas com mais de 18 anos.
Essa proporção de quase 90%, no entanto, não significa que todas essas mulheres criem seus filhos sem a participação dos pais. Dado o formato da pesquisa, não sabemos se o pai é presente, se contribui financeiramente, se está vivo ou sequer consta no registro da criança. Além disso, a pesquisa não fornece informações sobre o estado civil das pessoas. Assim, não sabemos se a mãe é solteira, divorciada ou viúva. A ausência dessas informações prejudica a elaboração de um retrato mais fiel da população, inclusive das diferentes realidades por trás da maternidade solo.
Uma dimensão da ausência paterna, no entanto, pode ser observada nos registros de nascimento. A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) disponibiliza, no Portal da Transparência, a lista de nascidos em cujos registros constam apenas o nome da mãe. Dos 27 milhões de nascimentos entre 2016 e 2025, 6% se enquadram nessa categoria. São famílias em que a criança sequer tem o reconhecimento do próprio genitor. Onde estão esses pais? A presença de ambos os genitores é relevante para a criação e a formação das crianças, exceto em casos de violência doméstica.
Há evidências de que crescer numa família monoparental pode estar associado a efeitos negativos no bem-estar emocional, no desenvolvimento cognitivo e no desempenho escolar das crianças. A sociedade culpabiliza frequentemente a mãe e pergunta o que ela fez ou deixou de fazer, mas raramente pergunta sobre o pai. Essas mulheres muitas vezes se ausentam por longas horas porque precisam trabalhar e, ao mesmo tempo, arcam com grande parte das responsabilidades de cuidado. Elas precisam de apoio.
Diante disso, as políticas públicas são relevantes para apoiar essas mães e seus filhos, inclusive no acesso à saúde e à educação. A educação integral, em particular, pode apoiar mães com menos recursos na oferta de atividades complementares para seus filhos. Ao mesmo tempo, oferece um ambiente protegido por um período prolongado e pode contribuir para melhorar o desempenho escolar das crianças.
É importante alterar a percepção da sociedade sobre o papel do pai na criação dos filhos. A responsabilidade é de ambos. Políticas como mutirões para incluir o nome do pai na certidão de nascimento ou a extensão da licença-paternidade podem contribuir nesse sentido.
Dedico essa coluna a todas as mães solo que lutam para criar e proteger seus filhos, como Ina Wroldsen descreve em sua música.

Nenhum comentário:
Postar um comentário