segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Ex-vendedor de frutas cria tecnologia para coletar resíduos de rios e de areia das praias, FSP

 Fernanda Mena

São Paulo

Centenas de capacetes, um sofá, uma porta de geladeira e dezenas de televisores de tubo. Esses são alguns dos resíduos mais esquisitos que as águas do rio Atuba, na região metropolitana de Curitiba (PR), levaram até a barreira criada há dez anos por Diego Saldanha na tentativa de impedir que tudo aquilo seguisse o curso até desaguar no Iguaçu e suas famosas cataratas.

"Eu morei a vida toda à beira do rio Atuba. Há 30 anos, ele era limpo. Eu nadava e pescava ali. Hoje, o rio está sujo e poluído", diz o paranaense que queria "trazer uma vida melhor para o rio".

O que começou em 2016 de forma improvisada para capturar resíduos dos rios hoje é um sistema batizado de ecobarreira e composto por uma balsa flutuante atravessada de uma margem a outra do rio equipada com esteira transportadora e um pequeno galpão para receber e triar resíduos. E Saldanha estima que já tenha retirado mais de 40 toneladas de materiais do Atuba.

Homem usando botas de borracha e luvas está em um rio raso, segurando uma rede de pesca. Ele está atrás de uma barreira flutuante branca que se estende pelo rio, cercada por vegetação densa nas margens.
O paranaense Diego Saldanha era vendedor de frutas quando resolveu experimentar um sistema para reter os resíduos do rio perto da sua casa. Criou a ecobarreira, hoje em outros sete pontos do país, e, anos depois, a ecopeneira, para peneirar resíduos das areias das praias - Divulgação

Também se desdobrou em uma estrutura metálica que pode ser arrastada pelas areias das praias para peneirar as tampinhas, bitucas e outras sujeiras, batizada de ecopeneira. A ferramenta, criada em 2023, vendeu cerca de R$ 1,1 milhão desde então.

Dez anos atrás, quando começou o protótipo da ecobarreira, trabalhava como vendedor de frutas nos semáforos de Curitiba. Usou o que tinha à mão: tambores de 20 litros envolvidos por redes de proteção, amarrados uns aos outros e atravessados de uma margem à outra do Atuba.

A estrutura inicial retinha pouco lixo, mas o suficiente para convencê-lo do potencial da sua invenção. "Vi que ficou legal, que era possível evoluir a ideia e comecei a divulgar isso nas minhas redes sociais, porque tinha feito tudo por conta própria", diz. "Encontrei alcance e apoio."

Seu experimento, no entanto, não foi bem recebido por todos. "Me chamaram de louco. E fui até denunciado por vizinhos", lembra ele sobre o episódio que lhe rendeu uma visita da polícia ambiental, que posou para uma selfie antes de fechar a ocorrência.

"No fim, isso me ajudou. Ganhei 2,5 milhões de visualizações", brinca. Com a visibilidade, o projeto virou negócio, e Saldanha, um empreendedor ambiental. Hoje, ele diz que a atividade mudou sua vida em todos os sentidos. "Eu me sinto muito bem limpando o rio. Consegui trazer um conforto para a família, tudo por acreditar num sonho que, no início, muita gente não acreditava."

Segundo Saldanha, a quantidade de lixo capturada pela ecobarreira varia de acordo com o rio e com a época do ano. No Atuba, ele calcula retirar de 2 a 3 toneladas por ano. "Em alguns outros rios, pode ser isso por mês, em especial em rios urbanos, que concentram mais resíduo", afirma.

Ainda que a pesca e o transporte marítimo sejam responsáveis por parte do lixo que vai parar nos oceanos, são os rios os maiores emissores de resíduos nos mares. Eles carregam até o mar o lixo descartado de forma inadequada —às vezes há centenas de quilômetros de distância da linha costeira.

A ideia já foi replicada em outros lugares. Saldanha cita uma instalação no riacho Salgadinho, em Maceió, (AL) que deságua no mar e onde a barreira funciona como uma espécie de cinturão de proteção para reduzir a chegada de resíduos ao oceano. Também levou o modelo para igarapés de Belém (PA) durante a COP30, e a Matinhos, no litoral do Paraná.

Saldanha, que só conhecia as margens do Atuba e do Iguaçu, viajou por vários rios do Brasil. "Conheci a foz do Amazonas, a usina de Itaipu e o rio Madeira", conta ele, que também passou a percorrer o litoral brasileiro em ações ambientais em parceria com marcas como Havaianas e Sprite em que usa a ecopeneira que desenvolveu.

Homem de camiseta branca e bermuda preta usa um rolo grande para alisar a areia clara de uma praia durante o dia. Ao fundo, mar azul e vegetação verde sob céu claro.
O empreendedor ambiental Diego Saldanha utiliza a ecopeneira que criou para limpar resíduos das areias das praias - Divulgação

Saldanha conta que sempre passa o fim de ano no litoral e fica incomodado com a quantidade de lixo deixada na areia depois das festas da virada. Conheceu um equipamento deste tipo num evento ambiental no Marrocos, e adaptou o modelo na volta ao Brasil.

Feita de aço galvanizado, ela é empurrada como um arado, e peneira a areia, retendo resíduos pequenos, como canudos, sachês, tampinhas de metal e de plástico. "Já encontrei agulhas e muito caco de vidro também."

A procura pelo equipamento fez o inventor transformar a adaptação em outro produto comercial. Há modelos de cerca de R$ 800 e versões com rodas, para facilitar o deslocamento, por cerca de R$ 1.200.

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