Centenas de capacetes, um sofá, uma porta de geladeira e dezenas de televisores de tubo. Esses são alguns dos resíduos mais esquisitos que as águas do rio Atuba, na região metropolitana de Curitiba (PR), levaram até a barreira criada há dez anos por Diego Saldanha na tentativa de impedir que tudo aquilo seguisse o curso até desaguar no Iguaçu e suas famosas cataratas.
"Eu morei a vida toda à beira do rio Atuba. Há 30 anos, ele era limpo. Eu nadava e pescava ali. Hoje, o rio está sujo e poluído", diz o paranaense que queria "trazer uma vida melhor para o rio".
O que começou em 2016 de forma improvisada para capturar resíduos dos rios hoje é um sistema batizado de ecobarreira e composto por uma balsa flutuante atravessada de uma margem a outra do rio equipada com esteira transportadora e um pequeno galpão para receber e triar resíduos. E Saldanha estima que já tenha retirado mais de 40 toneladas de materiais do Atuba.
Também se desdobrou em uma estrutura metálica que pode ser arrastada pelas areias das praias para peneirar as tampinhas, bitucas e outras sujeiras, batizada de ecopeneira. A ferramenta, criada em 2023, vendeu cerca de R$ 1,1 milhão desde então.
Dez anos atrás, quando começou o protótipo da ecobarreira, trabalhava como vendedor de frutas nos semáforos de Curitiba. Usou o que tinha à mão: tambores de 20 litros envolvidos por redes de proteção, amarrados uns aos outros e atravessados de uma margem à outra do Atuba.
A estrutura inicial retinha pouco lixo, mas o suficiente para convencê-lo do potencial da sua invenção. "Vi que ficou legal, que era possível evoluir a ideia e comecei a divulgar isso nas minhas redes sociais, porque tinha feito tudo por conta própria", diz. "Encontrei alcance e apoio."
Seu experimento, no entanto, não foi bem recebido por todos. "Me chamaram de louco. E fui até denunciado por vizinhos", lembra ele sobre o episódio que lhe rendeu uma visita da polícia ambiental, que posou para uma selfie antes de fechar a ocorrência.
"No fim, isso me ajudou. Ganhei 2,5 milhões de visualizações", brinca. Com a visibilidade, o projeto virou negócio, e Saldanha, um empreendedor ambiental. Hoje, ele diz que a atividade mudou sua vida em todos os sentidos. "Eu me sinto muito bem limpando o rio. Consegui trazer um conforto para a família, tudo por acreditar num sonho que, no início, muita gente não acreditava."
Segundo Saldanha, a quantidade de lixo capturada pela ecobarreira varia de acordo com o rio e com a época do ano. No Atuba, ele calcula retirar de 2 a 3 toneladas por ano. "Em alguns outros rios, pode ser isso por mês, em especial em rios urbanos, que concentram mais resíduo", afirma.
Ainda que a pesca e o transporte marítimo sejam responsáveis por parte do lixo que vai parar nos oceanos, são os rios os maiores emissores de resíduos nos mares. Eles carregam até o mar o lixo descartado de forma inadequada —às vezes há centenas de quilômetros de distância da linha costeira.
A ideia já foi replicada em outros lugares. Saldanha cita uma instalação no riacho Salgadinho, em Maceió, (AL) que deságua no mar e onde a barreira funciona como uma espécie de cinturão de proteção para reduzir a chegada de resíduos ao oceano. Também levou o modelo para igarapés de Belém (PA) durante a COP30, e a Matinhos, no litoral do Paraná.
Saldanha, que só conhecia as margens do Atuba e do Iguaçu, viajou por vários rios do Brasil. "Conheci a foz do Amazonas, a usina de Itaipu e o rio Madeira", conta ele, que também passou a percorrer o litoral brasileiro em ações ambientais em parceria com marcas como Havaianas e Sprite em que usa a ecopeneira que desenvolveu.
Saldanha conta que sempre passa o fim de ano no litoral e fica incomodado com a quantidade de lixo deixada na areia depois das festas da virada. Conheceu um equipamento deste tipo num evento ambiental no Marrocos, e adaptou o modelo na volta ao Brasil.
Feita de aço galvanizado, ela é empurrada como um arado, e peneira a areia, retendo resíduos pequenos, como canudos, sachês, tampinhas de metal e de plástico. "Já encontrei agulhas e muito caco de vidro também."
A procura pelo equipamento fez o inventor transformar a adaptação em outro produto comercial. Há modelos de cerca de R$ 800 e versões com rodas, para facilitar o deslocamento, por cerca de R$ 1.200.


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