quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Contadora de fiscal que extorquiu R$ 2 milhões de empresário fecha acordo de delação premiada, OESP

 Sob suspeita de exercer ‘atuação central’ em um esquema milionário de propinas que se teria instalado na Delegacia Regional Tributária de Osasco (Grande São Paulo), a contadora Nicéia Devecchi fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo no âmbito da Operação Fisco Paralelo - terceira fase da maior ofensiva já realizada pela Promotoria contra a corrupção na Receita estadual. Segundo os promotores do Grupo Especial de Repressão a Delitos Econômicos (Gedec), Nicéia era ligada ao ‘núcleo operacional da organização criminosa investigada na DRT-14’

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A contadora ‘confessou sua responsabilidade’ no caso, informou o Ministério Público. O Estadão busca contato com as defesas dos citados.

Segundo a investigação, Nicéia ‘atuava em conjunto’ com Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, a ‘Nina’, que também é contadora, ‘compartilhando arquivos, senhas e executando análises fiscais simultaneamente’. Os promotores sustentam que Nicéia ‘foi indicada por fiscais corruptos para operar pedidos de ressarcimento e crédito acumulado de ICMS para diversas empresas’.

Delegacia Regional Tributária (DRT-14) em Osasco
Delegacia Regional Tributária (DRT-14) em Osasco Foto: Google Maps

A Operação Fisco Paralelo mostra que Nicéia substituiu ‘Nina’ nos trabalhos realizados para uma empresa de produtos plásticos dirigida por um homem de 79 anos que denunciou o auditor fiscal Rafael Merighi Valenciano. Segundo o empresário, Rafael Valenciano - que chegou a ser preso em março - o extorquiu em R$ 2 milhões para não autuar sua firma. Os pagamentos se estenderam de meados de 2022 até julho de 2025, segundo a Promotoria.

Quando se viu com o caixa praticamente vazio, o velho empresário recorreu ao seu próprio veículo, uma picape Mitsubishi blindada modelo Triton Sport. “Em um dado momento, não tinha mais dinheiro físico à disposição, oportunidade em que dei um carro pessoal, que estava em nome da minha holding, como forma de pagamento”, relatou a vítima.

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Os promotores apuraram que a contadora Nicéia, na condição de braço direito do fiscal Valenciano, participou da elaboração e conferência de planilhas e notas fiscais usadas para pleitear ressarcimentos tributários. Ela teve ‘atuação central’ nos pedidos feitos para uma empresa de distribuição e importação de produtos alimentícios, empresa da qual ela figurava como contadora cadastrada no sistema do Fisco estadual.

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Operação Fisco Paralelo cumpriu 22 mandados de busca e apreensão em março
Operação Fisco Paralelo cumpriu 22 mandados de busca e apreensão em março Foto: MPSP

‘Peça essencial no fluxo’

A extração de diálogos de celulares de investigados revela que Nicéia também era responsável por ‘grande parte da execução dos trabalhos indicados pelos fiscais’. “Seu nome aparece associado a diversos processos de empresas prospectadas pela organização criminosa”, diz relatório do Ministério Público ao qual o Estadão teve acesso.

Ainda de acordo com os promotores, ‘as evidências indicam que Nicéia Devecchi recebia demandas diretas dos fiscais e operava como peça essencial no fluxo de emissão, conferência e submissão de pedidos tributários fraudulentos’.

O acordo de delação premiada de Nicéia foi apresentado à 2ª Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores da Comarca de São Paulo. Os promotores do Gedec informam que o termo e seus anexos vão permanecer sob sigilo. Diante da ‘confissão de responsabilidade’ da contadora, a Promotoria retirou pedidos de medidas cautelares diversas da prisão em relação à Nicéia.

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