terça-feira, 18 de agosto de 2026

Wilson Gomes Janones desafia a esquerda a abandonar a 'campanha fofa' - FSP

 André Janones anunciou no X que está de volta à linha de frente da campanha de Lula. Disse ter "aceitado a missão", publicou uma foto com o presidente e prometeu seguir a estratégia que, segundo ele, a esquerda precisa adotar para enfrentar a direita: abandonar a "campanha fofa" e entrar na guerra digital "sem medo, sem pudor e sem remorso".

Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.

Na ilustração, um celular, visto de frente e na posição horizontal, ocupa quase toda a imagem. Na tela, aparece em primeiro plano o rosto de um homem desenhado em traços finos de bico de pena, com hachuras vermelhas. No primeiro plano, uma mão toca a tela com o dedo indicador, está aplicando uma faixa de tinta preta logo abaixo de um dos olhos, enquanto outra faixa semelhante já aparece sob o outro olho. O gesto remete diretamente à pintura de guerra: se preparando para entrar em combate, neste caso, para a “guerra digital” das redes sociais. O rosto permanece impassível, enquanto a movimentação da mão introduz uma dimensão de real movimento e agressividade. Nas laterais da tela do celular há grandes áreas vermelhas. O contraste entre o desenho meticuloso do rosto, as marcas negras sob os olhos e o gesto da mão cria uma metáfora visual para a guerra digital, a disputa agressiva por narrativas e a disposição de “entrar na lama” das redes sociais. A pintura de guerra transforma simbolicamente o personagem em um combatente prestes a entrar no campo de batalha virtual.
Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 19 de agosto de 2026 - Ariel Severino/Folhapress

O roteiro vem sendo escrito há semanas. Primeiro, Janones anunciou que a meta deveria ser o "extermínio completo do bolsonarismo" e declarou-se pronto para "matar ou morrer". Depois, acusou seu campo de "treinar fofo", enquanto os bolsonaristas já estariam dominando as narrativas e o engajamento.

Em seguida vieram a fotografia, o anúncio da suposta missão e a declaração de guerra. Finalmente, convocou a militância a abandonar a "esquerda limpinha" e escolher suas armas, prometendo "tiro, porrada e bomba nas redes, 24 horas por dia".

Pode ser apenas Janones reivindicando para si um lugar que a campanha de Lula não lhe concedeu. De toda forma, é interessante como ele revela uma concepção bastante precisa de comunicação eleitoral que é compartilhada por parte considerável da militância: não se pode ter nojo de sujar as mãos e lutar na lama, se necessário.

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Campanhas eleitorais sempre combinam estilos de comunicação. Há a campanha oficial, submetida à legislação, às pesquisas, às alianças e ao cálculo reputacional do candidato. E há partidos, parlamentares, influenciadores, militantes e redes de apoio que atuam com graus de coordenação e autonomia. Alguns podem assumir as tarefas que o núcleo oficial não quer incorporar à sua voz.

É esse lugar que Janones reivindica. "Um governo tem limitações que nós não temos aqui pelas redes", escreveu ao absolver Lula, o governo e a Secom daquilo que considera a incompetência digital da esquerda. A proposta é uma divisão do trabalho: enquanto a campanha oficial preserva o candidato, outros provocam, ridicularizam, alarmam, atacam reputações e brigam por atenção nas plataformas.

Não é invenção sua. Figuras muito diferentes da direita digital, como Carlos Bolsonaro e Pablo Marçal, também operam num repertório em que conflito, choque, linguagem direta, quebra de liturgias e provocação têm valor estratégico. Janones adota parte dessa gramática, mas acrescenta uma justificativa: não se entra no esgoto porque seja bom, mas porque o adversário já está lá. Recusar suas armas seria aceitar lutar em desvantagem.

Daí o desprezo pela "campanha fofa", pela "esquerda limpinha", pelos "cirandeiros" e "arrogantes de salto alto". O alvo interno é quem supostamente confunde escrúpulo e correção de linguagem com eficácia eleitoral. O janonismo cultural reaparece, assim, como uma doutrina de espelhamento: se a extrema direita prosperou com agressividade, transgressão e guerra permanente por atenção e impacto, a esquerda deveria fazer o mesmo.

Há, contudo, bons motivos para se ter cautela com esta doutrina. O primeiro tem a ver com prudência política. Quem escolhe a destruição reputacional e a guerrilha de narrativas como armas deve contar com a reciprocidade do inimigo. Janones deveria saber que quem tem telhado de vidro não está especialmente protegido em uma guerra de pedras e que, com dois escândalos políticos suspensos como lâminas sobre o pescoço dos candidatos este ano, talvez não seja sábio esticar demais a corda.

O segundo é elementar: eleição não é guerra. Ninguém precisa matar nem morrer. Uma campanha existe para convencer pessoas, inclusive algumas que votaram no adversário. A retórica da aniquilação pode excitar militantes, mas não é evidente que seja o melhor idioma para persuadir quem ainda pode mudar de lado.

Finalmente, "livrar o país" de um campo político é uma fantasia de militantes radicais. Eleições derrotam candidatos; não exterminam os milhões de cidadãos que votam neles. O bolsonarismo mostra o quanto a promessa de eliminar o inimigo mobiliza os fiéis e, ao mesmo tempo, reduz a política a uma batalha moral sem fim.

A esquerda pode aprender com a direita digital sobre velocidade, presença nas redes e capacidade de resposta. Não precisa aprender que política é guerra nem que adversários existem para ser exterminados. Uma campanha pode até precisar entrar na lama de vez em quando. O erro é imaginar que é no lodo que estão os eleitores que faltam para vencer.


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