terça-feira, 11 de agosto de 2026

Rodrigo Toniol - E quando uma igreja deixa de ser igreja?, FSP

 Uma igreja em cada esquina. A sensação se disseminou, com espanto, ao longo da década de 1990, quando o Brasil ainda demorava a reconhecer a força do movimento evangélico pentecostal e a consequente multiplicação de seus templos. Nos últimos anos, essa percepção se consolidou e ganhou qualidade estatística.

Segundo dados do IBGE divulgados em 2024, existem no país mais de meio milhão de estabelecimentos religiosos de diferentes denominações. Para efeito de comparação, a mesma pesquisa indicava que o número de estabelecimentos de ensino e de saúde correspondia, em cada caso, a menos da metade desse total.

Com centenas de milhares de templos espalhados pelo país, é inevitável que muitos deles, em algum momento, fechem, sejam vendidos ou recebam novos usos. É nesse ponto que a expansão religiosa se encontra com o mercado imobiliário e que começam a se avolumar os casos de igrejas que deixam de ser igrejas no Brasil.

Entrada do Cine Clipan com letreiro iluminado em letras brancas sobre fundo circular. Espaço interno amplo com paredes de concreto, escadas ao fundo e pessoas sentadas em bancos arredondados. Ambiente com iluminação suave e teto branco curvo.
Projeto do Nu Cine Copan, que vai reabrir cinema no edifício Copan, fechado desde os anos 1980 - Divulgação

Há exemplos já clássicos, como o da antiga Igreja Presbiteriana no bairro do Bixiga, em São Paulo. Depois do encerramento dos cultos, o local abrigou espaços de teatro experimental, entre eles o Teatro Igreja e o Teatro da Praça. A partir de 2006, o espaço ganhou diferentes nomes e propostas, sempre com a vocação para receber shows, festas e diferentes performances. Acima daquilo que fora um altar, ainda está a inscrição "Casa de oração para todos os povos".

A antiga capela das Irmãs Bernardinas, em Canela, no Rio Grande do Sul, é outro caso. Inaugurado em 1952, o prédio abrigou uma importante escola do município e, no andar superior, os dormitórios das internas, a clausura das religiosas e uma pequena capela. Com o declínio do interesse pelo noviciado e o encerramento das atividades do colégio, o edifício preservou a arquitetura original, mas, no lugar do centro religioso, passou a abrigar, entre outros comércios, um bar e um wine bar.

Mais recentemente, em junho de 2022, o prédio da Igreja Nova Apostólica, apesar de manter seus traços de edificação religiosa, passou a abrigar a tradicional livraria gaúcha Bamboletras.

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Poucos desses casos, contudo, se comparam à trajetória do Cine Copan. Anunciado na década de 1950 como "o Rockefeller Center de São Paulo", o edifício concebido por Oscar Niemeyer teria, em sua parte térrea, um moderno teatro e um luxuoso cinema. A sala, inaugurada em 1970 com 1.200 lugares, fechou em 1986 e permaneceu assim por anos, até reabrir com sessões frequentes de um único filme: os cultos da Igreja Renascer em Cristo.

O antigo cinema, que havia se tornado templo evangélico, assim permaneceu até 2008, quando foi interditado pela prefeitura, inaugurando um longo limbo em meio a disputas jurídicas. Em 2026, contudo, o cinema que virou igreja recebeu uma temporada de apresentações teatrais de Hamlet. Agora, prevê-se para 2027 a inauguração de um cinema —outra vez— com tela de LED de 17 metros, bar, gastronomia e espaços para conferências e eventos.

O projeto é uma iniciativa do Nubank e, por isso, rebatizará o espaço como Nu Cine Copan. De cinema a igreja e de igreja a cinema é o tipo de trajetória que nos ajuda a perceber a vida social dos templos religiosos. Assim como todos os outros espaços nas nossas cidades, as igrejas também estão em constante transformação, inclusive, deixando de sê-las.

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