domingo, 2 de agosto de 2026

João Otávio Bacchi Gutinieki - Perdemos a capacidade de nos sensibilizar? FSP

João Otávio Bacchi Gutinieki

Advogado, é professor do FGV LAW

Mesmo que ainda à nossa espreita, parece que pouca gente se lembra (ou quer se recordar) dos tempos de insanidade pelos quais passamos durante a pandemia. Milhares de mortes diárias, desmandos, medicamento sendo mostrado para uma ema. Tudo passou tão rápido que parece que a ferida ficou aberta apenas para quem perdeu um ente querido, um amigo, e que fica remoendo um eterno "e se?".

Mas o que mais impressiona é que a falta de memória da crise sanitária parece permanecer no cotidiano, em outras tragédias diárias. Perdemos a capacidade de nos sensibilizar?

Jovem com camiseta preta tira selfie com celular em ambiente interno branco. Ao fundo, sofá preto com detalhes em botão e prateleira com objetos.
O gari Diêgo Rafael da Silva, 19, foi atropelado e morto por um motorista bêbado enquanto trabalhava na Barra Funda, na zona oeste de São Paulo - Reprodução/TV Record

No domingo passado (26), foi noticiada a morte de um coletor de lixo, Diêgo Rafael da Silva, atingido em uma rua de São Paulo por um veículo de grande porte conduzido por uma pessoa alcoolizada, segundo demonstra a investigação da polícia.

Diêgo tinha apenas 19 anos. Dezenove anos. Deixa uma filha de 1 ano e 3 meses e a esposa grávida.

Uma morte troncha, digna de um país que, como dizia Darcy Ribeiro, é um moinho de gastar gente.

Quais as respostas? Uma nota de condolências de meia dúzia de políticos nas redes sociais?

Em algumas partes da capital paulista, coletores pararam por alguns dias. Como Diêgo, são funcionários de uma concessionária que presta o serviço público no lugar da prefeitura. Uma situação de "quarteirizado". A preocupação da concessionária, de acordo com o noticiário, foi informar a população que o serviço foi normalizado na quarta-feira (29). Normalizado para quem?

Grupo de garis em uniformes verde e laranja protesta em rua urbana, segurando cartazes com frases como 'A vida dos garis importa' e 'Justiça por Diego'. Prédios altos e árvores aparecem ao fundo sob céu claro.
Trabalhadores da coleta de lixo da capital paulista realizam protesto em frente ao 7º DP (Lapa) contra a morte do gari Diêgo Rafael da Silva, atropelado e morto por um motorista embriagado no domingo (26) - Bruno Santos/Folhapress

Mas e os demais colegas, companheiros de uniforme, não se manifestam? Uma situação como esta, em um lugar em que a vida tem algum valor, levaria, no mínimo, a uma paralisação geral na coleta de lixo. Seria a homenagem devida a uma pessoa que perdeu a vida cumprindo seu dever, trabalhando para a manutenção da possibilidade de se viver em sociedade e em uma cidade.

As autoridades policiais e judiciárias tomarão conta do condutor do veículo, que está preso. Mas e nós, como sociedade? Não nos sensibilizaremos de maneira decente? Um protesto contra a violência no trânsito, uma passeata pela vida de Diêgo; enfim, façamos alguma coisa.

Diversas placas espalhadas pela metrópole dizem que no ano passado morreram 475 motociclistas. Há algum espanto?

Placa eletrônica sobre rodovia exibe mensagem: '475 pessoas morreram em acidentes de moto em 2025'. Caminhão vermelho e carro branco trafegam na via sob a placa.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) mandou instalar mais de dois mil letreiros sobre mortes no trânsito em SP - Divulgação

É impossível viver em paz onde há sempre pessoas invisibilizadas: empregados por aplicativo, garis, coletores de lixo; gente da nossa gente e que está sempre a nos servir, mas que não queremos ver.

A esperança é que possamos, um dia, nos sensibilizar pela dor do outro e pelo valor de cada vida. Que deixemos de ser o dito moinho, onde "vive-se e morre-se como moscas", como disse o comentário de um leitor nas páginas desta Folha.

Que sejamos o país em que as pessoas se mobilizam pelo que importa, como bem mostra a exposição sobre Laudelina de Campos Mello (1904–1991), liderança histórica pelos direitos das empregadas domésticas, em cartaz no IMS Paulista. É pelos filhos do Diêgo e pelo meu, que também está para nascer.

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