Mesmo sem grandes chances de vitória, o eleitor mais ao centro sempre teve opções para votar tranquilamente no primeiro turno, antes de se render à lógica do mal menor no segundo. Em 2018, havia Marina, Ciro, Meirelles, Alckmin. Em 2022, Simone Tebet. Em 2026, não.
O que de mais próximo temos disso, Ronaldo Caiado com Kassab de vice, é uma candidatura solidamente de direita (até na oposição às câmeras da polícia) e que adere à pauta central do bolsonarismo: a anistia inclusive para os mandantes da trama golpista. E isso não é à toa. É porque ele calcula —provavelmente com razão— que não teria a menor chance com o eleitorado de direita caso não abraçasse essa bandeira.
Renan Santos e Romeu Zema são, ou querem ser, o Bukele e o Milei de uma nova onda de direita mais pura que o bolsonarismo. De resto, há um punhado de nomes da extrema esquerda cuja função é propagar uma revolução que nunca chega. Todos eles, à direita e à esquerda, são coadjuvantes do conflito central entre lulismo e bolsonarismo, que não deu até agora nenhum indício de que irá embora.
A polarização, portanto, segue dando as cartas. Mas é uma polarização desesperançada; sem a ilusão de que seus dois representantes realmente trarão a sonhada transformação da sociedade. Houve quem esperasse de Bolsonaro o fogo restaurador a partir de 2019. Crescimento galopante, fim do crime organizado, combate à corrupção, velha política acuada. Ele não veio. Nem o bolsonarista mais radical deve esperar que, com Flávio, será melhor.
Lula voltou ao poder em 2023, subindo a rampa cercado de minorias e com promessas ambiciosas. Alguns projetavam nele uma frente ampla com agenda social, ambiental e ortodoxia econômica. Outros torciam por um governo abertamente pró-trabalhador, esquerda pra valer, picanha no prato do trabalhador e política industrial chinesa. Ambos devem estar decepcionados.
Sobrou o lado negativo. Nosso candidato pode não ser grande coisa, mas, se o outro lado vencer, será o apocalipse. Essa crença justifica escolhas vergonhosas. A essa altura, no entanto, ninguém deveria acreditar que Flávio quer e conseguiria dar um golpe ou que Lula, depois de três mandatos, no quarto sim nos transformaria numa Venezuela.
Em meio a essa ressaca, quem mais se fortaleceu foi a força política conhecida como centrão, isto é, legendas sem conteúdo programático claro, mas capazes de abocanhar fatias crescentes do Orçamento para agradar suas bases e garantir a reeleição. A corrupção ganhou espaço e agora os escândalos se somam ao ponto de anestesiar a indignação geral. Quando muito, tenta-se usá-la, sem sucesso, para provar que o culpado é o lado contrário.
De duas, uma: ou estamos já na lenta curva de aprendizado social, em que os milhões de novos participantes do debate público a que as redes sociais deram voz e espaço para sonhar vão aos poucos aprendendo que não há soluções mágicas nem salvadores, que a política jamais entregará a utopia, e que o melhor que podemos fazer é o aprimoramento gradual.
Ou então a resposta para a desilusão será aumentar a dose da ilusão: "Falhamos porque não fomos radicais o suficiente, precisamos realmente varrer do mapa tudo o que existia antes, começar do zero, até dar certo". As escolhas podem parecer ruins agora, mas não se enganem: ainda há muito poço a se mergulhar.

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